2. Introdução

Introdução à Teologia Sistemática

Introdução

Mauro Fernando Meister

Teologia Bíblica é a disciplina de nosso curso que vai auxiliar a somar "as partes" do trabalho de interpretação. E essa soma se dará de modo mais completo se você já passou pela História da Interpretação, pelos Panoramas (AT e NT) e por Princípios de Interpretação.
Talvez sua indagação até aqui seja: Quando vou começar a somar as partes?

Pois é chegada a hora! Ainda que essa disciplina não trate diretamente de métodos exegéticos, ela é parte do departamento exegético. Nela unimos o conhecimento das línguas originais (que não é parte de nosso programa), o conhecimento das introduções, a história e geografia da Bíblia e também a utilizamos como ferramental para a pregação, como um pano de fundo  de toda a revelação.

A sequência das disciplinas do departamento exegético funciona assim:

Hermenêutica

>

Exegese

>

Teologia Bíblica

(Sobre este assunto veja o artigo de Paulo Anglada Orare et Labutare: A Hermenêutica Reformada das Escrituras, Fides Reformata 2:1 (1997)

Veja abaixo alguns ítens importantes que possibilitarão o desenvolvemento harmonioso de nossas aulas:

Abordagem, limites e propósitos

O curso se propõe a dar uma visão geral do que é a Telogia Bíblica como disciplina acadêmica, sua definição, história, desenvolvimento e, finalmente, a exposição dessa teologia.

Seria presunção nossa tentar abordar toda a Telogia Bíblica em um só curso. Seriam necessários muitos cursos para isto. No entanto, a proposta de nossas aulas é a de fornecer ao aluno um método que lhe permita ler a Bíblia com um pano de fundo bíblico teológico.

Dessa forma a TB vai contribuir com o estudante na sua capacidade de LER a Bíblia e COMPREENDÊ-LA de forma coerente e harmoniosa.

Requerimentos da Disciplina

Para que o aluno conclua de forma satisfatória essa disciplina, terá de satisfazer algumas exigências, que incluem leituras adicionais, testes e um relatório de leitura.

Leituras obrigatórias durante a Disciplina

Em cada aula poderá haver uma ou mais leituras obrigatórias. Essas leituras estarão disponíveis para leitura online ou para download em diversos formatos, para leitura off-line, no site de cada aula.

Essas leituras têm como objetivo ilustrar, enriquecer e consolidar a aula. É importante que o aluno não deixe acumular as leituras. Ao fim da disciplina será requerida uma declaração de que as mesmas foram todas feitas.

Além das leituras obrigatórias, outras leituras estão indicadas, caso ao aluno deseje aprofundar-se no assunto. Também serão indicados links para sites ou artigos relevantes.

Provas

Haverá provas online que serão marcadas pelo professor no decorrer do curso. Provavelmente a cada 3 aulas. Isto também dependerá do andamento da turma.

Funcionamento da disciplina

Aulas

As aulas serão disponibilizadas do site da disciplina. O aluno deverá seguir o calendário de atividades que se encontra ali, que foi projetado para que o aluno complete todas as aulas em 30 dias. O aluno deverá baixar a aula, ler a matéria, fazer as leituras indicadas, utilizar-se dos outros recursos e finalizar a provinha. Uma vez concluída a aula, deverá passar para a seguinte, e assim sucessivamente, até concluir todas aulas.

Chats

Ocorrerão algumas vezes por semana em horários e dias a serem marcados pelo professor e pela turma. O chat deverá versar sobre os temas das aulas ou assuntos relacionados. Há um código de conduta no chat que deverá ser seguido por todos.

Consultas ao Professor

Estarei à disposição de todos os alunos que desejarem orientação individual durante o período da disciplina. Por favor, não hesite em contatar-me caso deseje. Há diversos modos de se fazer isso:

Email

Deixar mensagem no Correio da Aula.

Também é possível marcar com o aluno uma hora para usarmos o chat da disciplina.


3. Aula 1: Definição

Teologia Bíblica
Mauro Meister

Aula 1: Definição

O que é Teologia Bíblica?

Não é óbvio que TEOLOGIA tem que ser BÍBLICA? Na estrutura dos estudos acadêmicos, não.

Na chamada Enciclopédia Teológica encontramos "diferentes" teologias, algumas bíblicas e outras, nem tanto. A teologia pode ter no seu processo de construção diversos métodos e pressupostos. A teologia pode ter um caráter puramente filosófico e até mesmo esquecer-se da Bíblia. Em outros casos, a teologia pode, e de fato muitos o fizeram, negar a própria Bíblia como fonte para a teologia. Mas nosso propósito maior nesse curso é entendermos a teologia bíblica como disciplina acadêmica, estudar a respeito de sua origem e depois aplicarmo-nos ao estudo de uma proposta específica de teologia bíblica.

Um estudioso da área, chamado Gerhard Hasel, lista em seu livro Teologia do Antigo Testamento: Questões do Debate Atual, mais de 950 títulos de livros e artigos que tratam da teologia bíblica nos mais diversos aspectos. Entre os estudiosos existe, de fato, uma grande crise, até mesmo na definição do que seja teologia bíblica. Mas não nos deixemos desanimar!

Terreno

Para começar o esboço de nossa definição precisamos mapear a área em que estamos andando, afinal, queremos dar passos seguros. Para começar a mapear a área é muito importante definir quais são os pressupostos com que vamos trabalhar. Quando usamos o termo BÍBLICA no título da disciplina, o que isso significa? Um simples texto que manifesta uma série de verdades universais? Um livro que reflete um grande número de crenças de um povo antigo chamado Israel e uma comunidade chamada cristã? Ou a Bíblia é mais do que isto?

O cristianismo histórico tem definido a Bíblia como a Palavra de Deus e acrescido à essa definição qualificadores que nos permitem identificar exatamente o que queremos dizer. Os cristãos afirmaram através dos tempos que esse livro chamado Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, infalível, inerrante, autoritativa e a sua única regra de fé e prática (ver esses conceitos estão explicados nas aulas do curso de Panorama do Antigo Testamento). Nela Deus revelou tudo o que Lhe aprouve revelar para o bem dos seus filhos. Segundo a Confissão de Fé de Westminster "...foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda..." (Daqui para frente CFW).

Portanto, em nossa definição, estamos tomando o conceito acima como ponto de partida. Isso é fundamental, porque no universo acadêmico vamos encontrar muitos estudiosos lidando com  a teologia bíblica sem, no entanto, considerar qualquer dessas definições verdadeiras. Isso pode tornar as coisas um tanto confusas. O conceito acima é conhecido como um conceito ORTODOXO. Em contrapartida encontramos os NÃO-ORTODOXOS.

Ortodoxia

Os ortodoxos são os estudiosos que aceitam plenamente a definição acima sobre a Bíblia. Neste grupo podemos encontrar um grande número de representantes em diferentes denominações históricas. Em alguns casos são chamados de conservadores, fundamentalistas ou até mesmo evangélicos somente (principalmente no contexto norte americano).

Não ortodoxia

Os não-ortodoxos não aceitam as teorias da inspiração das Escrituras, infalibilidade e inerrância. Também estão representados em várias denominações históricas. Usam nos seus estudos um linguajar extremamente semelhante ao que os ortodoxos usam, podendo confundir quem ouve a respeito de sua posição. Em alguns casos são chamados de liberais ou neo-ortodoxos. A maioria dos livros de teologia bíblica traduzidos para a língua portuguesa é de origem não-ortodoxa. São publicados principalmente pelas edições Paulinas, Paulus, Vozes, Sinodal, e ASTE, entre outros. Algumas vezes esses textos serão citados e comentados, para termos uma ideia clara das diferenças que os pressupostos fazem em nossa teologia.

Buscando uma definição ortodoxa

1. George Ladd (Teologia do Novo Testamento (Rio de Janeiro: JUERP, 1984), p. 25) trás a seguinte definição:

“A teologia bíblica é a disciplina que estrutura a mensagem dos livros da bíblia em seu ambiente formativo histórico. A teologia bíblica é primariamente uma disciplina descritiva. Ela não está inicialmente preocupada com o significado último  dos ensinos da Bíblia ou com a sua relevância para os dias atuais. Esta é a tarefa da teologia sistemática. A tarefa da teologia bíblica é de expor a teologia encontrada na Bíblia em seu próprio contexto histórico, com seus principais termos, categorias e formas de pensamentos. O propósito da Bíblia é contar uma estória sobre Deus e seus atos na história.”

2. Wilson C. Ferreira (Esboço de Teologia Bíblica do Novo e Velho Testamentos, (Campinas: LPC, 1985), p. 20-21) responde à pergunta tema de nossa aula da seguinte forma:

“Teologia Bíblica é o ramo da Teologia Exegética que busca descobrir, conhecer e explicar a revelação de Deus ao homem, conforme se entende das Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento – A Bíblia Sagrada.”

3. Grant Osborne (Hermeneutical Spiral (Doners Grove: Intervarsity Press, 1991), p. 263) define a Teologia Bíblica como “o braço da pesquisa teológica que se preocupa em encontrar temas através das diversas seções da Bíblia e então procurar os temas unificadores da Bíblia.”

Pontos em comum entre as três definições: A Bíblia é fonte última para a sua tarefa.

Pontos discordantes.

a. Observe que a primeira definição diz que a Teologia Bíblica (de agora em diante TB) é uma disciplina primariamente descritiva;

b. já a segunda definição abre um pouco mais o campo da TB quando fala em "conhecer e explicar" a revelação;

c. a terceira definição tem uma ênfase temática.

Pessoalmente creio que a TB tem um papel mais abrangente do que a descrição, trabalhando diretamente com o significado dessa descrição. Portanto, creio que a TB tem um papel descritivo e normativo (a preocupação em retirar o significado último do texto). Estas dificuldades quanto à definição da matéria surgem principalmente na compreensão da relação da disciplina com outras disciplinas.

A Relação da TB e outras disciplinas

Entender a relação da TB com outras disciplinas da enciclopédia teológica nos ajuda a compreende melhor para que estudamos a matéria. Perguntas imediatas nos surgem quando citamos a TB, tais como, em que ela é diferente da Teologia Sistemática ou Dogmática?

Normalmente entendemos que as disciplinas bíblicas se relacionam da seguinte forma: (Ver o artigo de Paulo Anglada, Orare et Labutare (leituras complementares no WebCT).

 

a. A hermenêutica nos fornece as regras pelas quais devemos abordar o texto bíblico.

b. A exegese nos fornece os instrumentos de precisão, incluindo as línguas originais, para obter o sentido exato de um texto.
c. A TB trás a exegese ao contexto do todo e fornece o material base para a sistematização, que por sua vez é usada para a boa pregação da Palavra de Deus.

 

Teologia Bíblica e Exegese

(Boa parte do material abaixo é traduzido e adaptado de Grant Osbrone, Hermeneutical Spiral)

Ainda que a ordem lógica no gráfico acima seja a TB precedida da exegese, existe uma tensão continua entre as duas disciplinas. O significado último de um texto não é determinado de maneira isolada. De certa forma a TB é reguladora da exegese (Gaffin, “Systematic Theology and Biblical Theology” em The New Testament Student and Theology 3:35-37 ed. John Skilton (Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed), p. 44).

Por exemplo, uma interpretação textual isolada da teologia de Paulo e Tiago levaria o exegeta a conclusões contraditórias sobre o tema “fé e obras”:

Ef 2.8-9
Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Tg 2.14-17

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.

É a TB que nos auxilia na compreensão do todo e nos leva a concluir que ninguém pode ser salvo pelas obras, mas, no entanto, as obras são um resultado da fé verdadeira. Lendo passagens isoladas podemos chegar a conclusões contraditórias. Porém, no nível mais profundo, além da superfície, os dois temas são harmônicos. É desta forma que a TB exerce o seu papel

Teologia Bíblica e Teologia Sistemática

Esse é outro aspecto muito importante de ser observado em nossa disciplina. Segundo o gráfico apresentado anteriormente a TB precede a teologia sistemática. Como está implícito no nome da disciplina, a teologia sistemática encarrega-se de sistematizar as verdades bíblicas ensinadas pela TB. Enquanto a TB se limita a trabalhar com essas verdades procurando observar estritamente o caráter progressivo da revelação de Deus, limitando-se às Escrituras, a teologia sistemática busca outros recursos para completar sua tarefa. A filosofia, história e a própria revelação natural são parte do campo de trabalho da teologia sistemática.

Teologia Bíblica
Teologia Sistemática
Origem Histórica
Origem didática

É importante notar que as duas disciplinas não são e não devem ser ensinadas como excludentes (o que já aconteceu por vezes no passado). Ainda que a teologia sistemática, como disciplina acadêmica, tenha nascido anteriormente à TB, ela, na verdade, deve sempre ser primeiramente bíblica. Assim, por exemplo, podemos ver a teologia de João Calvino conforme expressa nas Institutas da Religião Cristã. Ainda que a teologia ali encontrada seja exposta de maneira sistemática, ela parte de uma compreensão contextualizada do texto bíblico.

Um dos grandes problemas da história da teologia sistemática é que houve tempos em que os teólogos ignoravam o caráter progressivo da revelação a ponto de usarem o texto bíblico como um “texto prova” para os dogmas já estabelecidos, sem levar em consideração o contexto e as regras hermenêuticas necessárias para uma correta interpretação.

Por fim, a metodologia das duas disciplinas é diferente, ainda que ambas tenham um mesmo alvo, esclarecer a revelação de Deus. Para muitos estudiosos a tarefa da TB é puramente descritiva (como vimos na citação de Ladd, acima) enquanto o papel da sistemática seria o de “conversão” das verdades descritas em verdades aplicáveis. Como se pudéssemos dizer que a TB nos diz o que o texto significou, e a sistemática o que ele significa.

Teologia Bíblica e Teologia Histórica

Precisamos primeiro definir o que é teologia histórica. Isso porque normalmente não encontramos uma disciplina específica com esse nome em nossos currículos de seminários. A teologia histórica trabalha com a história do dogma ou a história da própria teologia. Entendendo a história da igreja podemos perceber como uma determinada doutrina se desenvolveu em diferentes períodos da história e traçar a origem e as estruturas que estão por trás da nossa própria tradição confessional.

A teologia histórica, infelizmente, é muitas vezes relegada a um segundo plano nos estudos acadêmicos. Isso nos trás grande prejuízo. A teologia histórica nos ajuda a entender a nossa origem, as raízes do nosso procedimento hermenêutico e nos serve como um ponto de referência a fim de analisarmos nossos próprios pressupostos. Todos nós temos um “pré-entendimento” do texto e esse dever ser claro a nós mesmos. À luz da teologia histórica podemos reavaliar e alterar o nosso “pré-entendimento.” Só assim poderemos seguir conscientemente na busca do significado verdadeiro de um texto e sua teologia.

 

Com esse gráfico queremos demonstrar o aspecto de interdependência da TB e teologia sistemática e como elas interagem com os dados bíblicos e nosso pré-entendimento a respeito do texto. Em última instância, é muito difícil separar com precisão a área de abrangência de cada uma das duas disciplinas. A interação do teólogo com os dados e o pré-entendimento de cada um no seu campo de conhecimento cria o que Osborne chamou de “círculo hermenêutico.”

Teologia Bíblica e Teologia Homilética

Ainda que a TB tenha a sua tarefa descritiva específica, é impossível separá-la da pregação. Qualquer um que leia o texto bíblico está interessado em saber o que ele significou e o que ele significa. Nesse ponto a TB e a pregação andam próximas, ainda que vários estágios estejam envolvidos no processo. No próprio ato da pregação bíblica, especialmente da exposição de um texto, é fundamental que se passe pela contextualização da passagem individual ao seu ambiente teológico, ao lugar em que esse texto específico ocupa no todo da Escritura.

O Expositor bíblico é aquele que faz a mistura das duas disciplinas. De acordo com Osborne, ao mesmo tempo em que existe a proximidade, existe a distância. Ele diz “Os dados bíblicos foram traduzidos e intrepretados pela exegese, combinados pela TB, transformados em teses dogmáticas pela teologia sistemática, desenvolvidos em padrões de pensamento de várias situações e tradições pela teologia histórica e agora é aplicado à situação corrente pela teologia homilética.” (p. 270) No entanto, no ato de expor o pensamento do texto bíblico a TB é uma ferramenta essencial.

Como definição adotaremos inicialmente a proposta de Gerhardus Vos:

A Teologia Bíblica é o braço da Teologia Exegética que lida com o processo da auto-revelação de Deus
registrado na Bíblia (Biblical Theology: Old and New Testament.
Edinburgh: The Banner of Trush Trust, 1975).

Gerard Van Groningen concorda e acrescenta:

Finalmente, o assunto da teologia bíblica é o processo da revelação divina. De fato, a teologia bíblica, como disciplina, se endereça particularmente e especificamente à história da revelação porquanto executada no curso do tempo de Adão a Malaquias e desde a anunciação do nascimento de Cristo até o último escrito inspirado do apóstolo João, o Livro de Apocalipse.

(From Creation to Consumation, Siux Center: Dort Press College, 1996 - Em tradução pela Editora Cultura Cristã - várias de nossas aulas posteriores são capítulos do livro de Van Groningen adaptados para o nosso curso).

Nossa tarefa, portanto, será a de estudar o registro da revelação de Deus conforme se encontra nas Escrituras compreendendo todo o seu contexto dentro de uma determinda proposta.

Implicações práticas

Diante da definição e relação da TB com outras disciplinas da enciclopédia teológica podemos observar a sua importância como:

  1. A disciplina que colhe diretamente e organiza os primeiros frutos da exegese propriamente dita. 
  2. Dá o primeiro passo na direção da contextualização maior dos textos individuais, assim como de livros e seções da Bíblia.
  3. Como fonte primária para o trabalho da teologia sistemática evita que o dogma se torne imutável diante da própria Escritura (o que acontece na Igreja Católica Romana).
  4. Facilita a leitura das Escrituras mostrando a unidade e progresso da revelação de Deus a seu povo.
  5. Serve como uma ferramenta indispensável na exposição das Escrituras.

De certa forma pode se dizer que a TB é a disciplina onde várias outras matérias da enciclopédia teológica se encontram.

SUAS TAREFAS

Após ter lido e estudado a aula, clique no ícone Referências na barra de ícones acima, localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s). Se desejar, faça a(s) leitura(s) complementar(es). Ao terminar, deixe-me uma mensagem dizendo que fez a leitura obrigatória. Pode incluir seus comentários e opiniões sobre as leituras.


4. Aula 2: Desenvolvimento

Aula 2: Desenvolvimento

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 2: Desenvolvimento

Vários estudiosos da teologia bíblica crêem que existe um tema central unificador da teologia do Antigo Testamento (um Mitte) que “costura” as diversas partes do texto, apresentando, pelo menos, uma idéia teológica geral. Outros entendem que esse Mitte estende-se do AT para o NT.

Certamente, devido aos muitos pressupostos envolvidos, esse conceito é muito discutido entre os teólogos. Entre os teólogos não ortodoxos esse conceito se torna ainda mais complexo, dependendo principalmente da escola crítica à qual está associado. Os teólogos ortodoxos também encontram dificuldades para definir qual seria esse centro unificador.

Quais são os principais problemas encontrados pelos estudiosos para a formulação de uma metodologia para a disciplina?

Unidade e diversidade

Esse é possivelmente o cerne de todo o debate no que diz respeito ao chamado método histórico-crítico de interpretação. Os teólogos críticos, em sua maioria, duvidam que seja possível encontrar um centro teológico capaz de amalgamar temas teológicos ou doutrinas. Isto se dá, principalmente, porque partem do pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes fontes da tradição da religião de Israel e do antigo Oriente Próximo, tradições essas que são circunstanciais. A descrença em um “processo” de auto-revelação torna impossível pensar que entre os diferentes escritos, cada um com uma tradição independente, exista algum tipo de unidade. 

Principais dificuldades dos não ortodoxos para encontrar em tema central unificador:
1. Método de interpretação histórico-crítico (veja o texto da leitura obrigatória da aula 1).
2. Pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes fontes
3. Pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes tradições
4. Desacreditam do processo de "auto-revelação" de Deus
5. Não crêem no processo de inspiração verbal da Escrituras

Sem dúvida existe grande diversidade entre os escritos da Bíblia. Não só em relação à extensão de tempo em que foram produzidos como também com relação aos motivos particulares que formam o ambiente em que cada um deles foi composto.  Tanto Israel quanto a igreja primitiva, onde cada um dos escritos do AT e NT nasceram, tinham questões e problemas a serem resolvidos. 

Mas será que essa diversidade faz com que a possibilidade de uma unidade desapareça?

É isso que postulam muitos estudiosos críticos. No entanto, esse ceticismo é parte dos pressupostos histórico-críticos. Até mesmo alguns estudiosos críticos encontram temas que expressam a unidade mais profunda entre os escritos bíblicos. Aliás, o primeiro teólogo-bíblico da era moderna a propor o “pacto” como tema unificador foi Eichrodt (W. Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres: SCM Press, 1961). Já outros postulam que não exista qualquer unidade entre os escritos vétero-testamentários (von Rad, G., Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: ASTE, 1974).

A diversidade não implica em desunidade, antes, nos dá a oportunidade de encontrar a unidade em um nível mais profundo do que o superficial. É interessante observar que toda a formulação da Confissão de Fé de Westminster quanto ao seu sistema teológico é fundamentada sobre o entendimento pactual (CFW, cap. VII).

Portanto, a diversidade não é um fator que impossibilite a unidade.

História da Tradição

A história da tradição é um fator complicador da teologia bíblica entre os estudiosos críticos. Esse método de abordagem do texto bíblico tenta fazer uma reconstrução radical da história do texto, considerando as muitas tradições que estão por trás do mesmo, sem contemplar o produto final, o texto propriamente dito. 

Um famoso proponente dessa escola é Martin Noth, que afirma ser o texto bíblico derivado de um grande número de tradições orais que em determinado tempo foram reunidas por um editor que lhas deu um caráter nacional (ver Augustus Nicodemus Gomes Lopes, “Lendo Josué como Escritura”, Fides Reformata 4/2 (1999) 5-24, 7). 

Outra linha dentro do método da história da tradição, ao contrário de Noth, afirma que as tradições são o resultado final de um longo processo de interpretação e re-interpretação das tradições para que as mesmas pudessem ser relevantes em novas situações. Um exemplo seria a tradição dos Dez Mandamentos que foi re-interpetada diante de diferentes situações:

Êxodo 20
Deuteronômio 5
8 Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. 9 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; 11 porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.
12 Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o SENHOR, teu Deus. 13 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 14 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; 15 porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.

 

Para o intérprete histórico-crítico isso é uma "evidência" para sua postura, uma demonstração clara de que o texto passa por revisões diante de cada geração. E devemos concordar com isto. No entanto, nossos pressupostos são diferentes. Na visão ortodoxa uma tradição re-interpreta a anterior em plena harmonia e por iniciativa divina. Portanto, não há entre elas contradição. O mesmo caso se dá com os livros de Reis e Crônicas que contam a mesma história de perspectivas diferentes ou ainda, com o quatro evangelhos. 

O fato é que a história da tradição depende de um grande volume de especulação em torno da reconstrução do texto, especulações estas que mudam de acordo os “ventos”  das opiniões históricas e que tornam impossível o desenvolvimento de uma TB.

Portanto, ainda que seja importante estarmos conscientes da história da tradição, ela não é uma ferramenta que tenha grande utilidade ou que seja tão essencial para o desenvolvimento da TB.

Teologia e Cânon

As discussões em torno do cânon certamente são determinantes com relação à nossa forma de abordar a TB. Há muitos séculos a igreja percebeu e reconheceu o cânon das Escrituras (aqui é importante lembrar ou aguardar as aulas aulas de Panorama do AT e NT). Foi sobre o cânon que a igreja desenvolveu sua percepção teológica, submetendo-se à revelação de Deus. Os estudos críticos vieram se contrapor a essa percepção, negando a autoridade do cânon em virtude do ceticismo quanto a revelação de Deus. Por várias décadas deixou-se de falar em TB entre os estudiosos críticos, vindo a ênfase a recair sobre a história de Israel e das tradições e fontes por trás do texto. Isso mudou a partir da década de 30 do século XX, quando houve um retorno ao estudo da TB. As propostas histórico-críticas mais recentes contemplam uma análise canônica das Escrituras.

No entanto, há um aspecto importante de ser observado que é a tendência de muitos teólogos, principalmente na área dogmática, de operar com um “cânon dentro do cânon.” Que quer dizer isto? É que muitas vezes nos deixamos envolver por determinados pressupostos que nos fazem “escolher” dentro do cânon aquilo que mais nos agrada. Acabamos dando uma ênfase não natural em determinadas linhas, fazendo-as mais centrais. Observe bem que com isso não queremos afirmar que não existam linhas mais centrais. O problema é a subjetividade na determinação destes temas, principalmente quando usamos “textos prova”, sem a observação contextual necessária. Isso acaba formando um cânon dentro do cânon. Devemos sempre levar em consideração a unidade das Escrituras e o cânon como um todo. Só assim o dogma, a comunidade ou o especialista deixarão de predominar sobre o contexto canônico.

A Analogia Fidei e a Revelação Progressiva

A analogia da fé é outro assunto muito importante para o estudioso da TB. A analogia da fé é o princípio reformado de que a Escritura interpreta a Escritura (lembre-se da aula 5 no curso de História da Interpretação Cristã das Escrituras). Osborne propõe que talvez o melhor termo para ser usado fosse analogia scriptura (Hermeneutical Spiral, 273). Esse princípio, quando mal aplicado, gera uma distorção na TB. Isso acontece quando a analogia em passagens paralelas é usada para determinar o sentido do texto, sem deixar que a passagem fale por si mesma. Isto pode gerar uma “conformidade artificial.” Isso acontece, sobretudo, quando a TB não é trabalhada como precedente da teologia sistemática. Acaba-se por inserir no texto um significado que não é o pretendido originalmente. É o que alguns cristãos fazem ao estudar apenas com uma chave bíblica, explorando um tema. Não que seja errado, mas deve-se tomar o cuidado de considerar os termos em seus contextos.

É realmente perigoso quando permite-se que a fé determine o sentido do texto. Deve acontecer exatamente o contrário. No entanto, não podemos nunca esquecer que a interpretação sempre envolve pressupostos. Assim, devemos trabalhar na TB sempre em diálogo consciente com a teologia sistemática, perguntando se o sistema teológico não ultrapassou os limites do texto ou torceu o texto em função de seus pressupostos.

Outro perigo fundamental é a “paralelomania.” Isso acontece quando o intérprete, sem uma análise bíblico-teológica aprofundada, considera dois textos (seja por semelhança de palavras, temas ou situações) como paralelos. É muito importante que o teólogo bíblico tenha plena consciência do caráter progressivo da revelação de Deus que está registrado nas Escrituras. Veja o exemplo na leitura obrigatória sobre o Salmo 133.

Antigo e Novo Testamento

Talvez essa seja a área mais difícil de se chegar a um consenso entre os teólogos bíblicos e uma área  central no debate sobre a TB. Esse aspecto está intimamente ligado a “unidade e diversidade.” Qual é a autonomia dos testamentos dentro da unidade bíblica? Fala-se constantemente sobre TB do AT e TB do NT. Seria essa uma terminologia apropriada? Muitos teólogos  têm advogado uma total descontinuidade, considerando o NT o início de uma nova religião. O famoso teólogo Bultmann pergunta em seu artigo sobre profecia e cumprimento: “Quanto, então, a história judaica do Antigo Testamento representa a profecia cumprida na história da comunidade do Novo Testamento? Ela é cumprida na sua contradição interna, é um aborto.”

Para esse crítico não existe continuidade... somente um aborto. (Rudolf Bultmann, “Prophecy and Fulfillment” em Claus Westermann, Essays in Old Testament Hermeneutics (Richmond: John Knox Press, 1963), 50-75, 72). No entanto, essa separação absoluta é fruto do negativismo próprio de alguns teólogos críticos.

O simples fato do AT ser citado algumas centenas de vezes no NT, e de existirem, segundo alguns autores, mais de 1100 alusões do AT no NT, é suficiente para que se reconheça o quanto o NT depende , na sua formação, do AT. Não só nisto, mas também com relação aos temas, vocabulário, relações tipológicas e demonstração do progresso da revelação, fica clara a interdependência dos testamentos.

Só nisto temos suficiente evidência de continuidade entre os testamentos. 

É muito importante que o teólogo bíblico tenha uma noção muito clara da continuidade e unidade das Escrituras, o seu material básico na construção da TB.

Implicações práticas

Ainda que existam questões a serem discutidas quanto a um tema teológico central, elas não são insuperáveis. Como vimos, as dificuldades não nos impedem de buscar um “centro unificador” ou um Mitte para a teologia. No nosso curso vamos adotar um Mitte com três temas, a saber – Reino / Pacto / Mediador. Essa é a proposta de Van Groningen em seus livros Revelação Messiânica do Velho Testamento (Campinas: LPC, 1995), 942 páginas e From Creation to Consumation (Siux Center: Dort Press College, 1996), 604 páginas - Em tradução pela Editora Cultura Cristã).

 

O reino o pacto e o mediador são os temas que interligam os Testamentos e os livros de cada um, mostrando a unidade essencial da revelação progressiva de Deus ao seu povo.

Em uma aula posterior estudaremos cada um desses temas detalhadamente.

Após ter lido e estudado a aula, clique no ícone Referências na barra de ícones acima, localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s).


5. Aula 3: Esboçando a Teologia Bíblica

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 3: Esboçando a Teologia Bíblica

Terminamos a aula passada afirmando que o reino, o pacto e o mediador são os temas que interligam os Testamentos e os livros de cada um, mostrando a unidade essencial da revelação progressiva de Deus ao seu povo. Veremos na próxima aula as características de cada um desses temas integrados. Porém, antes dessa análise ainda se faz necessário determinar que metodologia seguiremos. Como abordar as Escrituras com esses temas? Seria suficiente verificar tudo o que Bíblia fala sobre cada um deles e condensar esse ensino em três grandes capítulos? Ou seria melhor abordar cada livro da Bíblia para ver o que fala sobre esses temas? Ou ainda, analisar o desenvolvimento desses temas numa linha histórica?

Veja na tabela abaixo os métodos mais comuns de se trabalhar a Teologia Bíblica (Extraído da Enciclopédia Histórica-Teológica da Igreja Cristã. Tópico “Teologia do Novo Testamento” – Volume III, págs. 500 - 507 )

Método

Conceito

Valor

Perigo

a) Sintético

Segue os temas teológicos básicos por todas as partes das Escrituras a fim de notar seu desenvolvimento através do período bíblico

Ênfase que dá à unidade das Escrituras

Tendência para a subjetividade: é possível enquadrar a matéria do NT dentro de um padrão artificial

b) Analítico

Estuda a teologia distintiva de seções individuais e nota a mensagem específica de cada uma delas

Ênfase no significado do autor individual

Diversidade radical, que resulta numa colagem de quadros, sem coesão

c) Histórico

Estuda o desenvolvimento de idéias religiosas na vida do povo de Deus

Tentativa de entender a comunidade dos crentes por trás da Bíblia

Subjetividade da maioria das reconstruções, nas quais o texto bíblico está à mercê do pesquisador.

d) Cristológico

Faz de Cristo a chave hermenêutica dos dois Testamentos

Reconhecimento do verdadeiro centro da Bíblia

Tendência de espiritualizar passagens e forçar interpretações que lhes são estranhas, especialmente em termos da experiência veterotestamentária de Israel. Não se deve considerar que tudo no AT ou no NT seja um "tipo de Cristo”.

e)Confessional

Considera a Bíblia como uma série de declarações de fé que estão além do alcance da história

Reconhecimento dos credos e da adoração no NT

Separação radical entre a fé e a história

f) Corte Transversal

Segue um só tema unificador (ex., a aliança ou as promessas) e o estuda historicamente por meio de cortes transversais ou amostragens do registro canônico

Compreensão dos temas principais que ele oferece

Seleção arbitrária. Se alguém selecionar o tema central errado, outros temas podem ser forçados a se harmonizarem com ele.

Método Misto

Como vimos acima, cada um dos métodos possui algum ponto positivo. A combinação dos pontos positivos e o uso do texto bíblico como guia, com pressupostos claros, pode eliminar várias de suas dificuldades. É por ai que vamos trabalhar o nosso esboço bíblico teológico. Osborne propõe alguns critérios para se chegar a uma proposta integradora que devemos ter em mente.  Acrescento alguns pontos à proposta de Osborne e modifico outros abaixo:

1. Os dados na construção teológica devem refletir o pensamento individual de um autor         assim como o gênero literário que é utilizado (sabedoria, o pensamento de Marcos ou Mateus, ou Rute).
2. Devemos trabalhar com a forma canônica final dos documentos (para evitar a reconstrução especulativa) e buscar o inter-relacionamento dos temas teológicos entre autores e livros da Bíblia.
3. Começar com o pensamento das obras e autores individualmente e depois traçar os temas à medida em que eles emergem naturalmente desses escritos e depois verificar os aspectos de unidade.
4. Descobrir os temas individuais e depois a sua unidade dinâmica e os aspectos múltiplos que os unem.
5. Trabalhar com o pressuposto de que os autores individuais conheciam, em certa medida, o pensamento de autores anteriores a eles, assim como aspectos do pensamento de seus contemporâneos.
6. Trabalhar com ambos os testamentos, enfatizando tanto a sua unidade como a diversidade.

Dessa forma estaremos aplicando os pontos positivos dos métodos acima. Aceitando como verdadeiras as perspectivas dos autores bíblicos (método confessional), procurando porém, não deixar de lado a abordagem descritiva, que considera de maneira relevante o aspecto histórico e o desenvolvimento da revelação na história.

A questão do Dispensacionalismo

O dispensacionalismo é uma forma de esboço bíblico teológico que merece uma pequena descrição por ser o método mais popular de interpretação das Escrituras. Sugiro a leitura do capítulo  "Alianças ou Dispensações: Qual destas estrutura a Bíblia?" de Palmer O. Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997).

A interpretação dispensacionalista é oposta à interpretação pactual. A literatura que popularizou o dispensacionalismo na sua forma mais básica foi a Bíblia Anotada de Scofield (1910) e a literatura  dispensacionalista é representada hoje por autores como Ryrie e Dwight Pentecost, John McArthur, Charles Swindoll; o Seminário de Dallas é certamente o maior centro de divulgação desta teologia. É certo que a interpretação dispensacionalista moderna difere em muito da antiga interpretação de Scofield. É importante observar que dispensacionalistas, ainda que em oposição à teologia Reformada pactual, são grandes aliados contra o liberalismo, modernismo e neo-ortodoxia.

O dispensacionalismo básico divide a história da salvação em sete dispensações (períodos), começando com a dispensação da inocência. Mais recentemente já se fala em aliança edênica. Veja o quadro abaixo.

A divisão da história da redenção conforme o pensamento dispensacionalista clássico
Inocência
Consiência
Governo Humano
Promessa
 Lei
Graça
Plenitude dos Tempos

Um dos resultados mais problemáticos, e mais visível, dessa forma de interpretação é a distinção entre dois propósitos de Deus através da história. No dispensacionalismo não se vê uma unidade de propósito no plano de Deus. Não se pode afirmar simplesmente que Deus trabalha para redimir um povo para si mesmo. Segundo o dispensacionalismo Deus tem um propósito para o Israel étnico e outro para a igreja! São dois propósitos distintos. 

Robertson faz uma boa comparação do sistema dispensacionalista com o pactual.

A Questão Pactual

No sistema pactual afirmamos que a história da redenção é contínua e que a vinda do Messias é o cumprimento da promessa feita por Deus a Adão e Eva em Gênesis 3, no que chamamos de o proto-evangelho. O propósito de Deus na redenção é único: redimir um povo para si, sem a distinção entre Israel e a Igreja. A igreja é o verdadeiro Israel de Deus e Jesus Cristo, o Rei da aliança davídica, é o mesmo Rei e Senhor da Igreja. A Confissão de Fé de Westminster fala de duas dispensações, referindo-se à forma de administração do pacto da graça no período do AT e NT. Para maior esclarecimento dessa relação, faça a leitura obrigatória, "Lei e Graça" nas referências.

A proposta do nosso curso é pactual. O esquema abaixo esboça a idéia do progresso da revelação de Deus dentro do princípio pactual. A idéia abaixo não é de nos dar um "molde" para ler as Escrituras, mas é a reflexão do que cremos ser a estrutura da revelação conforme a encontramos nas Escrituras.

Note os seguintes aspectos:

(1) O reino cósmico de Deus é o palco em que toda a criação está incluída (representado pela linha tracejada).
(2) Deus se revelou no tempo da criação, e enquanto o fez, ele pactuou com Adão e Eva (o pacto da criação é representado pelas linhas escuras dentro das quais os períodos pactuais aconteceram).
(3) Nove períodos pactuais, durante os quais foi dada cada vez mais revelação, seguiram-se um ao outro. Cada um pressupõe a presença e atuação continuada dos precedentes.
(4) A revelação dada no primeiro não é anulada; ela é expandida e explicada.
(5) O pacto é o meio administrativo que passa pelo centro.
(6)  No âmago do pacto está o mediador (entre as duas linhas centrais).
(7) Quando Deus garantiu a Noé que seu pacto seria mantido, ele falou do pacto da criação, com o pacto redentor sustentando-o e desenvolvendo-o. 

Bibliografia principal:

G. van Groningen, Revelação Messiânica do Velho Testamento (Campinas: LPC, 1995), 942 páginas,
From Creation to Consumation (Siux Center: Dort Press College, 1996), 604 páginas - Em tradução pela Editora Cultura Cristã) e
O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997).

Após ter lido e estudado a aula, clique no ícone Referências na barra de ícones acima, localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s). Se desejar, faça a(s) leitura(s) complementar(es). Ao terminar, deixe-me uma mensagem dizendo que fez a leitura obrigatória. Pode incluir seus comentários e opiniões sobre as leituras.



6. Aula 4: Mitte - Temas Integrados

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 4: Mitte - Temas Integrados

Como dito anteriormente, vários estudiosos da teologia bíblica crêem que existe um tema central unificador da teologia do Antigo Testamento (um Mitte ) que costura as diversas partes do texto, apresentando, pelo menos, uma idéia teológica geral. Outros entendem que esse Mitte estende-se do AT para o NT. Terminamos nossa aula anterior afirmando que o nosso curso adotaria um Mitte com três temas integrados: Reino / Pacto / Mediador. Nessa aula vamos discutir cada um desses temas separadamente para depois tentar compreender como estão integrados.

Reino

O Reino é o primeiro dos três conceitos que estudaremos. Literalmente, a frase "Reino de Deus" nunca aparece em nossas traduções do Antigo Testamento. A sua realidade, entretanto, é marcante por toda a Escritura. Não é porque a frase não aparece que o conceito deixa de existir. Em lugar algum das Escrituras você encontra o termo trindade, mas sabemos que a Trindade é um conceito fundamental que permeia toda a Escritura. O conceito de Reino de Deus é um conceito chave para compreendermos a Bíblia. Sem ele não podemos compreender corretamente a relação do próprio Deus com sua criação. Veja a explicação de Van Groningen sobre a natureza do Reino:

O cosmos é o reino; especificamente, o reino cósmico. O termo reino (malkut) pode ser entendido como referindo-se a um ou mais aspectos envolvidos no conceito ou a todos eles. Um reino envolve uma pessoa, um rei (melek) ou rainha (malkah),  que tenha posição de autoridade suprema. Também envolve o exercício efetivo da autoridade real (malak - reinar) e pode se referir à cidade, palácio ou trono onde a autoridade é exercida e de onde emana. Finalmente, o termo "reino" refere-se ao domínio ou território sobre o qual o regente exerce sua autoridade real. Embora seja verdade que o termo não aparece em Gênesis 1-2, a idéia, particularmente a de reino/domínio, certamente aparece. Os salmistas confirmaram isso quando cantaram sobre Yahweh reinando, seu trono desde a antigüidade, e de um mundo firmemente estabelecido (Sl 93.1-2). Davi cantou sobre o trono de Yahweh estabelecido nos céus e seu reino governando sobre tudo (Sl 103.19). Ele cantou sobre o reinado e reino de Yahweh, referindo-se a todo o cosmos, quando exaltou ao "meu Deus e Rei" (Sl 145.1) cujo reino é para sempre e cujo reinado subsiste por todas as gerações (Sl 145.13). Os salmistas puderam cantar assim e os profetas anunciaram repetidamente que Deus era o Governador (rei) soberano e eterno sobre todo o universo, porque Deus tinha se revelado assim quando criou o cosmos. 

Portanto, o reino envolve:

Pessoa 
Autoridade
Exercício da autoridade
Local de onde a autoridade emana
Exercício do domínio

Assim sendo, não há nada no universo que esteja fora do domínio do Deus criador. Pergunto, o que é que pode existir fora do domínio do criador? Seriam as forças do mal, Satanás e seus seguidores? O próprio inferno? Não, absolutamente nada está fora do domínio de Deus! Deus é o rei soberano sobre todas as coisas e chamamos de Reino de Deus esse domínio que Ele exerce sobre tudo e todos. 

Observe o conceito abaixo: 

Não é fácil definir o Reino porque o próprio Senhor Jesus não o fez na sua pregação. Há apenas inferências da significação do Reino. Paulo disse que o Reino de Deus “não é comida, nem bebida, mas justiça, alegria e paz no Espírito Santo” (Rm 14.17), mas isto não é uma definição. 

O entendimento do Reino de Deus mais aceito é aquele que é colocado nestes termos: O reino de Deus é, antes, um modo de Deus governar; é o exercício de Suas regras, antes do que um território sobre o qual Ele rege. 

O reino de Deus pode, ocasionalmente, ter conotações espaciais, quando se refere à ordem das cousas ou a um estado de paz e alegria, mas o reino de Deus está sempre ligado especialmente ao Seu povo. 

O reino de Deus deve ser entendido como o governo de Deus ativo na história humana. Quando dizemos que Deus é o Senhor da história, isto quer dizer que Ele está executando Seus planos nela. Isto hoje Ele faz através de Jesus Cristo, quando na história humana Ele executa o propósito da redenção do pecador, sujeitando todas as cousas debaixo do Seu poder, inclusive o próprio Satanás, até que a consumação do Reino se dê no novo céu e na nova terra. 

O reino de Deus não deve ser entendido simplesmente como a salvação de alguns indivíduos, ou como algo efetuado simplesmente nos corações dos homens. O reino de Deus é mais abrangente do que isso. Ele é o governo de Deus sobre toda a criação. Deus é o Rei e age na história dos homens executando os Seus propósitos de antemão concebidos. Isto Deus faz hoje debaixo da administração de Jesus Cristo. (Heber Carlos de Campos, A Doutrina do Reino de Deus, CPPGAJ – Não Publicado) 

O conceito de reino é às vezes complicado de se entender porque em nenhum lugar das Escrituras encontramos uma definição absoluta de Reino. Os textos das Escrituras que nos ensinam sobre o Reino normalmente tratam de aspectos do Reino, diferentes facetas desta realidade bíblica. Observe algumas dessas facetas abaixo:

Mt 4:17 Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.

Em que sentido o reino pode estar próximo e não presente?

Mt 4:23 Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.

O reino é uma mensagem?

Mt 5:3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Como alguém pode possuir o reino?

Mt 6:10 venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; 

O reino pode estar no céu e não na terra?

Mt 6:13 não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! 

Qual a relação entre o reino, o poder, a glória e a eternidade?

Mt 6:33 buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. 

Seriam os valores do reino?

Mt 8:11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus.

Alguns já estão no reino.

Mt 11:12 Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. 

Como pode o reino ser tomado por esforço? Como alguém que se esforça se apodera dele?

Mt 12:28 Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. 

Aqui parece que o reino já está presente.

Estas são apenas algumas citações em Mateus, omitindo as chamadas parábolas do Reino.
[Sugestão: leia as parábolas do Reino e tente identificar que aspectos do Reino estão sendo apresentados. As parábolas do Reino se encontram em Mateus 13]

Leia os textos abaixo e relacione o conceito de Reino com a criação e observe como os escritores bíblicos viam a extensão do Reino (não se esqueça do contexto de cada um desses versos):

a. Salmo 47.9

b. Salmo 93.1

c. Salmo 96.10

d. Salmo 97.1

e. Salmo 99.1

f. Salmo 146.10

g. Isaías 52.7

h. Daniel 7 e 11

i. Mateus 3.2

j. Mateus 4.17

k. Atos 28.31

l. Apocalipse 1.9

 

Pacto

(O texto abaixo é uma adaptação do texto que se encontra em Fides Reformata 3/1 (1998), "Uma breve Introdução ao Estudo do Pacto." Os números entre [] representam notas de rodapé).

O substantivo pacto significa, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa,[31] "ajuste", "convenção" ou "contrato". Estes três substantivos são também usados para definir o significado do substantivo aliança. Diferentes versões da Bíblia em português usam os substantivos pacto, aliança, acordo e concerto para traduzir o substantivo hebraico berith que aparece cerca de 290 vezes no Antigo Testamento.[32] Para todos esses sinônimos a idéia básica que encontramos é a de união entre duas partes, um pacto ou acordo bilateral. No entanto, até mesmo a etimologia do substantivo é grandemente discutida. Basta passar os olhos por alguns dicionários de teologia ou livros que tratem especificamente do assunto para verificar que há entre os estudiosos grande discordância. As posições mais defendidas são:

(1) a de que berith é derivada do assírio birtu, que significa "laço", "vínculo";
(2) a de que o substantivo tem origem na raiz de barah, "comer," que aparece poucas vezes no Antigo Testamento (2 Sm 3.35; 12.17; 13.5; 13.6; 13.10; Lm 4.10), e está relacionado com a cerimônia que selava um acordo ou relacionamento entre partes;
(3) a de que o substantivo está ligado à preposição bein "entre."[33]

De todas estas a primeira posição é a mais aceita entre os estudiosos do Antigo Testamento.[34] 

Da própria dificuldade em se estabelecer a origem e significado do termo berith surgem as primeiras divisões no seio daqueles que defendem a teologia pactual. Por exemplo, exatamente o que se quer dizer quando se fala em acordo? Isto implica em que as alianças bíblicas sejam "bilaterais"? Não se pode negar que a idéia de pacto traga consigo, no seu sentido mais natural, a bilateralidade, ou seja, duas partes são envolvidas em um pacto. Vários pactos acontecem entre duas pessoas, nações ou grupos na narrativa bíblica (ver Js 9.15; 1 Sm 20.16; 2 Sm 3.12-21; 5.1-3; 1 Rs 5.12); em certos casos um pacto é feito para resolver uma disputa entre partes (Gn 21.22-32; 26.26-33; 31.43-54). 

Centenas de vezes o substantivo aparece no contexto de um pacto entre Deus e seres humanos. Como, nesse contexto, entender a bilateralidade? Um pacto implica sempre em igualdade entre as partes? Certamente que não. A bilateralidade, no contexto do pacto entre Deus e homens, implica tão somente em que duas partes estão envolvidas, mas não que exista a igualdade entre essas partes. Teólogos têm chamado esse tipo de aliança "unilateral" de "monergista," ou seja, iniciada e garantida por Deus nos seus termos. Portanto, estamos falando de uma aliança que não envolve um acordo de duas partes, [35]na qual não existe negociação de direitos e obrigações. Nesse sentido a aliança divino-humana é unilateral. É um compromisso feito pela iniciativa de Deus com relação à sua criação. O ser humano é um receptor da aliança divina. Isso se torna evidente no texto de Gênesis 17.2, que é traduzido para o português como "Farei uma aliança entre mim e ti" onde o verbo traduzido como "fazer" tem por raiz no hebraico o verbo "dar" (nathan), que nos daria, se traduzido literalmente, uma sentença sem sentido. No entanto, a força do argumento está no fato de que a raiz do verbo traduzido por "fazer" em português envolve algo que é dado: um pacto. O texto não reflete um acordo de duas partes iguais, com os mesmos direitos.

Esse tipo de pacto não é algo sem precedentes na história. Ele é ilustrado pelos pactos do antigo Oriente Próximo entre conquistadores e conquistados, reis e vassalos. Nesses casos, os conquistados, quando entravam em pacto com os conquistadores, não tinham o direito de propor qualquer coisa nos termos do pacto. Este tipo de pacto pressupõe a figura de uma parte "soberana". Um dos lados tem a vantagem do domínio e se propõe a cumprir um determinado papel; o outro, tendo também um papel a cumprir, se submete às exigências pactuais. No pacto divino-humano encontramos a relação criador-criatura, rei soberano-servo. Vários paralelos entre os pactos bíblicos e os pactos do antigo Oriente Próximo foram cuidadosamente descritos por Meredith Kline e servem como uma valiosa ajuda para entendermos os termos e significado do pacto entre Deus e a humanidade.[36] Um dos exemplos dados por Kline é a narrativa em Gênesis 15 do pacto com Abrão. Nos primeiros versículos o texto narra que Iavé aparece a Abrão e faz com ele uma aliança. Depois de colocados os termos da aliança, o texto narra nos versos 13-17 o desfecho: 

Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniqüidade dos amorreus. E sucedeu que, posto o sol, houve densas trevas; e eis um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo que passou entre aqueles pedaços.

Todas as promessas são feitas por Deus a Abrão, do Rei soberano para o vassalo, do criador para a criatura. O ritual apresentado no versículo 17, em que Deus passa por entre os pedaços dos animais, é uma característica da forma como os pactos do antigo Oriente Próximo, entre soberanos e vassalos, eram selados. Teriam os autores bíblicos "tomado emprestado" o conceito antigo de pacto e aplicado à teologia? Essa é uma posição defendida por vários estudiosos. No entanto, como veremos mais adiante, penso que existam razões suficientes para se crer na idéia oposta a essa: os povos antigos, ao formularem seu modo de relacionamento social, refletiam a forma que o próprio Deus criador havia estabelecido para se relacionar com sua criatura. 

A diferença fundamental entre os pactos humanos e o pacto divino-humano encontra-se na motivação do soberano Criador, que se propôs a criar e sustentar a sua criação, estabelecendo assim um vínculo que, segundo a própria Escritura, só pode ser um vínculo de amor. 

O conceito de pacto, portanto, é um conceito que deve ser entendido dentro dos vários contextos onde aparece. Várias nuanças do pacto são dadas através dos verbos que acompanham o substantivo. Portanto, quando se trata do pacto divino-humano pode-se dizer que o pacto é um vínculo/elo de amor, iniciado e administrado pelo Deus triúno com a sua criação, representada pelos nossos pais. 

O que é um pacto conforme o modelo bíblico?
"O pacto é um vínculo/elo de amor, iniciado e administrado pelo Deus triúno com a sua criação, representada pelos nossos pais. "

Pacto e Criação

O substantivo berith (pacto) não aparece senão no capítulo 6 de Gênesis, estando, portanto, ausente da narrativa da criação e da queda (Gn 1–3). Como, então, falar de um "pacto da criação" se o termo sequer aparece na narrativa? Que evidências podem ser apresentadas? Partindo-se do conceito da aliança como elo, laço, vínculo e relacionamento de amor, iniciado e administrado por Deus, verificamos que essa idéia é intrínseca na narrativa da criação. Destacamos, primeiramente, que ao criar Deus manteve um relacionamento com sua criação. Ele não só tinha o governo absoluto sobre ela, mas também mantinha tudo o que havia criado. De um dia da criação para o outro (dia um para o dia dois, dia dois para o dia três, etc.), Deus sustentava aquilo que, aparentemente, não podia ter auto-sustentação (pelo menos do ponto de vista do que chamamos de leis naturais). Assim, até que a criação estivesse completa, Deus estava sustentando de forma extraordinária a sua criação. Depois que ele terminou de fazer tudo o que havia proposto, a criação, com suas leis naturais, passou a se manter. Mesmo assim, sabemos que ele é o "sustentador de todas as coisas."

Em segundo lugar, ao criar o ser humano (Gn 1.26-28), Deus o criou à sua "imagem e semelhança". Incluídas nessa imagem e semelhança estão as habilidades de comunicação e relacionamento (e suas implicações como pensar, obedecer, discernir, e fazer opções), como o texto bíblico deixa bem claro a partir do segundo capítulo de Gênesis. Essa imagem e semelhança permite que o homem criado se relacione com o Criador. Temos, portanto, presente no relato da criação, a possibilidade do desenvolvimento de relacionamentos.

Em terceiro lugar, aprendemos da narrativa da criação que Deus deu responsabilidades ao ser humano (macho e fêmea). Entre elas se encontram obrigações de cuidar e desenvolver o que Deus havia colocado em suas mãos:

Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar... Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles (Gn 2.15,19). 

Ao casal são dadas as responsabilidades de procriação, multiplicação e domínio refletidas nas bênçãos dadas a eles. 

Em quarto lugar, verificamos que nesse relacionamento existe a verbalização clara da parte de Deus do que seriam as bênçãos e as possíveis maldições do pacto. Bênçãos e maldições são parte integrante dos pactos entre soberanos e vassalos no antigo Oriente Próximo.[37] 

E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra (Gn 1.28). E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn 2.16-17).

As bênçãos são dadas ao homem e expressas em forma imperativa no verso 28: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei, sujeitai, dominai. Em todos esses exemplos percebemos que o Criador está expressando à sua criatura mandatos em três áreas de relacionamento: espiritual, social e cultural.[38] 

Essas características (soberania, sustento, relacionamento, responsabilidade, bênçãos e maldições) formam o conjunto de elementos do chamado pacto da criação. 

Outras evidências levantadas para o pacto da criação são os textos de Oséias 6.7; Jeremias 33.20, 25, e Gênesis 6.18. Sem muitos detalhes exegéticos, exponho abaixo as razões principais porque se pensa que esses textos falam de um pacto da criação. Oséias 6.7 fala da transgressão de Adão contra o pacto: "Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim." Uma leitura simples e direta do texto reflete que havia um pacto entre Deus e Adão, portanto, um pacto pré-queda, que pode ser tido como o pacto da criação. Essa leitura reflete o pressuposto de que os escritores bíblicos tinham conhecimento de outros escritos bíblicos, anteriores e contemporâneos. Oséias estaria, portanto, falando do pacto da criação. Para alguns estudiosos, entretanto, isto não é admissível, considerando vários pressupostos diferentes do exposto acima.

Eles adotam uma leitura diferente do texto, como a Bíblia na Linguagem de Hoje [39] "Mas na cidade de Adã o meu povo quebrou a aliança que fiz com ele e ali foi infiel a mim." De fato, existe uma cidade bíblica com esse nome (Js 3.16). No entanto, para que o texto de Oséias 6.7 seja traduzido como a Bíblia na Linguagem de Hoje sugere, é necessário que se faça uma emenda do texto hebraico, substituindo a preposição "como" por "em," sem que haja qualquer evidência da necessidade dessa troca.[40] Ainda mais, não se sabe de um pecado cometido pelo povode Israel ao passar por aquele lugar que fosse registrado e então mencionado pelo profeta. Assim, esta proposta de leitura não acha qualquer argumento sustentável. Outra possível leitura provêm da tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), que traduz a expressão "como Adão" por "como homens."[41] Nesse caso, estaria implícito um pacto entre Deus e a humanidade.

O segundo texto, de Jeremias 33.20-21, faz referência a uma aliança com o dia e aliança com a noite:

Assim diz o SENHOR: Se puderdes invalidar a minha aliança com o dia e a minha aliança com a noite, de tal modo que não haja nem dia nem noite a seu tempo, poder-se-á também invalidar a minha aliança com Davi, meu servo, para que não tenha filho que reine no seu trono; como também com os levitas sacerdotes, meus ministros.

Nos versos 25-26 aparece a expressão "a minha aliança com o dia e com a noite." Comentaristas apontam para duas situações às quais Jeremias pode estar se referindo nesses versos: à criação ou ao pacto com Noé, onde Deus promete manter a ordem fixa das estações, dia e noite (Gn 8.22).

Robertson explica, convincentemente, que o texto paralelo de Jeremias 31.35-36 confirma a primeira opção (criação) como melhor [42]

Assim diz o SENHOR, que dá o sol para a luz do dia e as leis fixas à lua e às estrelas para a luz da noite, que agita o mar e faz bramir as suas ondas; SENHOR dos Exércitos é o seu nome. Se falharem estas leis fixas diante de mim, diz o SENHOR, deixará também a descendência de Israel de ser uma nação diante de mim para sempre. 

Assim, Jeremias estaria, ao falar do pacto com a casa de Israel e com Davi, refletindo o fundamento do pacto de Deus com a criação. Da mesma forma que o pacto estabelecido por Deus com a criação, "a aliança com o dia e com a noite," não pode ser invalidada, o pacto com Davi tem que ser e será mantido.

A tradução de Gênesis 6.18 é uma terceira evidência para se confirmar o pacto da criação. [43] O texto da versão portuguesa Revista e Atualizada diz: "Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos," confirmando a leitura da maioria das traduções em várias línguas. No entanto, o verbo traduzido como "estabelecerei," no hebraico pode ser traduzido como "continuar" ou "confirmar," a exemplo de Gênesis 26.3: "habita nela, e serei contigo e te abençoarei; porque a ti e a tua descendência darei todas estas terras e confirmarei o juramento que fiz a Abraão, teu pai."[44] Se traduzido dessa forma, nos casos em que o texto português fala "estabelecerei," o texto traria "confirmarei":

Contigo, porém, confirmarei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos" (Gn 6.18).

Eis que confirmo a minha aliança convosco, e com a vossa descendência, (10) e com todos os seres viventes que estão convosco: tanto as aves, os animais domésticos e os animais selváticos que saíram da arca como todos os animais da terra. (11) Confirmarei minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra (Gn 9.9-11).

Dessa forma, Deus estaria confirmando ou continuando uma aliança com Noé, uma aliança anteriormente estabelecida, esta só podendo ser a aliança ou pacto da criação.

Mediador

A palavra mediador significa, normalmente, aquele que faz a união de duas partes. Mas existe também a conotação de “representante.” É também nesse sentido que usamos a palavra aqui. Adão e Eva foram criados na posição de mediadores, representantes do Criador diante da criação. Como tal eles tinham privilégios e responsabilidades para com o Criador e a criação. Van Groningen usa o termo “vice-gerentes” para designar essa posição de Adão e Eva. É na qualidade de mediador que Adão pecou, e como representante de toda a raça humana, “todos pecaram”. É por isto que Cristo é chamado de segundo Adão. Deus Pai envia o Deus Filho como um novo mediador, um novo representante. Refletindo esse ensino o apóstolo Paulo afirma: 

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. (1 Tm 2:5)

Cristo representa o cristão diante do Pai em todas as áreas. Não fosse pela atuação dele não teríamos justificação e não teríamos vida abundante. Restaria apenas receber a maldição do pacto da criação, ou seja,  a morte em todos os níveis. Porém, sendo Cristo o representante do eleitos em todas as áreas da existência, recebemos vida abundante.

Para complementar essa seção leia o texto de Van Groningen, O Mitte da Revelação no Antigo Testamento.

Na próxima aula, ao tratarmos dos mandatos do pacto da criação, entenderemos com maior clareza o papel mediatorial de Adão e Eva.

Implicações práticas

Ler as Escrituras tendo em mente estes três temas (Reino, Pacto e Mediador) nos ajudam a compreender a unidade da revelação de Deus e associa-la ao nosso contexto. Esses temas foram escolhidos não como um elemento facilitador da leitura do texto da Bíblia, mas porque são os três temas que se encontram em evidência no processo da revelação e conseqüentemente são o fator unificador. É claro que esta afirmação só poderá ser verificada com a minuciosa leitura e exegese do texto bíblico. Em suma, isto é fazer Teologia Bíblica!

Após ter lido e estudado a aula, clique no texto O Mitte da Revelação no Antigo Testamento e leia. Depois, no ícone Referências na barra de ícones acima, localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s). Se desejar, faça a(s) leitura(s) complementar(es). Ao terminar, deixe-me uma mensagem dizendo que fez a leitura obrigatória. Pode incluir seus comentários e opiniões sobre as leituras. Nessa aula não temos o SELF TEST.


Nota de G. Van Groningen a respeito de literatura sobre o Reino de Deus: “Livros sobre o reino de Deus são numerosos, como uma consulta nos arquivos de biblioteca de qualquer seminário poder verificar. Trabalhos que tenho consultado freqüentemente são John Bright, The Kingdom of God (Nashville, Abingdon, 1953). Jaap Helberg, "Openbaringsgeschiedenis Van Die Ou Testament", pts. 1-2 da apostila não publicada, Universidade da África do Sul, (1975); Meredith Kline "Kingdom Prologue", apostila, ICS, Toronto, (1983); Fred Klooster "Kingdom and Church", manuscrito não publicado, Calvin Seminary, (1978); Gerhardus Vos, The Teaching of Jesus Concerning the Kingdom and the Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1951), e Raymond Zorn, Church and Kingdom (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1962).” Em From Creation to Consumation.

ESTAS NOTAS ESTÃO REPRESENTADAS ENTRE [-] NO TEXTO

31 A. B. de Holanda Ferreira, Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª edição revista e aumentada (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986).

32 Somente no pentateuco em Gn 6.18; 9.9; 9.11; 9.12; 9.13; 9.15; 9.16; 9.17; 14.13; 15.18; 17.2; 17.4; 17.7; 17.9; 17.10; 17.11; 17.13; 17.14; 17.19; 17.21; 21.27; 21.32; 26.28; 31.44; Ex 2.24; 6.4; 6.5; 19.5; 23.32; 24.7; 24.8; 31.16; 34.10; 34.12; 34.15; 34.27; 34.28, Lv 2.13; 24.8; 26.9; 26.15; 26.25; 26.42; 26.44; 26.45; Nm 10.33; 14.44; 18.19; 25.12; 25.13; Dt 4.13; 4.23; 4.31; 5.2; 5.3; 7.2; 7.9; 7.12; 8.18; 9.9; 9.11; 9.15; 10.8; 17.2; 29.1; 29.9; 29.12; 29.14; 29.21; 29.25; 31.9; 31.16; 31.20; 31.25; 31.26; 33.9 – 76 vezes.

33 Ver Laird Harris, Gleason Archer e Bruce Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1998), verbete 282a; W. J. Dumbrell, Covenant and Creation: A Theology of Old Testament Covenants (Grand Rapids: Baker, 1984), 16. Também G. Vos, Biblical Theology: Old and New Testaments (Edimburgo: Banner of Truth, 1975), 257; O. P. Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997), 8-9, especialmente as notas 3 e 4.

34 Walter A. Elwell, Evangelical Dictionary of Theology (Grand Rapids: Baker, 1984), 277.

35 Robertson afirma que "em seu aspecto mais essencial, aliança é aquilo que une pessoas. Nada está mais perto do coração do conceito bíblico de aliança do que a imagem de um laço inviolável" (Robertson, Cristo dos Pactos, 8). Depois de relacionar a idéia de aliança com seus sinais e com juramentos, ele afirma: "Essa estreita relação entre juramento e aliança enfatiza o fato de que a aliança em sua essência é um pacto" (ibid., 10).

36 Ver Meredith Kline, By Oath Consigned (Grand Rapids: Eerdmans, 1968), 17.

37 Ibid., 21.

38 Esta denominação dos mandatos é de G. Van Groningen, em Revelação Messiânica no Antigo Testamento e Família da Aliança. Já O. Palmer Robertson classifica esses mandatos com os termos sábado (espiritual), casamento (família) e trabalho (cultural). O Cristo dos Pactos, 61-74.

39 Sociedade Bíblica do Brasil, 1998.

40 A preposição inseparável K por B

41 K no hebraico traduzido por "oi anthropoi".

42 Robertson, Cristo dos Pactos, 21-22.

43 Robertson, ibid., trata o texto de Oséias 6.7 e Jeremias 33 em seções específicas de seu livro, como evidências do pacto da criação. Ele, no entanto, critica o tratamento do texto de Gênesis 6.18 aqui apresentado.

44 O verbo qum no hiphil pode ser traduzido como "confirmar." Ver Harris, Archer e Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1998), verbete 1999.


6.1. O Mitte da Revelação no Antigo Testamento

O Mitte da Revelação no Antigo Testamento

G. Van Groningen, From Creation to Consumation, p. 166-169.

Existe um conceito central unificador no material noaico. Não é um fator único mas um complexo de três realidades interrelacionadas e integradas: o reino, o pacto e o mediador.

A Discussão a Respeito do Mitte

Gerhardus Vos, ao apresentar suas preleções sobre "Teologia Bíblica", não falou diretamente de um Mitte ou um conceito unificador central. Indicou, no entanto, que o pacto era um conceito central importante, particularmente quando se considera os palcos em que Deus se comunicou verbalmente aos seus porta-vozes e através deles. Vos falou do progresso da revelação correspondendo com épocas de atividades pactuais e eventos redentores. A revelação foi dada no contexto de feitura, renovação, explicação e aplicação do pacto.13 Subseqüente às apresentações de Vos, estudiosos como Walther Eichrodt enfatizaram que o pacto é um conceito central unificador.14

Gerhard Hasel apresentou uma revisão útil da discussão e escolhas com relação ao Mitte em sua obra freqüentemente citada, Teologia do Antigo Testamento: Questões Fundamentais do Debate Atual. Depois de ter revisto os vários Mittes sugeridos (pacto, Deus como Senhor, comunhão, Yahweh o Deus de Israel, o "nenhum centro" de G. Von Rad, a exclusividade de Yahweh, Deuteronômio como livro, eleição, santidade), Hasel conclui que "Deus é o centro dinâmico unificador do Antigo Testamento". Ele acrescentou que reconhecer Deus como o centro dinâmico unificador ajuda a evitar que se promova um centro unificador estático e permite que vários blocos de escrita falem por si à medida que suas teologias individuais são desenvolvidas.15 A seleção e as razões de Hasel para isto podem ser interpretadas como tendo o significado de que, embora todo o Antigo Testamento fale de Deus, não se encontra nesses escritos nenhuma maneira unificada e integrada em que isto é feito. Pela ótica de Hasel, entende-se que o Antigo Testamento apresenta uma série de teologias, todas tratando do mesmo Deus. Mas ainda que possamos concordar que o Antigo Testamento, e o Novo Testamento também, revelam o Deus Triúno, não podemos aceitar a tese de que existem várias teologias.

A obra de Walter Kaiser sobre a teologia no Antigo Testamento apareceu três anos depois da edição revisada de Hasel. Hasel havia rejeitado a visão de Kaiser de que "a promessa foi o centro",16 mas Kaiser defendeu sua escolha.17 Ele afirmou que o Novo Testamento revelou que a promessa era o centro textualmente derivado que o Antigo Testamento havia expressado em uma constelação de termos como bênção, terra, descendência multiplicada, descanso, dinastia davídica e trono.18 É interessante notar, especificamente, que os termos do Antigo Testamento que Kaiser menciona são todos inteiramente relacionados ao pacto que Yahweh estabeleceu. Fica a pergunta: Será que Kaiser não estaria concordando com Eichrodt que o conceito de pacto foi centro unificador e integrador? Willem Van Gemeren escreveu em 1988 que a história da teologia bíblica dá pouca esperança de que os estudantes irão concordar num mesmo centro. Ele prosseguiu dizendo que "Centros teológicos como promessa, pacto e reino têm a vantagem de servir como princípios organizadores pelos quais se pode abordar a revelação bíblica". Continuou declarando que propunha focar "Jesus Cristo como o centro". Jesus é a revelação da salvação de Deus.19 A escolha de Van Gemeren obviamente resulta de sua visão de que as Escrituras devem ser consideradas como reveladoras da redenção/salvação. É verdade que as Escrituras fazem isto. A revelação de Deus, no entanto, tem uma extensão muito maior do que a salvação. Ela nos revela o reino, dentro do qual o pacto foi assegurado e dentro do qual o mediador trouxe esta salvação. 

O Cordão Dourado--O Mitte Integrador e Unificador

Não se discute o fato de que as Escrituras revelam Deus e Jesus Cristo. Mas elas revelam mais. Elas revelam Deus como o Criador Triúno, Governador e Provedor do seu reino. Revelam que Deus é um Senhor pactual e que Jesus Cristo é o mediador do pacto e, conseqüentemente, o agente do reino. O cordão dourado que unifica e integra toda a mensagem escriturística, e que por essa razão é o mitte, consiste de três cordões inegavelmente dominantes: o reino, o pacto e o mediador. Todos os muitos ensinos e referências nas Escrituras são integralmente relacionados ou são aspectos essenciais destes três cordões.

O texto bíblico expõe, consistentemente, estes três cordões diante de nós. Jesus Cristo, quando estava na terra, resumiu a causa a favor deste complexo triplo de conceitos quando pregou o reino e se declarou o mediador do pacto. Estes três conceitos interrelacionados são explicados no Novo Testamento mas são revelados e consistentemente desenvolvidos no Antigo Testamento. Atuam em toda a Bíblia como o meio básico revelador, administrativo e consumador dentro do plano do Deus Triúno, para o estabelecimento, a manutenção, a redenção e a consumação de toda sua criação.

O conceito de reino é inclusivo e abrange tudo. Quatro aspectos integrais são fatores essenciais. O reino, em primeiro lugar, implica na presença e envolvimento do Rei. O Deus Triúno é o Rei; como tal, ele é o Criador Soberano, Governador, Mantenedor, Juiz e Consumador. Jesus Cristo recebeu a posição monárquica e atua como o redentor. Quando a tarefa redentora estiver completa, ele colocará a monarquia nas mãos do Pai (1 Co 15.24). Segundo, o reino inclui o domínio. O domínio é o que foi criado, trazido à existência, e governado. Isto inclui todo o cosmos, com suas dimensões inorgânicas, orgânicas, morais e espirituais. Terceiro, o reino inclui o trono, o assento do poder, ou o centro do qual o rei atua. Conseqüentemente, o tabernáculo, o templo, o palácio e Jerusalém são símbolos e tipos de um centro celestial. Finalmente, o reino inclui a atividade efetiva de domínio. Estão incluídos o exercício do poder e autoridade da realeza, as atividades judiciais, e a execução destes.

É fácil entender a razão pela qual alguns estudiosos têm postulado o reino como o Mitte das Escrituras.20 Em certo sentido, pode se dizer que o reino é o tema que inclui tudo, que unifica, porque o pacto e o mediador são aspectos dominantes dele. Esses temas são tão importantes que devem ser realçados e, conseqüentemente, descritos como sendo dois dos três cordões que formam o cordão dourado. 

 

O reino não existe nem atua sem o pacto; o pacto, para ser e atuar como pacto, tem seu instrumento, o mediador. Estes três conceitos centrais são representados de várias formas através das Escrituras. Foram utilizados símbolos e tipos. Por exemplo, o reino israelita é um símbolo e tipo do reino eterno de Deus; o casamento é um símbolo do pacto. Reis, sacerdotes, profetas, os sacrifícios do tabernáculo, outros objetos e eventos simbolizam o mediador.

A idéia de um pacto é citada repetidamente tanto no Antigo como no Novo Testamento. Deve ficar claramente entendido que o termo pode ter várias denotações específicas como, por exemplo, um acordo entre reis (1 Re 5.12) ou entre marido e mulher (Ml 2.14).

Nesta conjuntura, poderá ser útil um breve sumário para mostrar ao que pacto se refere em Gênesis 1-11.21 O pacto deve ser considerado, antes de tudo, um relacionamento entre duas partes.22 Este relacionamento foi instituído para ser um vínculo sólido e duradouro. Ele foi um vínculo sólido de vida e amor entre Yahweh e a humanidade; isto é, o vínculo juntou as duas partes vivas em que a vida foi assegurada e o amor seria aspecto essencial desse vínculo vivo. Este vínculo de vida e amor incluía promessas, certezas, obrigações (mandatos, leis), e advertências (maldições), que atuavam para preservar o vínculo e serviam para fazer com que fosse, de fato, um relacionamento eficaz. O vínculo foi validado e assegurado através da palavra solene (ou juramento) de Yahweh, que é imutável. Para a humanidade envolvida no pacto com Yahweh, um sinal foi incluído, o arco-íris, da mesma forma como o sábado havia sido na conclusão das atividades criadoras.

O pacto que Yahweh estabeleceu com Adão e Noé tinha uma referência mais ampla do que o aspecto pessoal. O pacto da criação incluía o relacionamento de Yahweh com a criação e, particularmente, o relacionamento de Adão e Eva, e de Noé e sua descendência com a criação. Esta dimensão mais ampla e inclusiva do vínculo fez, eficazmente, com que o pacto fosse também um meio de administração. Adão, Noé e suas descendências, em seus papéis de vice- gerentes, foram feitos administradores; eles tinham que dominar, cultivar, estabelecer famílias, ser frutíferos e encher a terra. Depois que o pecado foi introduzido, o relacionamento de amor e vida dentro do palco criacional foi restaurado  e confirmado por Yahweh; ele acrescentou ao relacionamento e sua administração a dimensão redentora. A redenção deveria ser executada e se tornar uma realidade assegurada através do cumprimento das obrigações que Yahweh havia estipulado e através das promessas e maldições que havia enunciado.

O terceiro cordão do cordão dourado é o mediador pactual; os termos "agente" e "servo" servem bem em certos contextos. O âmago do pacto centraliza-se no relacionamento entre Yahweh e os portadores de sua imagem, o primeiro Adão e sua descendência e o segundo portador da imagem, o Messias (Cl 1.15; Hb 1.3). O mediador recebeu os mandatos e as responsabilidades de cumprir a vontade, o plano, a meta e os propósitos de Yahweh, que iniciou e manteve seu pacto. Desta forma, os primeiros mediadores, Adão, Eva e posteridade, foram chamados para serem administradores pactuais sob Yahweh, dentro do reino cósmico. Quando Adão e Eva desobedeceram e violaram seu relacionamento de vida e amor, Yahweh proclamou imediatamente que a semente da mulher deveria ser o administrador do pacto da redenção também.23 Assim como Noé serviu como um mediador do pacto e, dessa forma, como um precursor e tipo de Cristo, assim também através da era do Antigo Testamento, outros serviram, incluindo Abraão, José, Moisés, Josué, os juizes, os profetas, sacerdotes e reis. Em um sentido real, todos os descendentes de Noé e Abraão foram chamados para ser mediadores, em particular a nação de Israel. Todos estes precursores e tipos humanos falharam, alguns drasticamente. Outros serviram de uma forma aceitável a despeito de suas fraquezas e pecados.24

Concluindo esta discussão sobre o Mitte, eu entendo que o cordão dourado, que unifica e integra a mensagem bíblica e, conseqüentemente, também a teologia bíblica, consiste do reino de Yahweh e do pacto que ele estabeleceu com seus mediadores que portam sua imagem. Todos os aspectos da mensagem bíblica estão relacionados a este cordão dourado, e o sentido e significado deles são estabelecidos através de seu envolvimento ou contribuição para a explicação do reino, do pacto e do mediador.


13 As palestras de Vos foram compiladas e editadas postumamente.

14 Eichrodt, Theology, 36.

15 Gerhard Hasel, Old Testament Theology: Basic Issues in the Current Debate, ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 27-105, esp. 99-103.

16 Ibid., 98. Hasel teve acesso a um artigo que Kaiser escreveu em 1974 intitulado "The Centre of Old Testament Theology: The Promise", que foi publicado no Themelios 10 (1974):1-10.

17 Walter C. Kaiser, Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978). Ver o cap. 2, intitulado "The Identification of a Canonical Theological Center", no qual ele desafia a rejeição de Hasel de "um conceito, idéia fundamental ou fórmula como um princípio para a ordenação sistemática e arranjo da mensagem kerigmática do A T" (24).

18 Ibid., 33.

19 Willem Van Gemeren, The Progress of Redemption  (Grand Rapids: Zondervan, 1988), 25-27.

20 John Bright, The Kingdom of God (New York: Abingdon-Cokesbury, 1953): "o reino de Deus envolve, num sentido real, a mensagem total da Bíblia" (7); Jaap Helberg, "Openbarengsgeskiedanis Van Die Ou Testament" (Potchefstroom: Potchefstroom University, 1975): "moet die Koninkryk van God seker as die beheersendste gesien word" (O reino de Deus deve ser visto, certamente, como o conceito governante [ou central unificador]) (Fac. I, 8). Reino e pacto são os dois termos chaves no título e subtítulo da obra de Kline. Ele não achava que uma única perspectiva controladora ou tema bíblico fosse o mais central ou vital. Todavia, ele escolheu o reino: "nosso Senhor fez do reino de Deus uma rubrica compreensiva no seu ensino" (Kingdom Prologue), 1). Ludwig Kohler, Theologie des Alten Testament (Tubingen: Mohr, 1966): "Gott der Herr... Dieser Satz ist das Ruckgrat der Alttestamentlichen Theologie" (Deus, o Senhor... este tema é a espinha dorsal da Teologia do Antigo Testamento) (17). Como a "espinha dorsal" .Kohler não pressupõe o reino, e sim um aspecto integral dele: o reinado de Deus.

21 Várias obras sobre o pacto têm sido citadas. Outras fontes úteis são Gerhard Ch. Aalders, Het Verbond Gods (Kampen: Kok, 1939); J. Wayne Baker, Heinrich Bullinger and the Covenant: The Other Reformed Tradition  (Athens: Ohio University Press, 1980); Dennis J. McCarthy, The Old Testament Covenant (Atlanta: Knox, 1972) e Treaty and Covenant (Rome: Biblical Institute, 1978). Ernest W. Nicholson, em seu God and His People: Covenant  and Theology in the Old Testament (Oxford: Clarendon, 1986), escreveu "o pacto de Deus com Israel tem sido um tema central no entendimento do Antigo Testamento deste os tempos antigos, mas nos últimos cem anos tem sido um tema especialmente saliente no estudo bíblico crítico" (2). Note sua referência ao crítico Em seu estudo do que tem sido discutido desde 1878, ele cita, quase que exclusivamente, o que os estudiosos críticos têm escrito. Sua bibliografia não inclui um único autor conservador. Nicholson é útil porque dá explicações claras, concisas do que os estudiosos críticos têm escrito sobre pacto. Ver, também, Robert Oden, "The Place of Covenant in the Religion of Israel", em Ancient Israelite Religion: Essays in Honor of Frank Moore Cross, ed. Patrick D. Nutler Jr., Paul D. Hansen e S. Dean Macbride (Philadelphia: Fortress, 1987); Bruce K. Waltke, "The Phenomenon of Conditionality within Unconditional Covenants",  em Israel's Apostasy and Restoration: Essays in Honor of Roland K. Harrison, ed. Abraham Gileadi (Grand Rapids: Baker, 1988).

22 Nicholson lembrou a seus leitores que os estudiosos críticos defenderam que o pacto se referia ao relacionamento que foi estabelecido em vários contextos. R. Kraetzschmar cria que o pacto entre Israel e Yahweh foi feito em uma cerimônia cúltica, solene, e J. Pedersen mantinha que um pacto era um relacionamento entre duas partes que efetuavam a união das esferas criando uma solidariedade a respeito de qualquer assunto que estivesse em pauta.

23 O fato que Jesus administrou ambas as dimensões, a criacional e a redentora, é certamente confirmado por Paulo quando, escrevendo aos Colossenses, falou de Cristo como o que era antes de todas as coisas e em quem todas as coisas subsistem (Cl 1.17). Ele é a cabeça da igreja através de quem a reconciliação é feita e a paz é estabelecida (Cl 1.18-20).

24 Quatro tipos mediatórios que se salientam são Noé, Abraão, Moisés e Davi. Todos pecaram e precisaram dos serviços mediatórios perfeitos daquele a quem representavam e tipificavam.


7. Aula 5: Mandatos do Pacto da Criação

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 5: Mandatos do Pacto da Criação

Como conseqüência direta da manifestação do tema integrado nas Escrituras, Reino, Pacto e Mediador, temos a caracterização do pacto através de seus mandatos ou ordenanças. Sobre estes Robertson afirma: “O homem como parte da criação tem responsabilidade de obedecer às ordenanças embutidas na estrutura da criação.” [1] Na estrutura da criação, que envolve o pacto de Deus, estão claras as ordens dele para que ela prospere no relacionamento com o Criador. O Deus soberano, rei do reino cósmico, ao criar, determina quais são as funções e papéis que a criação exerceria dentro do reino cósmico.

Os Mandatos Pactuais

(As partes indentadas do texto são adaptação de seções do livro de Van Groningen, From Creation to Consumation, Capítulo 3)

Mandato Cultural

O primeiro mandato que foi dado tem sido corretamente citado como sendo o mandato cultural. Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar as plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. [2] A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, através da exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento singular com o cosmos. Na realidade, foi um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, conseqüentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.

No mandato cultural, expresso em textos dos dois primeiros capítulos de Gênesis, estão envolvidos todos os aspectos concernentes à relação do homem com o restante da criação. O domínio e sujeição (Gn 1.28), a guarda e cultivo (Gn 2.17) são ordens claras com relação a este mandato. O homem, em sua responsabilidade vice-gerencial, deveria cuidar, guardar e desfrutar da criação e suas relações com o seu próximo. Assim, o desenvolvimento da política, trabalho, educação, artes, lazer, tecnologia, indústria e quaisquer outras áreas deveriam se desenvolver debaixo dos princípios estabelecidos pelo criador através de seus vice-gerentes. É exatamente a existência de um mandato social no pacto da criação que justifica o envolvimento do cristão com todas estas áreas. Não fosse o mandato social deveríamos nos limitar ao ato de adorar ao Criador em culto e não adorar ao Criador através de nosso envolvimento em todas as áreas da vida humana. O mandato cultural foi dado por Deus aos seus vice-gerentes com o propósito de que os mesmos refletissem a imagem e semelhança do Criador diante de toda a criação e, de certa forma, espalhassem o jardim pelo restante da terra com o seu trabalho. Onde quer que os vice-gerentes agissem eles deveriam agir em nome do Criador, revestidos de sua autoridade, fazendo a sua vontade. 

Mandato Social

O segundo mandato pode ser citado como sendo o mandato social. Este mandato pôde ser dado porque Deus criou a humanidade à sua imagem e semelhança e como macho e fêmea. O relacionamento tinha que ser visto como um de igualdade diante de Deus. Mas, para cumprir o mandato, a fêmea tinha que cumprir seus papéis decretados como ajudadora apropriada, parturiente e mãe cuidadora. O macho tinha que cumprir seus papéis reconhecendo a fêmea como carne de sua carne e osso de seus ossos. Ele tinha que trabalhar com ela como agente real mas também tinha que servir como cabeça, deixando seus pais, tomando a mulher e se unindo a ela; e assim eles poderiam ser frutíferos como parceiros casados equivalentes. Este mandato provê a base divinamente ordenada para o casamento, para a família restrita e a família extensiva - os clãs, as nações e a comunidade da humanidade de todo o mundo.

O mandato social é a base para o mandato cultural. Da família se desenvolve a sociedade e a cultura. O tão conhecido princípio da sociologia, a “família e a célula mater da sociedade”, é, na verdade, uma percepção bíblica! Por isso mesmo a família tem o seu caráter “sagrado”, por ter sido criada por Deus com dois propósitos: para a sua glória e a felicidade humana. Pense nas conseqüências do princípio do mandato social nas relações marido/esposa, família/igreja, e família/sociedade. São quase inumeráveis. É um princípio das Escrituras que temos negligenciado constantemente. O princípio bíblico do marido como cabeça tem sido minado dia-a-dia por “novas” teorias sociais e psicológicas. Elas não só atingem a família, marido, esposa e filhos, mas também atingem a igreja e a sociedade como um todo.

Mandato Espiritual

O terceiro mandato que foi dado envolve a expressão em forma de resposta da humanidade ao relacionamento que Deus estabelecera entre si próprio e os portadores de sua imagem. Primeiro, Deus criou o homem e a mulher num estado de bondade, inteireza e liberdade. Deus viu tudo que ele tinha feito e hinneh-tôb me' ôd (eis que era muito bom). O macho e a fêmea foram feitos de acordo com o intento e propósito de Deus; eles correspondiam a seu padrão de excelência. Eles eram completos; nenhum aspecto adicional ser-lhes-ia acrescentado; eles eram capazes de ser e fazer o que Deus pedia deles, o que Deus ordenava. Eram livres, tendo sido criados à imagem de Deus - livres para viver e agir de acordo com a natureza e características que Deus lhes havia dado. O homem e a mulher eram tudo que Deus pretendia que fossem. Eles tinham que ser o que tinham sido feitos para ser; tinham que fazer o que Deus os tinha feito para fazer. Eles não tinham nada a ganhar; já tinham todos os direitos, privilégios e bênçãos da família real de Deus. Foram feitos para ser filhos e filhas do Rei soberano; deveriam cumprir suas tarefas reais para as quais foram equipados. Assim, não existia nada para o qual tornar-se merecedor. Existia tudo para eles manterem e conservarem.

 

Segundo, Deus pretendeu que o homem e a mulher permanecessem em um relacionamento íntimo e pessoal com ele. Deus desejava a solidariedade que procede do vínculo de vida e amor que ele tinha estabelecido. Deus queria a comunhão com seus vice-gerentes. Deus queria que estivessem dispostos a corresponder em resposta a tudo que tinha feito por eles e a tudo que ele desejou. Três aspectos específicos deverão ser mencionados a esse respeito. Deus veio caminhar no jardim com o homem e a mulher. Deus se fez imediatamente, diretamente, pessoalmente e intimamente disponível. Deus estabeleceu o sétimo dia como um dia de descanso, no qual ele e a humanidade não iriam dirigir a atenção para os desafios do cosmos, e sim, cada um para o outro. Deveria ser um tempo determinado a cada período de sete dias para o exercício do vínculo de vida/amor que os unia. Deus ordenou que esse tempo deveria ser separado semanalmente para o exercício dos relacionamentos amorosos e comunhão íntima, pelos quais o vínculo de vida e amor poderia ser sustentado e enriquecido. 

 

Terceiro, Deus colocou diante do homem e da mulher, no estabelecimento do seu serviço no reino, o privilégio de comer livremente de todas as árvores do jardim e o privilégio de honrá-lo não comendo de uma única árvore - a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9, 16-17). A conseqüência de não honrar a Deus nesta matéria seria severa. O vínculo de vida/amor seria cortado. A comunhão amorosa seria quebrada. O vínculo da vida não iria operar. O homem e a mulher iriam morrer. Contudo, o homem e a mulher eram tudo o que foram projetados para ser. Eles não tinham nada a merecer. Nenhuma recompensa foi dada. Deus não disse: "Se vocês obedecerem, vocês ganharão...". O homem e a mulher eram o que Deus pretendeu que fossem. Eles tinham a habilidade, o privilégio e a oportunidade de ser o que Deus os tinha feito para ser.

 

Este terceiro mandato pode ser chamado do mandato da comunhão. A comunhão deveria ser exercida no andar com Deus diariamente, conversar intimamente com ele, e expressar amor, honra, devoção e louvor enquanto se fosse enfrentando os desafios e privilégios de cada dia. A cada sétimo dia, esta comunhão deveria ser expressa da maneira mais completa e rica possível.

O mandato espiritual, portanto, é aquele trata do relacionamento entre Criador e criatura, Deus e homem. É no mandato espiritual que encontramos a dimensão verdadeira do que significa o “espiritual”: é o relacionar-se com aquele que é Espírito. 

 

Implicações práticas

As conseqüências imediatas e práticas da visão bíblica dos mandatos são a percepção da existência do ser humano e suas relações como o resultado direto da relação do criador com o cosmos criado. Dessa forma o ser humano deve viver em todas as áreas de sua existência debaixo das condições do pacto da criação.

Pense no que o NT ensina sobre a vida cristã, por exemplo, sobre o trabalho - para quem trabalhamos segundo o ensino de Paulo? Mais ainda, tudo o que fazemos pare quem o fazemos? Qual o objetivo final de Deus na vida do cristão? Em que esse objetivo difere do objetivo inicial?

Após ter lido e estudado a aula, clique no ícone Referências na barra de ícones acima, localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s). Se desejar, faça a(s) leitura(s) complementar(es). Ao terminar, deixe-me uma mensagem dizendo que fez a leitura obrigatória. Pode incluir seus comentários e opiniões sobre as leituras.


[1]O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997), 62.

[2]Este mandato cultural com seus privilégios não nos dá, de forma alguma, licença para nos despojarmos do meio ambiente natural, seja ignorando-o, usando-o de forma errada ou abusando dele. O mandato cultural provê uma base pactual/reinante forte para um interesse profundo pelos problemas ecológicos e esforços de proteção ambiental.


8. Aula 6: Criação e Pacto

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 6: Criação

Com a leitura dos artigos das aulas anteriores você já teve a introdução necessária sobre o tema de nossa aula, a relação entre criação e pacto, especialmente na aula 4. A aula 5 teve por objetivo fazer com que essa relação ficasse firmada, quando entendemos os relacionamentos pactuais envolvidos na criação. 

Revisando:

Pacto pode ser definido como relacionamento. “Quando se trata do pacto divino-humano pode-se dizer que o pacto é um vínculo/elo de amor, iniciado e administrado pelo Deus triúno com a sua criação, representada pelos nossos pais”. (Aula 4)

Esse elo se desenvolve através de leis, o que chamamos de mandatos. (Aula 5) Esses mandatos envolvem a totalidade da existência humana, na qual o homem deveria cumprir o seu papel fundamental – “Glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. (Catecismo Maior da CFW) 

A partir desta aula trabalharemos com uma série de textos adaptados de From Creation to Consumation mostrando os pontos principais que devemos ter em mente ao iniciarmos a nossa tarefa bíblico-teológica em Gênesis.

Motivação para a Criação

(Van Groningen)

Por que Deus criou o cosmos? O que motivou o Deus Triúno a criá-lo? Deus tinha que fazer isso? Ele foi compelido por algum constrangimento nesse sentido? E, será que a motivação para a criação é a mesma que há para a consumação? As Escrituras não detalham em certo capítulo ou dado versículo, de forma declarativa e didática, a resposta à questão da motivação; mas certamente os registros escriturísticos da revelação de Deus no Antigo Testamento incluem referências sugestivas. Deve-se evitar a tentação de ler nas passagens ou de tirar das Escrituras o que na realidade não está lá, pois o desafio diante de nós é de aprender das Escrituras o que é apresentado por declarações diretas ou indiretas, por conotação ou insinuação. Além disso, devemos estar cientes de que são usados antropomorfismos e antropopatismos e estes devem ser entendidos por aquilo que são: formas humanas finitas de falar da Deidade Triúna infinita.

Primeiramente, é preciso fazer uma referência à auto-revelação de Deus. Não se afirma diretamente em Gênesis 1.1-2.25 o motivo pelo qual Deus decidiu criar e, desse modo, fazer-se conhecido a outros além da própria Trindade. Em Gênesis 1, no entanto, a repetida declaração "e Deus disse" indica seu desejo de falar, de expressar-se, e de fazer-se conhecido. Deus fez o que Ele quis fazer. Quando chegou a hora de criar os seres humanos, Deus se aconselhou consigo mesmo, dizendo, "Façamos".  Isso implica não somente um desejo, mas o plano de auto-expressão na criação de macho e fêmea humanos à sua própria imagem e semelhança. Em nenhum lugar das Escrituras é indicado ou mesmo sugerido que Deus tenha sido, de uma forma ou outra, compelido a criar à sua imagem, quer o cosmos ou o homem e a mulher; ou mesmo a se revelar e, desse modo, fazer-se conhecido a outros que não a si mesmo. Deus criou, se revelou e se fez conhecido porque foi seu desejo fazer assim. Sem quaisquer reservas de dentro de si próprio, ele escolheu livremente falar e agir. Essa foi sua prerrogativa. Em nenhum sentido, poderia se pensar nisso como negativo da parte de Deus, caso ele não tivesse optado por prosseguir nessa direção.

O desejo divino de criar e se revelar tem uma série de correlativos intimamente relacionados. Respondendo à questão do porquê do desejo, tem sido dito que foi a graça de Deus que o motivou a prosseguir em seu desejo de criar. A graça moveu o desejo para a intenção, e a interação conduziu ao falar e agir (i.e., criando o cosmos). Diz-se então que a idéia que graça transmite é de que Deus não tinha que criar. Deus criou sem mérito algum estar envolvido em nenhum sentido. Deve-se questionar seriamente, no entanto, se o conceito de graça pode ser usado antes da queda. O termo hen(graça) aparece pela primeira vez no relato de Noé, no contexto de pecado e juízo. Deus referiu-se a si mesmo como "gracioso" [misericordioso] em Êxodo 22.27, no contexto de alguém que está sofrendo por causa do pecado de roubo. Graça, assim como misericórdia, fala do amor de Deus por aqueles que são imerecedores e angustiados por causa do pecado e da culpa. Os termos deveriam ser usados, portanto, somente quando citando a demonstração de amor nesse contexto. Visto que o pecado não esteve presente quando Deus desejou e, de fato, criou o cosmos, não é correto falar de Deus motivado pela graça para criar e se revelar.

A objeção à idéia de que a graça motivou a Deus não deve ser entendida como uma negação de que Deus estivesse livre para criar. De fato, Deus era livre para criar e, humanamente falando, "livre para não criar". Ele não tinha que criar, mas desejou criar; ele era livre para satisfazer seus desejos. Ele exercitou essa liberdade.

Um termo que dá uma indicação da motivação de Deus em Gênesis 1.1-2.25 é o adjetivo "bom". Deus viu tudo que tinha feito e tudo era bom. Todos os aspectos criados estavam de acordo com o padrão da vontade ou intenção de Deus. Tudo que Deus criou foi fiel ao seu propósito. Deus sabia o que era bondade. Ele revelou bondade porque ele é bom.  Isto é dizer que Deus foi fiel a si mesmo. Deus criou o cosmos e se revelou porque, desse modo, ele expressou uma característica básica e profunda da personalidade divina. Em face do que o Novo Testamento declara, que "Deus é amor" (1 Jo 4.8), pode se inferir que Deus foi verdadeiro para consigo mesmo como um Deus de amor. No ato de criar Deus fez aquilo que ele poderia amar e iria amar, como de fato amou (ver Jo 3.16-Porque Deus amou o cosmos). É da essência do amor mover-se para fora de si, dar, compartilhar.  Deus, exercitando o amor, estava se revelando como bom.

Deus, movido por bondade/amor, foi também motivado a relacionar-se com outros além da Deidade. Deus queria comunhão um relacionamento íntimo, bom e amoroso. Isso tornou-se possível especialmente pela criação de macho e fêmea à sua imagem e semelhança. Este desejo de comunhão é refletido quando as Escrituras falam de Deus andando no jardim, tendo comunhão com Adão e Eva (Gn 3.8,9). O andar de Enoque com Deus (Gn 5.24) o levou a ser tomado por Deus para uma comunhão completa e sem fim entre Deus e o homem. Abraão foi chamado a andar diante ou com Deus e ser perfeito (Gn 17.1). Obediência da parte de Abraão satisfaria o desejo de Deus por comunhão. 

A motivação para comunhão não deve ser entendida como uma inferência de igualdade quanto à pessoa, posição ou função entre Deus e seres humanos. Do texto diante de nós, aprendemos que Deus exercia seu senhorio. Ele é Senhor; porque ele é Deus, ele é Mestre e Governador soberano. A vontade de Deus será feita de acordo com sua bondade/amor. Deus falou de acordo com sua vontade; agiu da mesma forma; exerceu seu senhorio sobre todos os aspectos do cosmos à medida em que os criava, moldava, e os colocava no seu contexto; e também determinava sua natureza e seu papel. Deus desejava revelar e exercer seu senhorio e tê-lo reconhecido e servido. De fato, quando Deus criou e se revelou, ele entrou em comunhão e exerceu seu senhorio porque quis - mas também porque ele desejava ser adorado e servido.

Na criação e através da história, Deus desejou que lhe fosse prestado adoração e serviço; conseqüentemente, incitou homens e mulheres a adorá-lo e a servi-lo, fazendo-se conhecido como um Deus de beleza, majestade, esplendor e glória. Esta motivação pode ser derivada por inferência de Gênesis 1.1-2.25, considerando-se o que foi que Deus criou e como provisões foram feitas. Considere, por exemplo, o Éden. Vários aspectos da Deidade foram tornados conhecidos, de várias formas, no curso da história. Exemplos excelentes disso temos na revelação que Deus faz de si mesmo no monte Sinai (Ex 19.16-19; 20.18-19); nas suas exigências para o tabernáculo, em seu aparelhamento e na roupagem dos sacerdotes. A revelação de Deus da sua majestade, esplendor e glória, que foram revelados a Isaías (cap. 6), Ezequiel (cap. 1), e aos pastores (Lc. 2), sustenta o fato de que Deus foi motivado a criar e a se revelar para que estes aspectos do seu ser e caráter pudessem ser apreendidos e ele fosse adorado (ver Sl 90.17; 96.6,9). 

Os comentários sobre a motivação de Deus para criar e, desse modo, revelar-se, não deverão omitir o que, num sentido real, poderia ser considerado como o desejo mais abrangente: o desejo de Deus de ser glorificado. Este aspecto não tem referência em Gênesis 1.1-2.25, mas considere o Salmo 19.1: "Os céus proclamam a glória de Deus". Paulo declarou esta mesma verdade de forma eloqüente: "Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente." (Rm 11.36). Sem dúvida, Paulo tinha em mente a obra criadora de Deus, assim como o seu plano e trabalho de redenção. Os escritores bíblicos, conscientes desse desejo divino de ser glorificado, chamavam todo o povo para fazer isso (Sl 22.23; Is 24.15; Mt 5.16; Jo 12.28). Repetidamente é declarado que aqueles que amavam e honravam o Senhor, glorificando Deus da forma em que desejava ser glorificado (Sl 86.12; Rm 15.6; 2 Co 9.13). Quando Jesus estava na terra, declarou que veio para glorificar o Pai, e que de fato o glorificava (Jo 17.1,5).

A motivação de Deus para criar não estava totalmente completada quando ele terminou de falar e fazer no princípio. A motivação que fez com que Deus criasse, também o moveu através da história à medida que sustentava o cosmos, a despeito do pecado e de seus efeitos. Essa motivação também o fez prosseguir no seu alvo a ser completado na consumação. De fato, a motivação para a consumação primeiramente se fez evidente no princípio. Tão certo como Deus começou criando o cosmos, ele o trará à sua completa consumação. 

O Relato da Criação como Fato

Não é de se admirar que o relato da criação e o conjunto de livros onde ela está contida sejam a parte mais atacada de toda a Bíblia. Justamente porque o relato da criação é  a base para a compreensão do restante das Escrituras. Sem uma compreensão correta da origem do homem, as leis que regem o seu relacionamento com o criador e a quebra dessas leis pactuais, o restante das Escrituras não faz o menor sentido! Não temos tempo nesse curso para trabalhar uma interpretação detalhada de todo o texto da criação (faço referência ao texto da Aula 8 no curso de Interpretação – Interpretando Gênesis 1.1-2). O que nos importa, em primeiro lugar, é enfatizar que a criação, assim como a narrativa da mesma nos primeiros capítulos da Bíblia, é fato!

As diversas teorias científicas do mundo moderno se encarregaram de criar suficiente argumentação contra este fato, a ponto de encontrarmos os cristãos totalmente confusos, e na maioria das vezes omissos quanto ao ensino da Bíblia sobre a criação. Creio que aqui temos, também, a razão pela qual temos tantas divisões: uma má compreensão da base. Veja o comentário de Van Groningen sobre as visões em torno do relato da criação:

Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento falam dos atos criadores de Deus como eventos históricos. Young expôs o caso corretamente: "Eles foram eventos históricos" no sentido que, de fato, aconteceram. Ele passa então a dizer que estava rejeitando a definição que limita a palavra ao que podemos saber através da investigação científica. Wenham também defendeu este ponto de vista. A visão tradicional é sustentada pelo comentário massorético (no texto hebraico). Este ponto de vista tem sido defendido pelos adeptos do método de exegese teológico-histórico-gramatical. Somado a isso, quando relatos extrabíblicos são consultados, apresentam as visões alternativas sugeridas para Gênesis 1.1-3, mas o fazem de uma forma literária diferente, que deixa óbvias estas óticas. O relato escriturístico é claramente diferente. Existe uma seqüência natural de pensamento na visão tradicional. Primeiro, é dito que Deus criou tudo; então, é dito como eram as coisas depois do primeiro ato criador. E logo a isto se seguiu a primeira palavra criadora.

Considere também o aspecto do uso do verbo no em Gênesis 1.1:

Primeiramente, deve ser considerado o termo bara. No piel, parece ter o significado básico de "cortado" ou "separado" (Js 17.15; Ez 23.47). Este significado e uso são muito diferentes do seu emprego no qal, onde ele é usado somente com respeito a Deus. Nesse caso, refere-se a algo novo vindo a acontecer. Pode referir-se a uma mudança ou transformação radical, como por exemplo, o aparecimento de novos céus e nova terra (Is 65.17). Quando os propósitos de Deus na história são revelados e os aspectos novos e/ou renovados são criados por Deus, o termo baraé usado (Is 42.5; 45.12). Davi usou o termo no Salmo 51.12 (heb.) quando orou por um coração limpo e um espírito renovado. Em todos os casos onde o termo aparece no qal, fala de eventos reais que estão acontecendo, irão acontecer ou poderão acontecer. Este não é um termo literário artístico. Embora ele ocorra na literatura poética, ele não é empregado como símbolo, metáfora ou em qualquer outro sentido não verdadeiro. O uso do termo barano Antigo Testamento leva o conceito do que Deus fez, faz ou irá fazer realmente. Indica um evento concreto, real e histórico. Gênesis 1.1 informa o leitor do que Deus realmente fez. Isto é um evento histórico no começo absoluto do tempo, espaço e substância do cosmos. Gênesis 1.1 fixa o palco; prepara o leitor para o que se segue, um relato do que Deus realmente fez.

Fatos e atos

Se o relato da criação é fato, ele nos relata uma série de atos criativos de Deus. Atos criativos não significam apenas que Deus fez coisas a partir do nada. No relato da criação temos, além de atos criativos a partir do nada, Deus organizando, separando, nomeando e delegando funções. Esse é um aspecto fundamental de se levar em consideração ao lermos o relato de Gênesis 1. Nem tudo o que é feito nos 7 dias de atividade criadora é uma nova criação, a partir do nada. Veja-se, por exemplo, o relato do quarto dia, em que são “criados” os luzeiros. Como explicar a existência da luz no primeiro dia e a criação dos luzeiros no quarto? Normalmente faz-se um malabarismo exegético para se dizer que a luz é independe de luzeiros, que Deus é luz e Ele pode cria-la independente das fontes de luz naturais que conhecemos, e assim por diante.

No entanto, se entendermos a narrativa como o ato de Deus delegar as funções dos luzeiros, entendendo que os mesmos já haviam sido criados no reshit (princípio), nenhuma dessas explicações seria necessária. É um ato de Deus em sua atividade criadora, estabelecer as funções dos astros celestes com relação à terra. Para mais explicações, ver o texto anexo de Van Groningen sobre Os Atos da Criação. (Leitura obrigatória)

O resultado da Criação: O reino cósmico

Texto adaptado de From Creation, cap. 2

A Natureza do Reino Cósmico

A atividade criadora teve muitas características e o resultado desta vasta e variada atividade também teve muitos aspectos. O cosmos consistia de luz, céu (abóbada celeste), mares (extensões de água) e terra seca. A maior maravilha é o fato de existir vida em várias formas: vegetal, animal, angelical e humana.

A criação, consistindo de muitas partes, conexões, forças e leis, foi constituída para ser uma entidade total, integral e harmoniosa. Cada aspecto tem seu papel, função, influência e efeito. Esta criação, vinda como veio do trabalho do Criador, continua como foi feita porque é domínio de Deus. Assim como ele exercitou seu controle soberano sobre a criação quando a criou, ele continua a exercitá-lo. A criação, pelo poder e vontade soberana de Deus, permanece sujeita a seu Criador. Isso é confirmado pelo fato de que Deus viu o que fez e declarou ser bom. O cosmos, sujeito a seu Deus Criador, permanecerá assim até Deus dizer que chegou o tempo para a renovação e a consumação final. Enquanto isso, todo o potencial que Deus tem colocado na criação continuará presente, desafiando homens e mulheres a descobri-lo e desenvolvê-lo. Essa revelação do potencial da criação, no entanto, não irá alterar ou transformar qualquer parte dela. O que Deus criou, ato por ato, foi bom. Cada aspecto satisfez seu padrão. E assim continuará.

A criação de Deus pode ser citada, corretamente, como sendo um cosmos. O termo tem origem grega; fala de ordem, harmonia e beleza. O termo "universo" tem um sentido bem próximo, mas enfatiza que a (di)versidade (os muitos) é una (um só). Muitas partes constituem um produto único das mãos do Criador, um produto que é ordenado, harmonioso em todas as suas partes, um belo trabalho. A criação é um cosmos. Portanto, foi criada e é sustentada pelo soberano Criador que é seu Governador. A criação é o reino cósmico de Deus. É o domínio totalmente abrangente de Deus dentro do qual ele deu autoridade aos homens e mulheres em submissão a ele;  por causa disso, reinos humanos poderiam se desenvolver e se desenvolveram. E, dentro deste reino cósmico abrangente, o reino de Cristo, o Redentor, encontra seu lugar e seus efeitos.

A Manutenção do Reino Cósmico

O relato da criação não fala direta e explicitamente sobre a manutenção do reino cósmico. Existem, porém, algumas referências implícitas.

Deus, o Criador, proferiu a palavra criadora de acordo com o seu plano e vontade soberana. E, tendo criado o que pretendia, declarou ser bom. Esta declaração, como já foi mencionado, indicou que o cosmos, em todos os seus aspectos e funções, atende ao padrão de Deus. Isaías declarou mais tarde que Deus não tinha criado o cosmos para que fosse inútil (Is 45.20). Isso testifica o fato de que Deus pretendia manter, sustentar e dirigir o cosmos como tinha planejado. O cosmos, por essa razão, é mantido de acordo com a vontade soberana de Deus e de acordo com os padrões que ele determinou. Mas, esta manutenção não acontece "automática" ou "deisticamente". Deus permanece pessoalmente envolvido.

O Espírito de Deus pairava sobre a massa inicial criada sem forma e vazia. [mais uma vez, lembrem-se da Aula 8 do curso de interpretação] O Espírito trabalhou na formação do cosmos. Ele não se retirou dele. Ele permaneceu como uma força sustentadora. Se, e quando o Espírito retirar-se, então a vida ficará ameaçada e a destruição se tornará uma possibilidade e uma ameaça real. O salmista também cantou do papel contínuo do Espírito na manutenção e continuação da vida (Sl 104.24-31). Nesse contexto, o salmista também deu expressão à eterna e contínua revelação da glória de Deus através do seu trabalho artesanal.

A manutenção do reino cósmico, através do poder reinante de Deus e através do seu Espírito sempre presente e ativo, é chamada de providência de Deus.

Mais um fator na manutenção do reino cósmico deve ser mencionado. Devemos nos lembrar das  forças, modelos e leis que Deus implantou dentro do cosmos. Ele deu às plantas, animais, pássaros, peixes e à humanidade, o poder, a função e a capacidade de se reproduzirem. Deus colocou o sol, a lua e as estrelas em seus lugares e deu-lhes sua função. Como Deus governa seu reino cósmico de acordo com sua vontade, e como o Espírito está continuamente presente e realiza sua função mantenedora, os aspectos e forças do cosmos funcionam, continuamente, de acordo com suas naturezas divinamente determinadas. Cada um destes três elementos - o governo, o papel do Espírito, e as funções inerentes dos aspectos criados - trabalha harmoniosa, integral e produtivamente.

É bom lembrar, a esta altura, que com a queda de Satanás e da humanidade, distúrbios foram introduzidos dentro do bem operante e sustentado reino cósmico. Mas, os efeitos da queda não alteraram o modo básico e fundamental em que Deus mantinha seu reino cósmico. Como estaremos descobrindo, Deus trouxe aspectos adicionais, particularmente no que respeita sua oposição aos esforços satânicos e aos resultados drásticos da queda de Adão e Eva.

O Propósito do Reino Cósmico

Quando a pessoa indaga a respeito do propósito do reino cósmico de Deus,  talvez se entenda que ela esteja procurando saber qual foi a intenção e motivação que Deus teve em criá-lo. Já foram feitas referências à auto-revelação de Deus, à revelação de sua vontade e glória e a seu desejo de comunhão. Não existe declaração expressa, em Gênesis 1-2, quanto aos propósitos a serem cumpridos pelo reino cósmico. Daquilo que Deus pedia, algumas indicações podem ser deduzidas.

Um dos propósitos para o reino cósmico era tornar conhecida a maneira em que a vontade de Deus seria expressa em termos de modelos e leis que Deus implantou na sua criação. Através disso, pode ser obtido um entendimento mais profundo dos planos e intenções de Deus. À medida que o cosmos expressa isso e nós observamos a conformidade do cosmos à vontade de Deus, podemos obter uma compreensão mais profunda e mais clara da sabedoria e da justiça de Deus. Sabedoria pode se referir a prudência, habilidade e sucesso. Mas também se refere à habilidade de unir as várias partes e forças para que funcionem como um todo. Sabedoria é também expressa na maneira em que cada aspecto da criação mantém sua identidade, à medida que aspectos adicionais e funções eram chamados à existência. Observando isso, o salmista exclamou, "Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste" (Sl 104.24). A justiça de Deus é revelada no fato de que ele tem todos os aspectos funcionando de acordo com a sua vontade. Cada um deles cumpre as ordens de Deus. Cada um permanece na relação com os outros que lhe foi divinamente determinada, e, em particular, em sua relação com Deus. Nenhum aspecto do cosmos, como Deus o criou, foi contrário ou se opôs ao propósito de Deus. Sendo que o reino cósmico cumpre o propósito de Deus no que diz respeito à sua sabedoria e justiça, nenhuma pessoa pode alegar ignorância sobre a deidade, sabedoria e justiça de Deus (Rm 1.18-32).

Outro propósito para o reino cósmico foi produzir um palco para Deus demonstrar as maravilhas e mistérios da vida. A vida no cosmos é um dom de Deus. A vida, requerendo um palco no qual poderia ser trazida à existência e no qual poderia ser trazida a uma expressão múltipla, foi feita um aspecto inerente do reino cósmico. Como tal, este reino estava sob a vontade e a sabedoria de Deus e poderia funcionar de modo hábil, frutífero e harmonioso, com todas as dimensões da vida .

Um terceiro propósito para o reino cósmico era providenciar um lar, um trabalho e um lugar de descanso para o ápice da criação de Deus, os que foram criados à sua imagem. O reino cósmico é o lar palaciano e o jardim edênico para homens e mulheres. Deus pretendeu dar ao povo um lar que fosse ao encontro de suas necessidades, que proporcionasse um palco para o amor e um cenário para a experiência da alegria. O reino cósmico, existindo sob o reinado sábio e justo de Deus, foi feito para que os que foram criados à imagem de Deus pudessem trazer a uma expressão plena e perfeita todas as capacidades e potencialidades que foram dadas ao homem e à mulher pelo Rei Criador.

O reino cósmico também cumpriu o propósito divino de ter o homem e a mulher servirem como vice-gerentes. Deus os fez como realeza e para um serviço real. O reino cósmico cumpre seu propósito suprindo um lugar de descanso para os vice-gerentes de Deus. Não só teriam e desfrutariam de um lar e um jardim, servindo como trabalhadores reais com Deus e sob a direção dele. Eles teriam descanso do seu trabalho para que pudessem, a cada noite e no sétimo dia, entrar em uma comunhão de amor e adoração.

A Consumação do Reino Cósmico

O relato da criação indica claramente que Deus iniciou um processo. Este processo cessou quando Deus descansou (Gn 2.1-3). Os céus e os mares estavam cheios de toda sorte de vida apropriada. A terra tinha produzido os vários tipos de vegetação. A vida animal havia sido criada, de acordo com suas espécies. Finalmente, o homem e a mulher foram criados e trazidos para um relacionamento familiar. O jardim do Éden havia sido plantado e servia como um local eficiente e totalmente apropriado para se morar, trabalhar e descansar. O processo criador - o fazer, formar, organizar, designar e produzir - estava completo. Deus descansou de toda sua obra criadora.

Deus deu a Adão e Eva, e a seus descendentes, o mandato de ser frutífero, de cultivar e ter domínio sobre todo o cosmos criado. Este mandato dá a entender que a vida no reino cósmico não era para ser estática ou congelada em formas sólidas. A humanidade devia envolver-se na descoberta, revelação e desenvolvimento das potencialidades e substâncias, forças e leis que Deus embutiu em seu reino cósmico. Foi determinado à humanidade ser culturalmente ativa e produtiva. Foi determinado à humanidade tornar-se "construtora da História". Foi determinado à humanidade servir sob o Rei Criador; e dentro dos limites colocados sobre o reino cósmico, com a direção do Espírito de Deus, das leis e das funções criadas, trazer a uma crescente riqueza e completa expressão as maravilhas, as belezas, os poderes, os mistérios, sim, toda a vontade de Deus para um reino cósmico totalmente revelado e perfeito. Uma vez  que cessaram as atividades criadoras, a humanidade teve o privilégio e a responsabilidade de desenvolver a cultura, de  envolver-se no processo histórico e de ser co-operadores com Deus no processo de consumação.

O reino cósmico está sujeito a e envolvido no processo de consumação. A queda do homem e suas conseqüências já afetaram esse processo. No entanto, as Escrituras deixam claro que o processo continuará. Em um ponto determinado por Deus, o reino cósmico será renovado completamente através de um súbito acontecimento cataclísmico. Até que isso aconteça, o reino cósmico estará envolvido em um processo de transformações, algumas iniciadas por influências e forças naturais, sob controle soberano, e outras induzidas e dirigidas pelas atividades culturais da humanidade. Contudo, no meio da transformação, existirão os elementos básicos, estruturas, modelos e leis imutáveis.

Após ter lido e estudado a aula, faça a leitura obrigatória: Os Atos da Criação. Ao terminar, deixe-me uma mensagem dizendo que fez a leitura obrigatória. Pode incluir seus comentários e opiniões sobre as leituras. Nessa aula não temos o SELF TEST.


8.1. Os Atos da Criação

Os Atos da Criação

G. Van Groningen - seção do cap. 2 de  From Creation

Disclaimer - Prezados alunos - a leitura desse texto de Van Groningen é muito rica e instrutiva e a recomendo fortemente. No entanto, além de algumas seções em que coloquei algumas notas pessoais demonstrando discordância, existem outros pontos menores em que discordo da exegese do autor.

    Gênesis 1.1-2.25 registra que Deus criou os céus e a terra e tudo o que estes constituem. Tudo que existe, exceto Deus, foi criado. Mas este ato criador de Deus não foi uma ação única de Deus. A Escritura registra mais do que aquilo que Gênesis 1:1 revela sobre a obra criadora de Deus. Uma consideração dos vários aspectos ou atos da criação nos dará uma rica compreensão do modo de trabalhar de Deus e da natureza integrada de todo o cosmos. Deus criou seu reino cósmico consistindo de uma grande variedade de partes constituintes, todas elas relacionadas e harmoniosamente interdependentes. Nenhum aspecto ou parte pode existir de forma independente. O sol, a lua e as estrelas requerem o céu; peixes precisam de água; a humanidade precisa de vegetação para comida.

Criação pelo Fiat

O termo fiat não aparece no Antigo Testamento. Ele significa comando. O termo hebraico para comando é sawa, que aparece só no piel e significa dar uma ordem ou um comando. O texto traz o termo "disse", que não significa comando. Mas um comando era dado pelo uso da terceira pessoa do singular da forma jussiva do verbo haya (ser). Deus não se dirigiu a uma pessoa (segunda pessoa do imperativo); antes, ele chamou, ele mandou que alguma coisa aparecesse ou se tornasse diferente. Quando o gênero humano foi criado, Deus usou a primeira pessoal do plural, coortativo "façamos". Deus não é revelado como uma deidade que age do tipo "mãos-a-obra"; antes, ele é revelado como um poderoso Deus soberano que pode dirigir-se ao que não existe e chamá-lo à existência. E tudo quanto tem diante de si faz o que ele deseja. Isso é registrado nas expressões "e assim se fez" e "Deus viu que era bom".

    A criação pelo fiat demonstrou a realeza do Criador. Ele não somente criou o material do cosmos, ele o controlou. Enquanto  continuou  dirigindo-se ao cosmos durante o período das atividades criadoras, ele trouxe à existência o que ele estaria continuando a controlar e governar. Trouxe à existência um reino sobre o qual reinava e continuaria reinando.

    Uma outra verdade importante deve ser mencionada agora; embora somente mais tarde ela será explicada de forma mais completa. Deus estabeleceu um relacionamento com seu cosmos/reino. O texto registra que Deus, depois de cada ato criador, viu o que tinha feito, declarou que era bom e começou a lidar com o que fora criado. Ele não colocou o cosmos em movimento e então saiu ou afastou-se dele, ignorando-o. Ele não assumiu a abordagem "deista". Antes, um relacionamento íntimo foi mantido. Durante o período da criação, ele continuou a se dirigir ao que tinha feito. O que tinha sido feito reagiu como Deus, o Rei Criador, requeria. Deste modo, um poderoso e efetivo vínculo foi estabelecido. Foi um vínculo de bondade/amor; um relacionamento produtivo que tornou-se um vínculo sempre crescente e enriquecedor entre o Criador e todos os aspectos da sua criação. Deus criou seu reino cósmico e estabeleceu um relacionamento pactual com ele;  uma aliança que seria um vínculo duradouro e o fator central de unificação de tudo que tornou-se conhecido no curso da história e no processo que conduz à consumação. Na verdade, era para ser a força mantenedora e o meio de ação até o fim, o fim absoluto -- o escaton.

É de vital importância que o leitor compreenda o que está estabelecido nesta seção. Vale a pena repetir. Deus, através de seus comandos verbais, exercitando seu poder soberano, trouxe à existência aquilo sobre o qual estaria sempre reinando. Ele criou seu reino e estabeleceu um vínculo de bondade, amor, vida e poder entre si mesmo e este reino. Este vínculo é conhecido como a aliança com a criação, ou como  "Pacto do Domínio".

    Antes do próprio reino cósmico ser discutido em maiores detalhes, estudaremos os vários aspectos da atividade criadora de Deus. Este estudo dará um entendimento mais profundo e uma compreensão mais rica do exercício das prerrogativas do reinado de Deus. Também dará discernimento do motivo do salmista exclamar, "Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste." (Sl 104.24) e de Paulo,  para escrever que a criação revela o poder eterno de Deus (Rm 1.20).

Aspectos da Atividade Criadora

1. O verbo bara' no qal é usado para se referir a uma atividade de Deus que fala de um começo absoluto ou então um novo começo. O novo pode ser originado por uma renovação, transformação ou regeneração. Alguns estudiosos têm tentado dar esse segundo sentido ao verbo bara'. Este esforço pede uma reinterpretação da estrutura de Gênesis 1.1-2 para que o primeiro versículo seja lido como uma oração dependente, "quando Deus começou a criar..." e o versículo 2 como um parêntesis, uma declaração explicativa, "e a terra era caótica...". Isto é, então, seguido por: “Disse Deus: "Haja luz". Esta explicação da estrutura e do verbo leva à conclusão de que existia um material preexistente quando Deus criou os céus e a terra. A resposta dada a essa conclusão tem duas partes. Primeiro, Wenham escreveu corretamente que, embora bara' não indique creatio ex nihilo, o verbo preserva a idéia da criação sem esforço, totalmente livre e ilimitada de Deus. Nunca é mencionado que Deus criou "a partir de". Carl F. Keil, em sua discussão desse material, indicou que os panteístas acharam a idéia da "creatio ex nihilo repulsiva". Keil, no entanto, insistiu que bara',  no qal, significou criar e que, quando "aplicado à criação divina, significava a produção do que não tinha existência anterior". John L. Mackenzie, no entanto, sentiu-se à vontade para questionar se o autor de Gênesis 1 descreveu Deus criando a partir do nada. Ele adiciona que não é negado mas "é extremamente improvável" que o autor de Gênesis 1 afirme isso. James Lindsay declarou como insegura qualquer exegese de Gênesis 1 que tente estabelecer a "criação a partir do nada" e sugeriu que outras passagens bíblicas deveriam ser consultadas.

No Antigo Testamento, há passagens que, no mínimo, dão a entender que Deus criou o mundo a partir do nada. O salmista falou de Yahweh criar através da sua palavra (Sl 33.6). Ele também chamou os céus, os anjos, o sol, a lua e as estrelas para louvarem a Yahweh porque "mandou ele, e foram criados." (Sl 148.1-5). O escritor de Provérbios falou da mesma forma (Pv 8.22-27). O Novo Testamento fala mais diretamente. João escreveu que, através dele, a Palavra, "todas as coisas foram feitas e, sem ele, nada do que foi feito se fez." (Jo 1.3). A passagem clássica da doutrina do creatio ex nihilo é Hebreus 11.3: "o visível veio a existir das coisas que não aparecem".

    Depois de uma consideração do texto de Gênesis 1-2 e de vários esforços para interpretar esta passagem, Marcus Dodds concluiu que a verdade ensinada é de que existiu uma criação, "que as coisas agora existentes, não nasceram de si mesmas". Antes, uma inteligência superior e uma vontade criadora chamou à existência estas coisas que existem.  Nós podemos ser e seremos mais específicos: O testemunho das Escrituras é que Deus criou os céus e a terra quando nada existia além da deidade. Esta é a verdade expressa em Gênesis 1.1.

    Na seção I acima, discutimos a relação de Gênesis 1.1 com Gênesis 1.2s. Concluímos que Gênesis 1.1 foi a declaração introdutória do relato da criação. Este cabeçalho de Gênesis 1.2-2.25, que também pode ser visto como cabeçalho de toda a Escritura, enfatiza que o evento criador foi realizado por Deus. Tudo que foi trazido à vida, veio à existência através da Palavra criadora de Deus. Este evento criador, no entanto, não aconteceu instantaneamente. Deus seguiu um processo, de acordo com o texto de Gênesis 1.1-2.25.

2. Antes de discutir as várias atividades envolvidas no evento da criação, devemos considerar a contribuição de Gênesis 1.2  para o relato da criação.

O texto é introduzido pelo we conjuntivo, que pode ser traduzido de várias formas. O contexto normalmente indica qual a idéia comunicada. Como vimos anteriormente, interpretações do contexto variam. Seguindo a linha adotada acima, a melhor tradução do we é ou "e", ou "agora". Não deve ser traduzido como "então", pois, para tanto, seria necessário traduzir a primeira palavra de Gênesis 1.1 por "quando", i.e., "quando Deus começou...então a terra". Antes, posto que o primeiro versículo é uma sentença independente, o segundo versículo não deve ser considerado como uma cláusula temporal. O melhor é considerá-lo como uma oração circunstancial, expressando as circunstâncias da terra. O termo "agora" é o que se ajusta melhor: "Agora a terra era..." Kline disse correta e sucintamente que "o registro bíblico aponta as condições no mundo visível que chamam por uma ação divina".

    A condição da terra, o mundo visível para quem a visse quando veio a existir no princípio, é descrita através de quatro termos. Tohu aparece vinte vezes no Antigo Testamento. Moisés o usou para descrever o deserto que os israelitas percorreram (Dt 32.10). O contexto fala dele como um lugar de vazio e do absolutamente nada. Assim também falou o Salmista (Sl 107.40). Em Jó, o termo é usado para comunicar a idéia do nada (Jó 6.18) e do vazio (Jó 26.7); a idéia de um lugar ermo, estéril, é também apresentada (Jó 12.24). Outros escritores usaram o termo para se referir a objetos, normalmente ídolos, que são inúteis: A versão revista e corrigida de João Ferreira de Almeida preferiu o termo "vão" ou "vaidade" (1 Sm 12.21; Is 40.17; 41.29; 44.9; 59.4). Isaías o usou no retrato da desolação de uma cidade (Is 24.10) ou de Edom como uma nação (Is 34.11). O profeta expressou várias nuanças do nada; pessoas justas traídas por nada (Is 29.21), o trabalho dos juizes (Is 40.23), e o resultado do povo buscando a Yahweh pelas razões erradas (Is 45.19). O termo é usado duas vezes pelos profetas em relação à criação. Isaías proclamou que não era intenção de Yahweh ter a terra Tohu, vazia, mas tê-la habitada (Is 45.18). Jeremias, no entanto, usou o termo para falar de uma desolação absoluta que resultaria do julgamento de Deus sobre a terra de Israel e Judá (Jr 4.23). Esse levantamento do uso do termo indica que a idéia principal, embora expressa com várias nuanças, é de absolutamente nada ou vazio. Lugares podem ser absolutamente desolados porque nada está lá; resultados de adoração, trabalho ou outros esforços podem resultar em absolutamente nada útil ou que valha a pena.

    Estudiosos representando várias escolas de pensamento e interpretação têm mostrado um grau de concordância sobre a idéia de que o termo "caos" em Gênesis 1.2 introduz o pensamento de que o mal estava presente de algum modo ou forma no estágio mais remoto da existência do cosmos. Deve ser notado que, de acordo com o relato bíblico, não existe sugestão alguma de oposição a Deus em suas atividades criadoras, o que seria inerente ao mal. Os próprios termos não carregam este pensamento. É verdade que, quando os ídolos, considerados nada, eram cultuados, eles eram considerados o objeto de adoração de um povo mau. Estes ídolos eram considerados maus por causa do modo como foram feitos e usados.

    Esta visão errônea de que quando o cosmos estava no estado de caos o mal estava presente, tem duas conseqüências importantes.  Primeira: alguns escritores têm sugerido que duas forças antagonistas estavam presentes no começo. Os princípios do bem e do mal constituem um poderoso dualismo. Sugere-se que a história da criação, segundo o argumento, comunique a idéia de que o bem triunfou numa violenta batalha cósmica.  Segunda:  relacionada a esta idéia da luta entre dois absolutos, está a idéia de que, em lugar de se pensar em "criar" como "trazer à existência", deveria se pensar em "criar" como uma atividade "libertadora". Como o bem triunfou, o cosmos foi liberto do mal. É verdade que, quando Israel foi liberto, tornou-se um novo povo. O termo "criar" já foi usado para se falar na formação de Israel como nação recém-nascida, livre. Porém, a idéia de uma nova criação também está presente, não só a de libertação. Além disso, o termo bara' comunica a idéia de trazer à existência o que não estava presente. Ainda mais, as Escrituras nos informam que o mal foi introduzido depois que a boa criação foi trazida à existência.

    Concluímos que a idéia do mal não está presente em Gênesis 1.2. Antes, o que surgiu como resultado do primeiro ato criador de Deus, a criação ex nihilo, não foi um produto mau. Apenas estava vazio, inútil em sua condição e circunstância inicial. Os outros três termos repetem ou ampliam esta condição.

Wabohu, o segundo termo, aparece duas outras vezes nas Escrituras. Jeremias o usou da forma em que foi empregado em Gênesis (Jr 4.23). Isaías o usou para comunicar a idéia de inutilidade ou vazio (Is 34.11). A maioria dos léxicos considera a idéia de vazio como o significado mais preciso do termo. É um sinônimo muito próximo de tohue é usado para enfatizar a idéia de desolação. Alguns escritores, interpretando estas duas palavras, falam de caos primordial. O estado inicial da terra era de desorganização; era inadequado para qualquer tipo de vida. Neste sentido, o termo "caos" pode ser usado. De novo, vale a pena repetir, a idéia do caos, propriamente, não inclui a idéia de mal. A criação original não incluiu o mal, não foi formada ou controlada pelo mal em qualquer modo concebível. Deus não criou o mal nem o resultado do que ele criou foi mau. [Faço referência a Aula 8, curso de Interpretação, onde discordo desta posição - prof. Mauro]

A terra inabitável, desorganizada, estéril e vazia é mais adiante citada como tendo hosech(escuridão) cobrindo as "faces do tehom (abismo ou grande profundidade). A escuridão era uma parte da criação de Deus; Childs está errado ao dizer que ela era independente da terra e que não foi criada.  A frase contribui para  a descrição do caráter inabitável da terra, e também serve como introdução à próxima declaração: "haja luz". Alguns estudiosos têm tentado ver uma ligação estreita entre tehom e Tiamat, uma personalidade mítica babilônica. Alexander Heidel, no entanto, esclarece: "ainda que vindo da mesma raiz, as duas palavras não significam a mesma coisa". Young também mostrou como as palavras não são filologicamente equivalentes. A palavra tehom refere-se às primeiras águas que eram parte da terra, que alcançavam as áreas profundas, mas também cobriam a totalidade da "face" ou superfície da terra.

    Os quatro termos - tohu, bohu, hosech (escuridão), e tehom - unem-se para dar expressão à caótica condição da criação de Deus no seu estágio inicial. Era totalmente desorganizada, uma confusão de elementos, totalmente inabitável para qualquer forma de vida. [Faço referência a Aula 8, curso de Interpretação, onde discordo desta posição - prof. Mauro] Mas o Espírito vivo e formador de Deus (Sl 104.30) estava presente. Ele não era parte do cosmos; pairava sobre o cosmos. O termo ruah pode ser traduzido como "vento", mas a frase ruah 'elohim é repetidamente usada nas Escrituras para se referir ao Espírito de Deus, o Espírito Santo (ex., Ex 31.3; 35.31; Jz 3.10; Ez 11.5). Deve ser acrescentado, no entanto, que vento é freqüentemente usado como um símbolo ou metáfora para referir-se ao Espírito Santo. A questão foi corretamente esclarecida por Wenham: "A frase expressa a presença poderosa de Deus movendo-se misteriosamente sobre a face das águas". O Espírito foi o agente divino ativo que transformou um caos em um cosmos. Ele fez o inabitável se tornar o lar real dos vice-gerentes de Deus.

    As quatro atividades de Deus em seu trabalho de produção do reino/cosmos fornecem uma bela cena de como Deus faz seu trabalho. É um modelo de atividade de construção que os vice-gerentes de Deus fazem bem em seguir, como exemplo, à medida que buscam ser trabalhadores nobres sob e com Deus, no processo de trazer seu reino à sua consumação.

3. O Deus Criador, tendo a massa criada desorganizada e confusa diante de si, continuou sua atividade criadora através da separação. À medida que fez isto, fez com que aspectos de sua criação se tornassem distinguíveis. Ele falou a palavra de comando; e o Espírito "que pairava" cumpriu sua ordem. Deus bradou yehi 'or  (haja luz). Houve luz e, quando isso aconteceu, Deus fez a distinção entre a luz e a falta de luz (escuridão). Ele prosseguiu fazendo outra separação: a expansão ou céu foi separada da mistura de terra e água (Gn1.6-8). Assim, por separação, Deus formou o céu. Uma terceira separação foi feita - água da terra (Gn1.9-10). Deste modo, Deus e seu Espírito formaram as extensões de água (oceanos, mares, lagos) e os continentes. Os verbos que Moisés usou para relatar estas atividades foram os que se seguem. Yehi (haja) foi o comando para o produto final aparecer. Deus sabia o que queria em cada caso. A idéia, o conceito veio em primeiro lugar; pelo falar, ele fez o conceito tornar-se uma realidade. Mas ele também é descrito como tendo realizado um outro ato: wayyabdel (ele dividiu ou separou, Gn 1.4,6). O verbo wayy'as (fazer, Gn 1.7) expressa uma outra nuança da atividade de Deus. Quando ele separou, ele fez. Uma outra palavra de ação é yaqqawu (seja ajuntado, Gn 1.9). Estes verbos, em combinação, apresentam uma atividade coordenada de falar, dividir, ajuntar e fazer, cujo resultado foi que a massa desorganizada, que consistia de vários elementos, tornou-se luz, escuridão, céu, extensões de água e massas de terra. De fato, os aspectos constituintes do reino cósmico tinham sido trazidos a uma existência distinta.

Alguns comentários devem ser feitos, a esta conjuntura. Moisés disse que cada vez que Deus fez uma separação e formou um aspecto distinto do reino cósmico ele viu e declarou que era bom. Cada parte foi o que ele queria que fosse. Cada parte realizou seu desejo. Ele quis a luz, a escuridão, o céu, os mares e a terra. O Espírito de Deus realizou o desejo de Deus. Cada parte refletia a vontade de Deus.

    Gênesis 1.3-10 não dá os detalhes que as pessoas têm desejado saber. Será que a luz existe sem a presença dos corpos celestes sustentadores da luz? Outras passagens sugerem que a luz não é para ser vista como completamente dependente deles. João fala do céu como não tendo necessidade do sol, mas a luz está presente lá (Ap 21-22).

    Outra questão que é difícil de se responder é a que diz respeito à criação dos anjos, serafins e querubins. Estes são habitantes espirituais do céu criado, que Deus fez ser sua habitação e o centro de domínio do seu reino cósmico. Pareceria correto considerá-los como tendo sido criados quando Deus trouxe à existência os céus e a terra (Gn 1.1). Deve ser notado que não foi dito que a abóbada celeste estava envolvida na massa inabitável e desorganizada chamada terra (Gn 1.2-2); a abóbada celeste não foi incluída nas atividades de separação. A expansão ou céu foi; o céu, como discutimos acima, deve ser distinguido da habitação celestial de Deus. Isto também significa que Deus nunca habitou numa situação caótica, nem seu trono esteve em tais circunstâncias. E ainda, as criaturas celestiais, anjos, serafins e querubins, não habitaram em um lar caótico. Eles, desde o começo da sua origem, usufruíram da ordem, perfeição e beleza do domínio celestial de Deus. Essas características também foram pretendidas para a terra.

4. O salmista cantou da majestade do nome de Deus (Sl 8). Ele se referiu à "glória acima dos céus" que ele percebia enquanto refletia no "trabalho dos dedos de Deus". Ele cantou da abóbada celeste/céus declarando a glória de Deus, porquanto refletiam a habilidade, sabedoria e conhecimento de Deus (Sl 19). Por que o salmista cantou sobre isso? Ele observou quão maravilhosamente Deus havia criado, separado e formado o cosmos; e mais, ele observou não somente a beleza e potencial da luz, céu, água e terra, mas também quão bem organizada é a criação de Deus. Gênesis 1.3-2.25 revela, mesmo que por palavras não faladas, um número de aspectos que podemos agrupar sob a categoria de "organização".

Deus tinha um plano. Ele desejou se revelar de acordo com um plano que poderia, efetivamente, fazer conhecido o que ele, Deus, era e quais eram algumas de suas características. Conseqüentemente, como Kline menciona, pode ser dito que o cosmos criado foi feito à imagem de Deus. O cosmos reflete aspectos do ser e caráter de Deus. Por esta razão, o cosmos não é para ser considerado um produto de eventos fortuitos ou de forças naturais que se associaram por acidente ou coincidência.

O relato da criação registra que, de acordo com o plano, houve ordem no que foi feito. Primeiro a luz foi separada das trevas, então a atmosfera foi separada da "massa". Isso foi seguido pela separação da massa entre "mares" e terra seca. Uma vez tendo distinta sua existência, cada um foi capaz de assumir seu papel no cosmos. O relato detalhado da criação do homem (Gn 2.4-25) revela, particularmente, esta ordem. Deus havia preparado um jardim (Gn 2.8) que era bem apropriado para o homem; tinha água, comida, e riqueza (Gn 2.9-14). Ele fez Adão e o colocou no jardim entre as árvores e os animais; e fê-lo perceber que necessitava de uma "ajudadora apropriada" para cumprir os mandatos de cultivo, reprodução e comunhão. Deus, então, formou Eva, a quem Adão recebeu com alegria. Deus, deste modo, formou a família e, então, estabeleceu quais seriam suas condições para ela, depois que ela se tornou uma realidade para Adão e Eva.

Deus operou de acordo com seu plano que, enquanto revelava ordem, também revelava os relacionamentos que ele designou e estabeleceu. O "relacionamento de oposto" foi estabelecido quando a luz foi chamada à existência em distinção da escuridão. Um, portanto, não é conhecido sem o seu oposto. Além disso, o relacionamento entre as extensões de água e massas de terra foi estabelecido; sem terra, as várias extensões de água não existem; terra forma os limites dos mares. Entretanto, como Gênesis diz tão claro, sem água, a terra não pode produzir. Terra necessita de água para ser cultivável e produtiva. Água, por sua vez, necessita de terra, não somente para "margeá-la"; é da terra que vem muito do material alimentar que a vida marítima necessita. E, como o relato da criação prossegue revelando, vegetais, animais e vida humana são dependentes da terra que, por sua vez, não pode servi-los sem a água. Muito mais poderia ser dito sobre os relacionamentos que Deus estabeleceu enquanto criou e formou o cosmos. Dois fatores específicos a mais devem ser mencionados.

Deus, como Senhor Criador, ao separar e organizar o cosmos, deu papéis ou funções para cada aspecto constituinte. As funções do céu são diferentes das funções da água. A terra, que Adão e Eva, por mandato, deveriam cultivar e ter sob seu domínio, tem uma função distinta da função das plantas que ela deve sustentar. Estas funções ou papéis foram ordenados pelo Criador. Enquanto os vários elementos constituintes do universo assumem seus papéis e desempenham suas funções determinadas, o cosmos opera de acordo com o desejo e plano do seu Criador.

Finalmente, deveremos tomar nota dos modelos que o Criador teceu na formação do seu cosmos. Um termo melhor para modelo talvez seja lei. Os modelos no cosmos são inseparavelmente relacionados às leis que o Criador estabeleceu como fatores inerentes e integrais dentro do cosmos criado. A cada aspecto constituinte do cosmos foi dado um caráter ímpar. Cada parte, num sentido real, tornou-se o modelo para aquilo que era para ser produzido a partir dela. O peixe pai era o exemplo ou modelo para o peixe produzido por ele. Gênesis 1 fala de vários aspectos da criação que estão de acordo com a sua espécie. Por exemplo, os peixes estariam atuando de acordo com a sua natureza e papel. Eles teriam um modo de atuar. Isso é o que entendemos por lei. É a lei do peixe nadar na água, botar seus ovos que são chocados na água a fim de que peixes continuem a estar presentes, de acordo com a sua espécie. O modelo e lei para o peixe não mudará.

Entendemos, então, através de um estudo do relato da criação e consulta aos textos auxiliares, que as leis dentro do cosmos atuam dentro dos modelos que Deus ordenou. As funções de cada aspecto da criação foram prescritas por Deus e cada função estava em harmonia com as funções dos outros aspectos. Deus organizou o cosmos que ele criou e o fez refletir sua pessoa como um Deus de ordem.

5. Discutimos acima os aspectos da criação (i.e., trazer à existência), da separação e organização da atividade criadora de Deus. Estes nos são revelados com certa clareza em Gênesis 1.2-10, embora continuem evidentes enquanto o relato da criação continua (Gn 1.11-2.25). Disso, aprendemos mais especificamente o que foi referido na primeira parte. Deus, o Criador, designou; este termo nos comunica um grupo de ações tais como demarcar, especificar, nomear, designar e determinar. Temos nos referido a Deus demarcando os limites dos elementos constituintes dos mares e da terra. Então, também, existem referências a Deus especificando qual deveria ser a ordem do cosmos. O verbo que chama a atenção agora é wayyiqra'(chamou - Gn 1.5, 8, 10). Uma outra tradução poderia ser "ele nomeou". Deus nomeou, isto é, ele determinou o caráter da luz, da escuridão, do céu, do mar e da terra. Tendo criado e formado cada um destes, ele designou que deveriam ser conhecidos como sendo o que ele pretendeu que fossem e fizessem. Enquanto continuou a desenvolver seu cosmos criado, Deus fez outras designações. Ele determinou que a terra tivesse a função de produzir vegetação (Gn 1.11-13), que os mares abundassem de seres viventes e o céu, de pássaros. Estes fenômenos não aconteceram por acaso; eles não surgiram de eventos acidentais ou exercícios experimentais. É por determinação de Deus e pelo trabalho do Espírito que a terra sustenta a vegetação, as águas, e a vida marítima; e o céu, os pássaros.

A atividade de Deus registrada como acontecida no quarto dia tem levantado muita discussão (Gn 1.14-19). A atividade criadora de Deus é citada por uma variedade de verbos. Primeiro, vem o verbo yehi (haja). Deus, pelo fiat, trouxe o sol, a lua e as estrelas à existência. Seu papel é citado pelo verbo habdil (separar - Gn 1.14,18). Eles tiveram um papel com relação ao dia e à noite, mas  deviam, também, hayu le'otot (ser por sinais ou servir como sinais) para estações, dias e anos. Essa determinação foi seguida por uma outra, a de ser uma luz para a terra (Gn 1.15,17). O verbo lememselet (governar) é usado para designar, especificamente, qual seria a função do sol e da lua. Incluída no relato da origem dos luzeiros no céu está a referência às estrelas. Depois que foi dito que Deus wayya'as (fez) o sol e a lua, foi declarado que Deus também fez as estrelas (Gn 1.16). Um importante termo a mais deve ser considerado: wayyten (e ele deu). Este verbo pode ser entendido como "ele estabeleceu". Quando Deus deu ao sol e a lua as suas funções designadas, ele os colocou ou estabeleceu a posição deles.

No esforço de interpretar Gênesis 1.14-19, estudiosos geralmente não têm tido dificuldade em aceitar a visão de que Deus é nítida e claramente revelado como o soberano Construtor e Governador do cosmos. Ele é o Senhor do sol, lua e estrelas. Ele os fez, posicionou-os e designou suas funções. Isto tem sido citado como a verdade teológica que a passagem registra. As profundas diferenças, em opiniões, interpretações e aplicações do que a passagem ensina, têm sido centradas, na sua maioria, no aspecto "cronológico". Por exemplo, Deus criou a luz no primeiro dia e os luzeiros no quarto dia? Poderia a luz existir sem os sustentadores da luz?

As Escrituras ensinam que a luz não é dependente dos sustentadores de luz para a terra. Gênesis 1.14-19 não afirma que a luz foi criada no quarto dia. Antes, afirma três realidades centrais: (1) Deus é o Construtor dos corpos celestes; (2) Deus os colocou na posição que ocupam em relação à terra; (3) Deus lhes deu funções específicas: separar a luz das trevas e regular períodos de tempo para a terra. Parece correto dizer que esta passagem não pretende dar ênfase à cronologia. No entanto, existe esta verdade a ser considerada. Deus tinha um plano; ele trabalhou de acordo com esse plano. Ele organizou e desempenhou seu trabalho de uma forma ordenada. Deste modo, é possível que, ainda que o sol, a lua e as estrelas tenham sido criados antes do quarto dia e separados da atmosfera, água e terra, os corpos celestes não tivessem sido arranjados e suas posições dadas uma em relação a outra até ao quarto dia. Quando se considera que no terceiro dia o solo do planeta Terra foi separado da água, não parece nada estranho considerar que quando a terra recebeu sua forma final (de ar, terra e água), só então os sustentadores de luz foram posicionados e suas funções atribuídas para que a terra pudesse suportar vegetação; os mares, vida aquática; e o céu, as aves. Deus criou os corpos celestes; fez isso de acordo com um plano; seguiu seu modelo para criação, e embutiu suas leis para controlar as funções de cada aspecto da sua obra. Deus fez isso ordenada, eficiente, e efetivamente. Seu majestoso reino cósmico de tremenda magnitude, que está, em vários sentidos, acima da compreensão humana, é o maravilhoso produto de seu desejo, plano, ordem e poder soberano.

O aspecto designativo da atividade criadora de Deus deve ser visto no que Deus mandou a água fazer: tinha que se povoar de vida. Deus designou as águas para serem o ambiente adequado para os peixes e criaturas viventes relacionadas. O céu foi designado para ser o ambiente dos seres alados (Gn 1.20-23). Deus se dirigiu à terra, como tinha feito antes (Gn 1.11), e a designou para ser o lar dos animais domésticos, rastejantes e animais selvagens (Gn 1.24). Deus, criando macho e fêmea humanos à sua imagem, os designou para serem seus vice-gerentes e executarem mandatos específicos. Um outro aspecto específico do trabalho designativo de Deus diz respeito à continuidade de todas as formas de vida. Ele determinou que cada aspecto fosse frutífero e reproduzisse segundo à sua espécie.

6. O cosmos que Deus criou, como já dissemos antes, consiste de luz, céu (ar, atmosfera), água e terra. Cientistas, estudando os céus e o trabalho artesanal de Deus, têm aprendido que a matéria de que consiste o ar, a água e a terra, é composta de pouco mais de 100 elementos químicos. Cada um destes elementos difere no tamanho e número de átomos. Combinações destes elementos formam a grande variedade de substâncias que as pessoas vêem, usam ou evitam diariamente. Os processos pelos quais os elementos são combinados e os resultados de várias combinações têm contribuído para as maravilhas e o enriquecimento do cosmos como nós, seres humanos, o experimentamos. Mas, em meio a todos os elementos, suas combinações e processos, nenhum ser humano já foi capaz de descobrir como a vida veio a existir. Em boa parte, homens e mulheres têm aprendido como controlar e dirigir a vida. O que não sabem é como produzi-la ou fazê-la parar de morrer. De fato, de várias maneiras, o curso da vida já foi prolongado, as formas de vida no mundo vegetal foram variadas. Só Deus fez a vida e, quando ele pede seu fim, ninguém ou nada pode impedir que isso aconteça.

    A atividade de Deus, produtora de vida, é registrada como tendo acontecido de várias formas e em tempos diferentes na ordem da criação. Em cada caso, somos confrontados por uma realidade de vida que, ao mesmo tempo, é um mistério acima da compreensão humana.

O primeiro mistério das origens da vida é registrado em Gênesis 1.11-12. Deus ordenou que a vegetação aparecesse na terra. A vegetação é uma forma de vida, e surgiu como um produto da terra. Formas de vida surgiram de uma combinação de elementos de uma substância morta chamada terra. Este milagre não foi mais realizado desde o tempo da criação.

O segundo grande mistério da origem da vida é registrado em Gênesis 1.20-21. Deus ordenou ao mar que se tornasse repleto de vida adaptada à água; e ao céu, de pássaros para voarem nele. Isso aconteceu, mas é dito que Deus wayyibra' (criou) as criaturas viventes, todas as coisas que se moviam na água e no céu. A vida que estes seres viventes possuíam foi trazida à existência por um ato de criação ex nihilo. Vida, em qualquer forma, não é o resultado de combinações e processos. É, antes, o resultado do desejo de Deus de criar através da sua vontade soberana, da palavra e do Espírito cooperador.

O terceiro mistério concernente à vida é sua continuidade. Vida vegetal, de várias espécies, foi criada para gerar semente, na qual estava o âmago da vida para o surgimento da vegetação, estação após estação. Plantas produzirem sementes geradoras de vida é um milagre. É um mistério que nenhum ser humano pode compreender ou duplicar. Somado ao mistério da vida em semente, está a maravilha do número incontável de variações de semente. E cada semente reproduzirá o que seu progenitor era. É verdade que os humanos têm sido capazes de combinar e refinar alguns aspectos da vida que vêm da semente. Temos uma sempre crescente variedade entre as espécies de vida vegetal. Mas, a vida propriamente dita foi sempre produzida somente por Deus e continua a existir de acordo com os modelos e leis que ele embutiu dentro do cosmos.

O quarto mistério concernente à origem e continuidade da vida é o maior de todos. Foi a criação de Adão e Eva à imagem de Deus (Gn 1.26-28). Um mistério correlato ao da vida é a habilidade reprodutiva que Deus deu ao macho e à fêmea. Este grande mistério da vida será discutido de modo mais completo no capítulo três, quando Gênesis 1.26-2.25 será trabalhado mais detalhadamente.[Esta matéria será parte de nossa próxima aula - Prof. Mauro]


9. Aula 7: Os Vice-gerentes da Criação

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 7: Os Vice-gerentes da Criação

Introdução

Já afirmamos anteriormente que o relato de Gênesis é fundamental para a compreensão das Escrituras. Sem o entendimento correto do relato da criação teremos problemas em compreender aspectos fundamentais da nossa fé, até mesmo o aspecto da redenção. Não é parte de nosso pressuposto que a Bíblia seja um livro exclusivamente sobre redenção, como muitos pensam. A Bíblia trata de muito mais do que isto. A redenção é um meio para se chegar a um fim (que Van Groningen chama de consumação). Por isto mesmo, entender a criação do homem e mulher, sua posição, status e papel no reino cósmico é algo fundamental para a compreensão do projeto da consumação de Deus - levar-nos ao seu descanso, como no sétimo dia da criação e a promessa feita na epístola aos Hebreus. [Sobre este assunto, ler os artigos de Fides Reformata - O “Sábado” no Antigo Testamento: Tempo para o Senhor, Tempo de Alegria Nele, parte 1 e 2]

 Nossa aula vai se concentrar na condição do homem criado no Éden e na sua condição de homem expulso do Éden.

Criados Após Deliberação

As passagens das Escrituras que devem ser consideradas no estudo da origem do homem e da mulher são Gênesis 1.26-30 e 2.7-25. Estas passagens são consideradas como base e fonte de numerosas outras passagens nas Escrituras que se referem à origem dos vice-gerentes de Deus. Gênesis 5.1, 6.7 e 9.6 falam da criação da humanidade. Moisés, enfatizando aos israelistas que só Deus é Deus e Senhor, referiu-se ao dia em que Deus criou o homem na terra (Dt 4.32). Davi cantou sobre Deus ter feito o homem e o colocado na mais alta posição real na criação (Sl 8). O escritor de Eclesiastes chama jovens, homens e mulheres, para se lembrarem de seu Criador (Ec 12.1). Isaías se refere repetidamente à criação de Deus da humanidade (Is 43.7,15; 45.12; 54.16). O profeta pós-exílico Malaquias exortou o remanescente de Israel a lembrar-se de que todos nós temos um Pai; um Deus nos criou (Ml 2.10). Paulo escreveu sobre Deus, o Criador dos seres humanos (Rm 1.20, 25), e observou que eles foram criados à imagem de Deus (Ef 4.24; Cl 3.10). O testemunho das Escrituras é claro. Deus criou o homem e a mulher, Adão e Eva.

Quando consideramos o relato da criação de Adão e Eva, a questão da conexão entre os dois relatos está diante de nós mais uma vez. Não vamos considerá-los como dois relatos da criação surgidos de fontes distintamente separadas. Antes, considere-se o relato dado em Gn 2.7-25 uma explicação mais completa da criação de Adão e Eva do que aquela dada em Gn 1.26-30. Este segundo relato não é considerado como relato cronológico; antes, enfatiza alguns aspectos ímpares da criação de Adão e Eva e, assim, indica que o homem e a mulher são aspectos centrais e altamente importantes da criação. São tidos como dignos de consideração especial e necessária por causa do seu status real.

Deveremos permanecer alertas às diferenças de entendimento e crenças com relação à origem da humanidade [a saber, teorias evolucionistas e outras cosmogonias]. Estas diferenças não surgiram tanto da possibilidade de interpretações variadas do texto bíblico como das visões que surgiram da consideração de outras fontes que não as Escrituras. Estas outras visões motivaram a busca de outros modos de se interpretar as Escrituras.

O exegeta bíblico e teólogo tem o dever de considerar o que os estudiosos que enfocam a revelação geral de Deus na criação têm a oferecer. Estes estudiosos, no entanto, nos apresentam um cenário confuso. Pelo menos quatro escolas de idéias diferentes estão incluídas aqui.

1. A escola evolucionista naturalista, representada por cientistas como Dobzhansky, foi clara e corajosamente apresentada recentemente, de uma maneira científica popular, na edição centenária da National Geographic.
2. A escola evolucionista teísta sustenta que Deus fez o cosmos vir a ser e, então, usou um desenvolvimento evolucionário através de um período de milhões de anos, durante o qual o Homosapiens teve seus estágios iniciais de existência. Lever, Davis, Menninga e Van Till representam esta escola [ver também Gleason Archer, Merece Confiança o Velho Testamento? (São Paulo: Vida Nova].
3. A escola criacionista progressiva enfatiza a criação de várias formas de vida mas também considera que longos períodos de desenvolvimento progressivo ocorreram entre estes atos de criação. Pattle Pun apoia essa corrente. Variações de ênfase são comuns entre estudiosos desta escola.
4. A escola criacionista, que representa estudiosos como Aalders e E. J. Young, enfatiza as atividades criadoras de Deus reveladas nas Escrituras, mas dá pouca atenção ao que os estudiosos têm escrito no campo científico,. Os cientistas criacionistas, que devem também ser incluídos nessa escola, dão bastante consideração ao trabalho dos cientistas mas usam vários dados científicos para sustentar uma posição criacionista rigorosa.

Ao estudar e se avaliar as posições dos adeptos das três últimas escolas, ainda que de maneira geral, um exegeta bíblico e teólogo pode encontrar material em cada um que deve ser considerado seriamente. Será que estas escolas são tão mutuamente contraditórias como alegam os adeptos, especialmente das escolas 2 e 4? [Nossa posição, conforme a Aula 8 do curso de Interpretação, assume uma posição que não é considerada por Van Groningen, o Criacionismo Histórico – prof. Mauro]

Os Verbos no Texto Bíblico

Nesta seção, a intenção é estudar os conceitos que expressam o que Deus fez ao originar e trazer à existência Adão e Eva, os progenitores da raça humana. A Parte I é intitulada "Criados após Deliberação". Este título foi escolhido porque dá a perspectiva do texto.

Gênesis 1.26 começa com wayyo'mer elohîm na'aseh (e Deus disse, façamos). Aalders corretamente chamou a atenção para os verbos: 'amar (ele disse) indica que Deus mesmo falou; fazendo isto, Deus tanto revelou sua vontade como também a exercitou. Então, através da divina comunicação, através do falar de Deus, a humanidade veio à existência. Este falar de Deus não deve ser entendido como inicialmente dirigido a Adão e Eva. Deus falou para si mesmo. O autor de Gênesis 1-2 foi capaz de registrar o fato porque lhe foi tornado conhecido. A criação de Adão e Eva foi iniciada através de Deus falar sua intenção. A origem do homem originou com Deus mesmo, quando ele expressou o que tinha em mente.

O verbo na'aseh (façamos) pede atenção novamente. Esta forma verbal pode ser considerada como evidência da personalidade triúna de Deus. Ele é um Deus de mistério. Não é um ser simples; antes, ele se revelou como um ser complexo. Levando em consideração Gênesis 1.2, devemos estar abertos à idéia de que Deus existe como uma deidade pessoal plural. O sufixo pronominal da primeira pessoa do plural é usado quando ele falou de "nossa" imagem e "nossa" semelhança. O texto poderia ser considerado confuso quando se nota que o sufixo pronominal da terceira pessoa do singular é usado no verso 27 (sua imagem). Além disso, os verbos, com exceção de "fazer", no contexto imediato, têm uma indicação singular deste sujeito, (os verbos "criar", v. 27, "abençoou" e "disse" nos vs. 28-29). Um único Deus é colocado diante de nós, o qual, todavia, podia referir-se e referiu-se mesmo a si próprio na forma plural do verbo e pronome pessoal.

Um outro fator na frase "façamos" pede atenção. A forma do verbo é a primeira pessoa do qal imperfeito. Esta forma pode ser traduzida como um futuro simples (nós faremos). Se entendido assim, o texto está registrando um anúncio de Deus. Mas, se é um anúncio, a quem foi feito? Tem sido sugerido que Deus fez o anúncio à sua corte de anjos. Mas, desde que não existe evidência de que os anjos estavam presentes, muito menos do seu envolvimento na criação de Adão e Eva, esta visão não tem suporte. O verbo, na sua forma da primeira pessoa do plural do imperfeito, pode ser considerado um coortativo. Deus, sendo um único ser, porém com uma aspecto pessoal plural, falou a si mesmo. Wenham escreveu que paralelos disso nas Escrituras são raros. Esta raridade, no entanto, pode ser entendida devido à singularidade do que foi falado, a saber, a criação da humanidade. Além disso, por algo aparecer raramente, não fica impedido seu uso, particularmente quando é significativo no contexto no qual aparece; aqui este é o caso.

O verbo asâ (comumente traduzido como "fazer") aparece várias vezes (Gn 1.16, luzeiros e estrelas; 1.25, animais selváticos; 1.31, tudo). Ele é usado no sentido em que fica sinônimo do verbo bara' (criar). Enquanto que o verbo asâ pode ser entendido como "fazer", "produzir", "oferecer (fazer) um sacrifício", "realizar", no contexto de Gênesis 1.26-28, quando aparece como sinônimo de "criar" deve ser entendido como uma referência a Deus fazer, no sentido de trazer à existência o que não estava presente anteriormente. O termo pode ser entendido, portanto, no sentido de que Deus disse intimamente e para si mesmo, "Chamemos à existência o que não estava presente anteriormente". Uma parte integral e um aspecto totalmente novo dentro de todo o cosmos criado veio à existência através da ação divina.

A forma coortativa do verbo traz diante de nós outra vez a intenção expressa de Deus. Foi com intenção premeditada e expressa que Deus procedeu em trazer a humanidade à existência. Adão e Eva foram criados intencionalmente, de acordo com a vontade e plano expressos de Deus. A origem da humanidade não é, de acordo com nosso texto, o resultado de acontecimentos fortuitos que ocorreram através de eras prolongadas de tempo.

O verbo weyirdû (Gn 1.26) pede uma consideração cuidadosa. Tradutores têm mostrado esta terceira pessoa da forma qal imperfeito como sendo entendida de várias formas. Alguns têm optado por um futuro simples--"e eles terão domínio". Esta tradução não indica uma conexão íntima entre o fazer do homem à imagem e semelhança de Deus, e o domínio que ele deverá ter e exercitar. Outros têm traduzido o verbo como um jussivo--"tenha ele domínio" (RA, RC e várias versões inglesas). Esta tradução indica que existe uma conexão íntima entre ser feito à imagem e semelhança de Deus e ter domínio. Gerhard Von Rad comentou isso da seguinte forma: "Esta comissão de governar não é considerada como pertencente à definição da imagem de Deus, mas é uma das consequências dela, i.e., que o homem é capaz disto, por causa da imagem de Deus." Gerhard Aalders declarou que o domínio dado ao homem flui da criação do homem à imagem de Deus. Outros têm traduzido o verbo como expressando propósito; isto é, Deus criou o homem à sua imagem com um propósito definido em mente: dar ao homem uma tarefa e status de realeza, a saber, criou-o para exercitar o governo ou senhorio sobre a criação. Esta visão traz o domínio do homem para dentro da definição da imagem de Deus, isto é, Deus, ao criar o homem à sua imagem, o fez real. Esta verdade é inteiramente consonante com o conceito bíblico que, ao criar o cosmos, Deus criou seu reino cósmico.

Depois de relatar o que Deus deliberou fazer, a saber, criar seus representantes reais, o texto informa ao leitor que Deus fez isto. O verso 27 repete o verbo bara' (criar) três vezes. Este verbo refere-se a Deus exercer seu poder soberano para trazer à existência, ao seu comando, o que não era existente. A tríplice repetição do verbo enfatiza a singularidade absoluta da humanidade que existe como seres humanos machos e fêmeas.

O próximo verbo a ser considerado é wayebarek (e ele abençoou) em Gênesis 1.28. A forma do verbo é a terceira pessoa singular do qal com waw consecutivo imperfeito. Enfatiza continuidade. Depois da criação do macho e fêmea humanos, Deus abençoou ótam (-os). Que as atividades divinas de criar e abençoar são intimamente relacionadas, não está em questão. Diferenças em visões com relação ao significado preciso e intenção do termo barak (abençoar) são evidentes. Quando Deus abençoou o macho e a fêmea, ele pronunciou uma bênção sobre eles? Foi essa bênção uma de capacitação para realizarem certos requerimentos? Ou esta bênção pretendeu incluir a expressão daquilo que Deus não só os tinha capacitado a fazer, como o que tinha mandado realizarem de acordo com a vontade dele? Esta última parece ser, certamente, o caso. Tendo criado o homem à sua imagem e semelhança a fim de que governasse, Deus prosseguiu para assegurar a humanidade que ela era capaz de fazer o que ele expressamente declarou: ser frutífera, encher a terra, sujeitá-la e governar sobre todas as formas de vida. Um paralelismo no texto apoia esta idéia. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança para o propósito de governar; Deus abençoou o macho e a fêmea a fim de que lhes fosse assegurado que eles poderiam realizar os propósitos para os quais foram trazidos ao reino cósmico como seres reais. Deste modo, como "governar" no verso 26 claramente declara um mandato, da mesma forma, no verso 28, o mandato é detalhado.

O verso 29 coloca diante de nós outro termo que expressa o que Deus fez quando criou a humanidade. Deus disse natattî (eu dou). Este verbo nos revela qual era o plano de Deus com relação à provisão para a nutrição. Parte do que os humanos, macho e fêmea, deviam governar, era para ser usado por eles mesmos. O senhorio deles sobre a criação foi afirmado quando foram instruídos a usá-la em benefício próprio.

O status, lugar e papel do macho e fêmea humanos dentro do reino cósmico criado são revelados. Deus soberanamente os (os) planejou e os estabeleceu conforme seu plano. Em Gênesis 2, é-nos dada a descrição ampliada de alguns aspectos das atividades criadoras de Deus com relação à humanidade. O sujeito é predominantemente o macho humano, mas à origem e ao papel da fêmea humana também são dados atenção específica. Por causa da concentração em Gênesis 2 no par humano, as ênfases do capítulo têm sido citadas como antropocêntricas. Não é bem esse o caso porque, como em Gênesis 1, a concentração dominante está no que Deus fez quando ele criou o homem e a mulher e os colocou dentro do seu reino cósmico e deu-lhes seus mandatos. Uma consideração das atividades registradas nos dará base para esta conclusão.

Gênesis 2.7 começa com wayyîser yehwâ 'elohîm (e Deus Yahweh formou). Os dois versos precedentes consistem de uma descrição parentética da criação incompleta. O verso 7 introduz a ampliação do relato da criação de Deus do homem. O termo "criou" não é mencionado; dois verbos explicam o que Deus fez quando ele criou o homem. O verbo yasar pode comunicar a idéia de compor, projetar ou planejar com a mente. O termo é usado referindo-se a oleiros ou a entalhadores. Mais freqüentemente, no entanto, o termo é usado para Deus. Gênesis 1 registrou que Deus chamou à existência as aves (v. 20b) e bestas (v. 24); Gênesis 2.19 prossegue registrando que estes vieram à existência porque Deus os formou da terra. Formas de vida totalmente novas apareceram como resultado da ação divina de formar, usando ha'adamâ (o solo ou a terra). Isaías usou o termo para se referir a Deus gerando a Israel como um povo nacional (Is 27.11; 43.1, 21; 44.21; 45.9, 11; 64.8) e a um embrião no ventre [“formei”] (Is 43.7; ver também Jr 1.5). A idéia é que a "matéria-prima" era existente, a qual, por conta própria, não poderia mudar ou transformar-se. Aquilo que é completamente novo apareceu por causa da atividade realizada com o que estava à mão. Gênesis 2.7 nos informa que Deus criou o homem formando-o, usando o aphar (pó) da terra. Pó é sem forma e sem vida. Deus tomou um pouco do pó e formou um ser humano, o qual era sem vida. Vida veio a ele quando wayyipah (terceira pessoa do qal imperfeito de napâh, respirar ou soprar). Deus soprou nas narinas do homem o fôlego da vida. Isto transformou a forma sem vida em um ser vivente. Através desta atividade divina dupla, o homem se tornou uma criação singular. Ele teve uma relação direta com Deus; ele viveu porque Deus, diretamente, infundiu nele o fôlego da vida. Por essa maneira misteriosa, cientificamente inexplicável, Deus trouxe os portadores de imagem e semelhança dele à existência. Um milagre da maior dimensão foi realizado. Um ser real foi trazido à existência, da terra que ele deveria governar, desenvolver e assim, dela viver; ao ser real foi dado o status e potencial para ser um agente real em nome de Deus porque Deus mesmo lhe soprou o fôlego de vida e, desse modo, o formou à sua imagem e semelhança.

O relato de Gênesis 2 prossegue para informar o leitor de que Deus wayyitta' (terceira pessoa singular do qal imperfeito de nata, plantar) um jardim (v.8) e wayyasem (terceira pessoa do qal imperfeito de sim, colocar) o homem, que ele tinha formado, nele. Em Gn 2.15, lemos o termo wayyannihehû (e ele o fez descansar lá). Cassuto corretamente mostrou que este termo deveria ser considerado sinônimo de sim (colocar). Que o Éden era um lugar de descanso não deverá ser ignorado, mas a idéia de descanso não deve ser lida no contexto aqui. No jardim foram dadas ao homem suas instruções e foi dada sua ézer (ajudadora) que Deus resolveu 'e'eseh (primeira pessoa singular do qal imperfeito de asâ, (fazer). A forma do verbo é coortativa, expressando a intenção de Deus como em Gênesis 1.26. O termo usado, no entanto, para descrever o que Deus fez, é wayyiben (terceira pessoa singular do qal imperfeito de banâ, construir) (Gn 2.22). A ajudadora foi construída por Deus que tomou uma costela do macho. O verbo deverá ser tomado para significar o que o verbo "formar" comunica em Gn 2.7. Deus tomou o que, por conta própria, não se poderia formar em um outro ser humano. Deus realizou outro milagre de criação e, fazendo assim, indicou uma conexão singular e mais intimamente relacionada entre Adão e sua ajudadora. Eles eram da mesma carne e sangue mas também diferentes em sua origem porque Deus usou, não mais um pouco de pó, mas uma parte do que tinha formado antes como seu agente real.

Afirmações Teológicas

1. O registro bíblico da origem do homem e da mulher é completamente teocêntrico. Deus é a pessoa central. O registro nos informa sobre Deus como o Criador da humanidade.
2. Deus planejou a criação do homem e da mulher. Ele deliberou intimamente no seu ser misterioso e declarou sua intenção. A humanidade não é o produto de combinações fortuitas de fatores, nem o resultado da sobrevivência e formação dos entes mais fortes e capazes competindo por domínio.
3. Deus tinha um propósito predeterminado para a humanidade. Ela deveria ter um papel superior, uma influência dominante e um serviço responsável. Homem e mulher deveriam ser governadores sobre a criação natural; deveriam ser os representantes reais dentro do reino cósmico.
4. Deus fez sua obra criadora de acordo com seu plano e propósito. De acordo com o texto, Deus estava diretamente envolvido na verdadeira formação, modelagem, doação de vida, e colocação do homem e da mulher dentro do reino cósmico criado. É muito difícil, de fato quase impossível, conceber, a partir do texto, que Deus tenha iniciado e mantido vigilância sobre um processo de uma duração extremamente longa. O texto comunica o pensamento de uma origem sobrenatural e milagrosa da humanidade dentro de um intervalo limitado de tempo.
5. Deus criou o homem e a mulher de tal modo que seu relacionamento com o reino cósmico era de integralidade inerente. Eles eram parte da criação e, conseqüentemente, estavam envolvidos diretamente na sua existência contínua, desenvolvimento e embelezamento. Mas eles também foram criados de tal modo que eram mais do que meras criaturas de pó com o fôlego da vida que lhes foi dado. Eles foram criados em relação a Deus. Um vínculo de vida e amor entre Deus e a humanidade foi estabelecido quando surgiram de Deus, de forma singular.
6. Finalmente, a humanidade não foi planejada, criada, e não ganhou um lugar e papel na criação, a fim de que pessoas pudessem ser redimidas. Antes, a criação foi para o exercício das prerrogativas e responsabilidades reais que trariam à mais alta e completa extensão a majestade, grandiosidade e glória de Deus e, correlativamente a isso, à total realização da honra, alegria e paz para a humanidade. O texto é bem definido: Deus viu tudo o que ele tinha feito e era muito bom. Todos os aspectos satisfizeram seu ideal, todos os fatores foram feitos, equipados e capazes de trazer o plano de Deus a uma realização total.

Um breve exercício mental: depois de ler e estudar sobre o papel do ser humano na criação, faça uma leitura atenciosa do Salmo 8. Se quiser faça seus comentários no fórum! Nessa aula não temos leituras.


10. Aula 8: A queda

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 8: A Queda

Esta é a nossa aula com o texto mais longo, uma adaptação do capítulo 5 de From Creation to Consumation. Leia a aula cuidadosamente, absorvendo o conteúdo e fazendo anotações. Coloquei no final da aula um rápido esboço. Siga-o a medida em que fizer a leitura e anote o pontos principais de cada parte. Boa aula!

Nesta aula, a atenção será focada em Gênesis 2.8-3.7 e na queda. O termo "queda" é a forma tradicional de se referir à tragédia que aconteceu no Éden. Queda, no entanto, não é um termo bíblico. Nas Escrituras, quando uma referência é feita ao que Adão e Eva fizeram e o que aconteceu, os termos usados são abar berît (quebra do pacto), 'amartia (pecado), thanatos (morte),paraptomati (transgressão) (Rm 5.12, 15; 1 Co 15.21).

Uma referência deve ser feita ao caráter histórico das pessoas e eventos citados nesta passagem. Aludimos, anteriormente, ao fato de que não temos a opção de considerar Gênesis 2 como um poema artístico com símbolos e ilustrações imaginárias ou como um credo. O mesmo deve ser dito de Gênesis 3.1-7. O próprio texto, assim como o resto das Escrituras, não dá evidências para estas opções. A passagem sob consideração não é mitológica; nem inclui elementos mitológicos. Não há como negar que ainda existiam no segundo século a.C, entre as nações do Oriente Próximo, estórias mitológicas ou épicos que falavam em origens cósmicas, atividades do mal e de um dilúvio. Não é aceitável, porém, dizer que Moisés dependeu destes para obter informações, temas e elementos literários. As diferenças em caráter histórico, meios literários de expressão e verdades teológicas são tamanhas que qualquer pessoa, comparando os relatos bíblicos e não bíblicos, compreende, de imediato e conclusivamente, a superioridade e singularidade do relato bíblico. A única conclusão que pode ser tirada é de que se existe uma relação, é a da fonte comum da qual a não bíblica tirou e alterou grosseiramente o original por razões cosmológicas, religiosas ou sociais.

Adão e Eva no Éden

O texto bíblico é específico quanto à origem do Éden: wayyitta yehwâ elohîm gan-be eden miggedem (Deus Yahweh plantou um jardim no Éden, ao leste). O lugar citado é considerado como sendo o Vale Mesopotâmico entre as partes mais baixas dos rios Tigre e Eufrates. Mais importante do que o lugar exato é o que se segue: wayyasem sam 'et-ha 'adam (e lá ele colocou o homem). O homem que o Deus Yahweh havia formado foi colocado no seu lugar no cosmos. O jardim era bem estabelecido; tinha todos os tipos de árvores para que Adão tivesse comida (Gn 1.29; 2.16). Tinha abundância de água (quatro nascentes). Era bem suprido de recursos minerais (Gn 2.12). Era um lugar de beleza (Gn 2.9).

O jardim do Éden era o lar do homem; visto que ele era uma pessoa real, portador da imagem de Deus e vice-gerente pactual, o jardim era seu palácio e pátio real. Era o lugar em que o homem deveria cumprir o seu mandato cultural (Gn 2.15); que ele fez isto é evidenciado pelo fato de ter dado nome aos animais de acordo com a natureza deles. O Éden foi o domínio real do homem, era seu reino. Este palácio e reino deveria ser também o lugar de comunhão com Yahweh e com a ajudadora que Yahweh lhe havia dado. Era para ser um local espiritual e social. Era o lugar onde o casamento e a vida familiar chegariam a uma expressão rica. De fato, era o cenário para uma vida pactual enriquecedora e completa.

O jardim do Éden era, também, o lugar do conhecimento e da vida. Estes dois aspectos foram representados pelas duas árvores que Yahweh destacou. A árvore da vida, plantada no meio do jardim (Gn 2.9), compreende-se como tendo tido uma função sacramental. Adão e Eva não foram proibidos de comer dela Inicialmente. Uma vez tendo desobedecido, foram proibidos porque tinham perdido o direito de participar do "símbolo sacramental", a árvore que falava da vida contínua em todos os aspectos e lhes dava segurança a respeito desta vida. A árvore ter este papel indicava que o homem e a mulher eram finitos; eles não possuíam vida e não foram assegurados da continuação dela em termos da essência independente de seu próprio ser, potencial e desejo. Eles eram dependentes de Deus Yahweh que, tendo os criado, deu-lhes a vida (Gn 2.7) e continuaria a ser sua fonte constante de vida. É interessante notar que "a árvore" é citada nas Escrituras como símbolo de vida, e em algumas circunstâncias, a garantia da vida (Sl 1.3; 52.8; 92.12; 128.3 [videira frutífera]; Pv 3.18; 11.30; Jr 11.16; 17.8; Dn 4.10; Ap 2.7; 22.2, 14,19). Comer da árvore é participar e ter a garantia da vida sem fim.

O jardim era o lugar do conhecimento. A árvore é citada como ez hadda'at (a árvore do conhecimento). O verbo yada (saber) traz várias nuanças específicas: conhecimento racional, consciência geral, conhecimento empírico, conhecimento de outros através da comunhão e do saber pessoal íntimo como quando o macho e a fêmea se unem sexualmente. Todas estas nuanças estavam, indubitavelmente, presentes no jardim. Quando se fala da árvore como "do conhecimento do bem e do mal", geralmente se entende que a referência não é à consciência geral de vários conceitos. O homem era ciente do que era bom; de fato, ele experimentava isto diariamente.Um fator essencial a ser compreendido é o fato desta árvore, cujo fruto foi proibido, ter representado a determinação expressa de Yahweh para o homem e a mulher. Eles foram feitos cientes da verdade de que Yahweh, exercitando sua soberania, lhes impôs limitações. Isso significava que existiam experiências e aquisições possíveis em que a humanidade não deveria estar envolvida ou das quais não se deveria apoderar. Deste modo, Deus Yahweh estabeleceu um limite para as experiências de vida dos seus vice-gerentes. Eles, conhecendo e gozando da bondade que era deles no Éden, não deveriam, em orgulho e auto-engrandecimento, desejar e procurar alcançar mais do que aquilo que lhes havia sido dado. Desejar, procurar alcançar e tomar o proibido resultaria em um esforço para ser como Deus (Gn 3.22). Isto, por sua vez, resultaria em alienação, separação, destruição e morte. Yahweh, que sabia, não empiricamente mas objetivamente como o conhecedor de todas as coisas, o que era a morte, advertiu ao homem e à mulher da certeza dela, caso eles desejassem, buscassem e tomassem o proibido.

A esta altura, devemos considerar a pergunta que freqüentemente é feita: Existia morte no Éden antes da queda? Meredith Kline entendia que já antes da queda a humanidade podia matar e matou vida animal, e que alguns animais comiam outros. Quando Deus Yahweh advertiu ao homem e à mulher sobre as conseqüências de se comer da árvore proibida, dizendo que eles poderiam morrer, eles devem ter tido uma consciência do que Deus quis dizer quando disse "morrer". "Morte", no sentido de separação, fim de um processo, e deterioração, foi experimentada no jardim. O sol e a lua funcionavam como controladores das estações; o homem e a mulher podiam comer frutos e sementes. Estes fatores, certamente, implicam em que as árvores e a vegetação seguiam ciclos de crescimento. Eles produziam flores cujas pétalas caiam (separavam); seus frutos amadureciam e eram colhidos ou caiam (separavam); quando o fruto era comido, o processo digestivo causava deterioração. O próprio processo de vida envolvia separação no fim de um ciclo de crescimento; comer significava "consumir o que era"; a deterioração era necessária para que as pessoas e os animais pudessem viver. Prosseguir, no entanto, e dizer que o sangue, portador e personificação da vida (Lv 17.11), foi vertido é dizer mais do que o texto bíblico autoriza. Mas a possibilidade deste derramamento do sangue da vida, a separação do sangue, fôlego, e carne (morte física), o distanciamento de pessoas, a quebra da comunhão, a cessação do processo da vida e exercício do amor foram enfatizados: kî beyom 'akaleka mimmennû môt tamût (porque, no dia em que dela comeres - morrer, tu morrerás). Foi uma declaração de certeza absoluta.

Adão e Eva no Éden eram vice-gerentes pactuais. Eles tinham grandes privilégios vivendo e servindo na "casa do trono e domínio real" de Deus Yahweh. Mas eles não deveriam ser como Deus, ou desejar e buscar ser "deuses". Yahweh colocou limitações sobre eles e diante deles. Este fato era da própria essência de um pacto feito unilateralmente por um Mestre soberano. Adão e Eva eram limitados no uso dos frutos do jardim; eles receberam parâmetros para a sua comunhão com Yahweh. Eles receberam instruções a respeito da vida familiar e social; o homem deixaria seus pais, quebraria aquela ligação íntima a fim de apegar-se intimamente à sua esposa. O homem seria uma só carne com uma mulher para toda sua vida. Mais, o homem foi feito ciente de que a companheira, ajudadora, a parceira geradora de vida, não poderia ser tomada do mundo animal (Gn 2.20).

Os vice-gerentes, em comunhão e serviço pactual com Yahweh, receberam a oportunidade de responder a seu Senhor de maneira tal que pudessem exercitar a liberdade dentro das limitações estabelecidas, demonstrar suas prerrogativas e potencialidades reais dentro das diretrizes recebidas, e gozar da bondade (bem- aventurança) e paz que a vida edênica e o serviço ofereciam. Este não foi um período de experiência; o homem e a mulher foram convocados e receberam a oportunidade de ser o que Yahweh os tinha feito para ser. Não existia um pacto de obras, um arranjo pelo qual o homem e a mulher se tornariam meritórios pelo fazer ou trabalhar. Eles não tinham nada para merecer; pela bondade de Deus eles eram seu povo pactual, membros de sua família real, dotados com potenciais e possibilidades de ser agentes efetivos e produtivos no reino cósmico que estava para revelar-se de várias formas, constantemente enriquecedoras. Esta revelação aconteceria à medida que Deus Yahweh a dirigia e os vice-gerentes cooperavam cumprindo seu mandato pactual tríplice. [Aqui, Van Groningen, assim como Robertson, contradizem a terminologia da Confissão de Fé de Westminster. Minha posição não é contra a CFW. Em meu artigo sobre o pacto proponho a leitura do Pacto de Obras como parte do Pacto da Criação, harmonizando a leitura. É importante lembrar que dentro da tradição reformada existem diferentes posições, sendo a CFW uma delas – Prof. Mauro]

Adão e Eva eram os representantes pactuais de Yahweh. Como vice-gerentes, eles representavam seu Rei soberano no seu reino cósmico. Seu status, prerrogativas, responsabilidades e bênçãos eram tais que eles, de fato, ocupavam a mais alta posição e recebiam privilégios reais como nenhum outro ente criado. Eles receberam responsabilidades sobre cada faceta da vida. Eles deveriam governar com Yahweh sobre tudo o que tinha sido criado. De fato, eles estavam na mais alta posição possível no reino cósmico de Yahweh. Todos os aspectos da criação, todas as leis e todas as funções, conforme ordenado e estabelecido por Deus Yahweh, estavam no lugar. Adão e Eva foram designados, não para serem co-criadores, mas vice-gerentes com Yahweh. Deste modo, Deus preparou e iniciou o processo de revelar seus desígnios maravilhosos para o reino cósmico e dentro dele. Deus estabeleceu e iniciou o processo da história.

Satanás e o Mal

O texto bíblico oferece pouca informação sobre a origem de Satanás e a fonte da sua habilidade, poder e influência. O texto bíblico também não oferece informações explícitas a respeito da origem do mal. A Bíblia fala, freqüentemente, da presença do mal e seus efeitos, assim como de Satanás e suas atividades e os efeitos destas.

Satanás não é citado diretamente em Gênesis 3.1-15. De acordo com o texto, a serpente conversou com Eva (Gn 3.1-2, 4). Deus se dirigiu à serpente e falou diretamente com ela quando disse que a serpente seria amaldiçoada sobre todos os animais, rastejaria sobre sua barriga e comeria pó todos os dias da sua vida (Gn 3.14). A serpente, com sua natureza sutil, havia cooperado com o tentador e, por essa razão, foi amaldiçoada. Mas o que Deus prosseguiu dizendo sobre a inimizade, esmagamento e ferimento, embora aplicado à serpente, foi dirigido mais especificamente àquele que havia usado a serpente. A relação íntima na tentação entre a serpente e o tentador é enfatizada quando as Escrituras falam de Satanás como a serpente (Ap 12.9, 14-15; 20.2). Isaías, indubitavelmente, fez a conexão direta quando falou do dragão (leviatã), a serpente sinuosa que seria punida (Is 27.1).

A palavra satan (satanás) não aparece freqüentemente na Bíblia. O texto informa que Satanás apareceu quando Deus se reunia em conselho com seus servos angelicais (Jó 1.6-12; 2.1-7). Davi requereu que Satanás se colocasse à mão direita dos seus inimigos perseguidores como o adversário ou acusador (Sl 109.6). É interessante notar que Davi era bem ciente de Satanás e seus meios. Zacarias, na quarta visão, viu Satanás na corte celestial acusando a Josué, o sumo sacerdote (Zc 3.1-2). Algumas outras referências são Mt 4.10; Mc 1.13; Lc 4.8; Mt 16.23; Mc 8.33; Mt 16.23; Mc 3.23, 26; Lc 11.18; Mc 4.15; At 5.3; 1 Co 7.5; 2 Co 2.11; At 26.18; 2 Co 12.7; 1 Ts 2.18; 2 Ts 2.9; Lc 22.31; Lc 22.3; Jo 13.27; 1 Tm 5.15; Ap 2.24; Ap 12.4.

Satanás, de acordo com as Escrituras, é o tentador mestre; ele é o adversário e acusador do povo de Deus; ele é o grande oponente de Jesus, o Messias; ele é aquele que será expulso para sempre (Jo 12.31; Ap 20.10) depois de ser amarrado (Ap 20.2) e esmagado (Rm 16.20). As Escrituras também deixam claro que Satanás será continuamente ativo, a um certo grau, até ser lançado finalmente no inferno (1 Pe 5.8). De fato, existe muita prova escriturística para dizer que foi Satanás quem tentou Eva e Adão no Éden, quem se opôs a Deus e buscou ganhar todo o cosmos para si mesmo.

A origem de Satanás nunca é discutida diretamente ou mencionada indiretamente nas Escrituras. Deus não criou Satanás como Satanás. As Escrituras são enfáticas na negação de que Deus seja a fonte do pecado, do mal e de Satanás que personifica o mal. Deus odeia o pecado. Ele, como um Deus santo, não tolerará o mal. Isto faz com que a questão sobre a origem de Satanás se torne muito difícil de ser respondida. Existem algumas referências bíblicas que sugerem quem era Satanás e o que se tornou.

Satanás era um dos anjos a quem Deus criou quando os céus foram criados. Ele poderá ter sido um dos arcanjos como Miguel, o guerreiro defensor (Jd 9; Ap 12.7; ver também Dn 10.13, 21; 12.1) e Gabriel, o mensageiro (Dn 8.16; 9.21; Lc 1.19, 26). O nome original de Satanás pode ter sido Lúcifer (Is 14.12), mas isso não pode ser confirmado. Das suas atividades pode-se concluir que ele era muito instruído, poderoso e capaz como administrador. Ele é tudo isto em virtude de Deus tê-lo criado assim. Parece apropriado, então, considerar Satanás como um arcanjo que recebeu a tarefa de ser o administrador entre a multidão de anjos para as atividades deles. Tal arcanjo administrador tinha um papel e estava numa posição em que pôde desafiar a preferência de Deus Yahweh em fazer de Adão e Eva seus vice-gerentes no reino cósmico. Ao desafiar a Deus, em auto-confiança e orgulho, ele se tornou o adversário de Deus; ele se tornou Satanás.

A origem de Satanás, a rebelião e o caráter dele dão uma resposta à questão da origem do mal. A maioria dos estudiosos bíblicos e dos teólogos concordam que o mal surgiu com a rebelião de Satanás. Mas, existem vários problemas envolvidos nesta resposta. Um dos problemas é com relação ao papel de Deus em relação à origem do mal. Louis Berkhof afirmou, forte e corretamente, que o mal moral no mundo é o pecado, e Deus não pode ser considerado como o autor deste no sentido de ser Deus a causa do pecado. Berkhof apelou às passagens bíblicas (Dt 25.16; 32.4; Jó 34.10; Sl 5.4; 11.5; 92.16; Is 6.3; Zc 8.17; Lc 16.15; Tg 1.13).

Um outro problema relaciona-se à origem do mal/pecado dentro de um ser criado por Deus que não era mau, e sim, parte de um cosmos muito bom. Esse problema não pode ser resolvido baseado em qualquer ensino bíblico explícito. Tudo que pode ser dito é que Satanás, criado como arcanjo principesco, recebeu muitos dons quando foi criado. Satanás tinha a potencialidade e a liberdade como criatura de Deus para se rebelar contra Deus, para se opor a ele em seu reinado, e para buscar para si o controle do reino cósmico de Deus. Das Escrituras só se pode deduzir que o pecado e o mal surgiram no mundo angelical. Jesus Cristo provavelmente estava se referindo a isto quando disse que o diabo era um assassino desde o começo (Jo 8.44). João se refere à origem do pecado e do mal quando escreveu que Satanás peca desde o começo (1 Jo 3.8). Isto pode ser dito com certeza: Satanás apresentou a Adão e Eva o pecado e o mal e, assim o introduziu no mundo bem feito e ordenado da humanidade.

Uma terceira questão que tem ocupado muitos exegetas e teólogos é a relação entre o pecado e o mal. Geralmente o mal tem sido considerado em duas categorias. O mal moral ou espiritual é a condição da criatura de Deus que, tendo sido criada como boa, se rebela e torna-se um adversário rebelde. O ódio, a inveja e a malícia controlam a mente, o desejo e o coração. Os relacionamentos estabelecidos em amor para durarem a vida toda são desfeitos, são quebrados. Os deveres e responsabilidades são rejeitados e planos e métodos contrários são imaginados e levados a efeito. O engano e a mentira prevalecem nos corações dos maus. Já o mal natural ou mal físico se refere, antes de tudo, às conseqüências do mal moral. O esfacelamento na vida de várias formas é visto como sendo experiências ruins (ou más). As privações, sejam elas na natureza como uma falta de chuva ou de luz solar, ou sejam uma falta de saúde ou das necessidades para a vida normal, são chamadas de males. Guerras e desastres como terremotos ou tempestades de vento também são considerados males.

O mal moral tem sua origem em fontes que não são Deus. Mas Deus ocasiona e/ou controla as conseqüências do mal moral, o mal natural e físico. Nunca devemos nos esquecer que, sob o controle de Deus, Satanás e as forças demoníacas podem causar o mal natural. As ações pecaminosas na vida também podem resultar em mal natural e físico. Mas, devemos nos lembrar em todo o tempo que Deus é o Mestre sobre a morte, sobre a vida, em todas as suas exigências e vicissitudes. Deus fala repetidamente, através de seus porta-vozes e escritores inspirados, que ele trará, e traz mesmo, a espada, a fome, a pestilência e a destruição, freqüentemente por intermédio de nações designadas. Considere a advertência de Moisés quanto ao fato de que Yahweh traria maldições sobre o povo escolhido se e quando ele se tornasse moralmente mau (Dt 11.17-18; 27.15-26; 28.15-68). Considere, também, a pergunta retórica de Amós: "Sucederá algum mal (ra a) à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?" (Am 3.6 RA).

O conceito de pecado é inseparável do mal. O pecado é um ato de desobediência expressa contra a autoridade legítima. Pecados são atitudes, pensamentos e ações de desobediência. O pecado tem suas raízes no mal; o mal moral se expressa através de atos de desobediência, rebelião, ódio, inveja, destruição e assassinato.

O mal e o pecado penetraram no Éden; isto não aconteceu porque eram entidades, forças ou influências objetivas ou essenciais. Suas origens estão nos aspectos da criação que são espirituais, morais e livres - anjos, querubins e seres humanos. Deus Yahweh colocou Adão e Eva no Éden. Satanás tinha livre acesso ao Éden em virtude de ser anjo e da sua posição no cosmos. Satanás, por não ter recebido o status e as prerrogativas reais no Éden ou em relação ao cosmos, não foi capaz de introduzir o mal e o pecado dentro dele diretamente. Ele fora lançado do céu como seu centro de atividade porque Deus Yahweh não tolerava o mal que Satanás havia se tornado em seu ser, atitude e atividades. Como o banido, Satanás se empenhou em ganhar o controle do cosmos e, assim ganhar uma esfera de ação objetiva na qual pudesse dar expressão à sua natureza corrupta e exercer seus poderes satânicos (adversários) e maus. A maneira de obter controle sobre todo o cosmos era entrando no Éden. Satanás percebeu que para ganhar a influência no Éden e, conseqüentemente, introduzir o mal e o pecado dentro dele e, desse modo, em todo o cosmos, ele teria que ganhar o controle e a influência penetrante sobre os vice-gerentes edênicos designados e qualificados por Deus Yahweh. Satanás entrou no Éden como um intruso maligno com o projeto de se entronizar e se tornar o mestre dos seres humanos e do reino cósmico sobre o qual eles haviam recebido o mandato de zelar, cultivar e governar.

O Reino Parasita

Gênesis 3.1-7 registra o encontro entre a serpente/Satanás e Eva e Adão. Este relato, embora breve, é um registro confiável daquilo que de fato aconteceu num dado momento (precisamente quando, ninguém sabe) no Éden. Paulo ratificou autoritativamente este relato registrado quando escreveu aos coríntios que Eva havia sido enganada pela astúcia da serpente (2 Co 11.3).

Satanás iniciou com uma pergunta formulada astuciosamente: 'ap (sim ou e). O termo é corretamente interpretado pela Bíblia na Linguagem de Hoje como "É verdade". Usado retoricamente, tinha a intenção de levantar uma questão e, desse modo, uma incerteza. Satanás também usou uma frase ambígua quando disse miccol ez (de todas, i.e., qualquer árvore). Foi um exagero com a intenção de aumentar a incerteza; a pergunta, no entanto, como interpretada por Eva, a induziu a uma resposta e, desse modo, a conversa foi iniciada. A resposta de Eva de que todas as árvores, exceto uma, estavam disponíveis a eles, deu a Satanás a oportunidade precisa para fazer uma acusação contra Deus Yahweh. Em reposta à última declaração da mulher, de que eles não poderiam comer da árvore nem tocá-la, Satanás fez uma declaração dupla. Ambas eram mentiras e acusações contra Deus; ambas também afirmavam, implicitamente, que Eva tinha a ganhar, não perder, se ela comesse. Ela não morreria (perderia a vida), mas se tornaria mais completamente viva e segura disto porque comendo, se tornaria como Deus. Desse modo, ela estaria em posição de ganhar um caráter divino e a vida plena e sempiterna de uma deidade. Essas possibilidades brilhantes foram colocadas diante dela de tal maneira que Yahweh foi denunciado, implicitamente, como uma deidade egoísta e ciumenta e Satanás foi exibido como um aspirador do bem, inteligente, compreensivo e magnânimo. Satanás fez Eva pensar que o fruto, atraente em aparência, quando comido iria le haskîl (tornar sábio, eficiente, bem sucedido). Um Deus mesquinho havia contido o prazer e o sucesso dela. Ela comeu; ela deu a Adão e ele comeu (Gn 3.6). Eles, então, perceberam que não haviam obtido prazer e sucesso como deuses mas, como seres humanos que duvidaram e desobedeceram, haviam perdido a dignidade e segurança dadas por Deus. Eles entenderam que estavam nus; eles foram expostos diante de Satanás, um diante do outro, diante do cosmos e diante de seu Deus. Eles haviam quebrado o seu relacionamento com Yahweh, com o cosmos e um com o outro. A transgressão, o fracasso, a desobediência, o pecado e o mal lhes haviam sido apresentados e eles sucumbiram. Eles se tornaram quebradores do pacto; perderam seu senso de serem governadores reais com Deus Yahweh. Eles tomaram do cosmos (folhas de figueira) sobre o qual eles deveriam governar, e se esconderam atrás delas. Desse modo, abdicaram do "trono" que Deus lhes havia dado; tornaram-se dependentes das folhas (de forma alguma duradouras) e, através do seu uso, separaram-se um do outro e do seu Deus pactual. Tornaram-se indivíduos isolados e perderam o sentido de unidade e harmonia entre eles mesmos, entre eles e o cosmos e entre eles e Deus. A rendição de Adão e Eva a Satanás foi completa. Seu pecado contra Yahweh também o foi. Quando seguiram as sugestões enganosas de Satanás, seus corações foram corrompidos; o pecado e o mal já tinham uma fonte ou raiz no Éden. Satanás obteve uma vitória. Ele ganhou o domínio sobre os vice-gerentes pactuais de Yahweh e, por isso, sobre o cosmos. Satanás teve sucesso no estabelecimento do seu reino, trono e domínio substitutos. Ele estabeleceu seu reino no cosmos. Mas este era um reino parasita.

Usamos o termo "reino" para nos referir ao fenômeno todo que está sob o poder e influência satânicas, incluindo o próprio Satanás. O conceito de reino, como usado aqui, inclui quatro aspectos: o poder comandante; a manifestação deste poder; o lugar de onde este poder é manifestado; e o domínio que é influenciado. O último inclui todos os agentes, poderes e meios como também os objetos e áreas em que o poder satânico é exercido.

A frase "reino de Satanás" não aparece nas Escrituras. Mas referências a ele podem ser encontradas em termos e frases como poderes [ou potestades] (Rm 8.38; Ef 6.12; Cl 2.15), autoridades e forças espirituais do mal (Ef 6.12). Estes termos se referem aos aspectos da esfera que está em oposição direta a Yahweh e seu Cristo. Apocalipse faz uma referência a outro reino que não o de Deus ou de Cristo, que é dado para a besta ou é a besta (um representante de Satanás) (Ap 16.10; 17.17). Quando Satanás tentou Jesus, ele lhe ofereceu todos os reinos do mundo, dando a entender que ele os tinha sob seu controle e serviço. Ele deixava subentendido que seu reino incluía todos os reinos do mundo. Jesus não contendeu com Satanás quanto à sua afirmação implícita a respeito do seu reino, mas respondeu que ele só adoraria, só louvaria (i.e., reconheceria e serviria) a Deus Yahweh e seu reino (Mt 4.8-10). As mensagens proféticas, que são refletidas no Novo Testamento, do qual são também as fontes, se referem ao poder, governo e influência satânica como representados por vários reinos poderosos da terra (Dn 2.4, 7, 11; ver também Ez 16-17, 29). Nos salmos, nós lemos dos poderes e influências formidáveis manifestados por pessoas más, que se opunham ao povo de Yahweh e representavam o poder do mal e a influência de Satanás (Sl 2.1-5; 10.2-4; 22.12-13, 16; 37.10-14, 17, 20). Contrastando com esses poderes e influências satânicas, o salmista cantou do reino de Yahweh (Sl 22.28; 103.19; 145.11-13). As influências tremendamente poderosas de Satanás são citadas em Jó; ele pode dirigir as forças da natureza, incutir o roubo e a guerra nos povos. Ele pode se opor ao povo de Yahweh através da influência sobre seu rei (1 Cr 21.1).

O reino de Satanás, no entanto, é um reino parasita. Um parasita é um organismo que é totalmente dependente de outro organismo vivo. Um parasita não tem os meios e a capacidade de existir por eficácia dos seus próprios meios e métodos. O visgo só pode viver em uma árvore e viver dela; ele não pode tirar sustento para a vida somente do solo e do ar. Os parasitas podem ser prejudiciais para o ser do qual se alimentam e, em muitos casos, causam sua morte (e.g., vermes intestinais nos humanos, vermes nematóides nos cachorros). O reino de Satanás é parasita porque não pode existir independentemente. Ele é total e completamente dependente do reino cósmico de Yahweh. Satanás, como um ser criado, não é autônomo; ele tira todos os aspectos essenciais da sua existência e atividades da sua fonte, o Criador e Governador do reino cósmico. Porque Satanás é, desse modo, totalmente dependente, tem sido dito que Deus é responsável por ele, pelo mal e pelos seus efeitos. As Escrituras negam isto; mas permanece o fato de que Satanás e seu reino dependem de Yahweh e de todo o seu reino cósmico para existir e manter seu reino parasita. As Escrituras revelam este fato quando demonstram que Satanás tem limitações; a ele é dado um espaço; ele só pode ir até onde o Deus soberano indica.

A situação que se desenvolveu no Éden quando a serpente/Satanás enganou a Eva e a Adão (e eles sucumbiram à sua influência) e, por mérito da posição real de Adão e Eva como vice-gerentes, foi Satanás ser capacitado para iniciar seu reino parasita dentro e dependente do reino cósmico de Deus. O rei parasita, Satanás, ao ganhar o controle do coração e da vida de Adão e Eva, no próprio coração do reino cósmico, pôde estender sua influência através de todo o reino cósmico. Em outras palavras, o poder e a influência satânicas podiam tornar-se e de fato tornaram-se penetrantes. Desse modo, o reino cósmico de Deus tinha dentro de si e sustentava os próprios meios que buscavam destruir e anulá-lo.

Assim temos uma idéia bíblico teológica do desejo de Satanás e sua sedução dos vice-gerentes da criação. Na próxima aula veremos o Proto-evangelho, a promessa de Deus para dar continuidade ao pacto da criação e seus mandatos.

I. Adão e Eva no Éden
A.                Éden: O Jardim Palaciano
B.                 A Limitação
II. Satanás e o Mal
A.                 Satanás
B.                 O Mal
III. O Reino Parasita
A.                 O Desejo de Satanás
B.                 A Sedução dos Vice Gerentes

Nessa aula, devido ao seu tamanho, não temos leituras complementares.


11. Aula 9: O Protoevangelho

Teologia Bíblica

Prof. Mauro Meister

Aula 9: O Protoevangelho

Esta aula também é uma adaptação de From Creation to Consumation, capítulo 6 . Leia a aula cuidadosamente, absorvendo o conteúdo e fazendo anotações. Coloquei no final da aula um rápido esboço. Siga-o a medida em que fizer a leitura e anote o pontos principais de cada parte. Boa aula!

 

Este capítulo trata da revelação registrada em Gênesis 3.8-4.25. Este material é constituído da última parte da primeira seção tôledôt (Gn 2.4-4.26) [As toledot são normalmente traduzidas como "gerações" ou "história de" - ex. Gn 2.4, Gn 37.1 / prof. Mauro]. Considerando que a primeira parte desta seção foi relacionada integralmente ao que Gênesis 1.1-2.3 registrou, o material a ser trabalhado agora nos introduz ao que aconteceu depois da criação de todas as coisas, ao estabelecimento do pacto da criação e à quebra do relacionamento pactual entre o Senhor soberano do pacto e seus vice-gerentes. A "história verdadeira" da Bíblia não começa com Gênesis 3.8, começa com a criação do mundo e o estabelecimento do reino cósmico. E, considerando que a primeira parte de Gênesis 2.4-4.25 desenvolveu o que Gênesis 1.1-2.3 registra a respeito do estabelecimento do pacto da criação, a segunda parte revela como Deus Yahweh introduziu, estabeleceu o palco, e começou a revelar o "pacto da redenção". Desta forma, a primeira seção tôledôt amplia o pacto da criação e introduz o pacto da redenção que Yahweh revelou e estabeleceu como seu meio de manter, restaurar e trazer o pacto da criação à consumação. Através desta ação pactual, Deus Yahweh sustentava seu reino cósmico, revelava sua intenção de continuar a mantê-lo em um contexto de oposição e dava a conhecer o modo como iria conduzi-lo a uma consumação gloriosa e vitoriosa.

Gênesis 3.8-4.25 tem seu foco no "protoevangelho". Este termo não é tão usado e conhecido em décadas recentes como já foi. O fato de que Henry L. Ellison intitulou seus comentários de Gênesis 3.15 "O Protoevangelho", indica que o termo é usado pelos estudiosos evangélicos. Para Ernest Kevan o termo se refere especificamente às palavras que Deus falou quando se dirigiu a Satanás na presença de Adão e Eva. A mensagem tem sido considerada a primeira revelação redentora (ou evangelho) no Antigo Testamento embora muitos escritores críticos não concordem e alguns escritores evangélicos tenham expressado alguma incerteza. A primeira mensagem da redenção não foi somente a respeito da atividade redentora messiânica e da vitória assegurada, mas também incluiu a revelação com respeito à antítese divinamente estabelecida, concernente ao juízo certo que aguarda Satanás.

A Revelação Divina do Protoevangelho

 O Texto: 3.8-4.25

O debate continua sobre a natureza exata de Gênesis 3.8-4.25. Este debate inclui a discussão do relato do papel de Satanás no pecado de Eva e Adão (Gn 3.1-7). Gordon Wenham reviu as opções. Será que este relato é, basicamente, “o paradigma do pecado para um narrador? Ou é um relato histórico?" Wenham fez uma apresentação bem desenvolvida do modo como o relato é um paradigma, um "modelo de tudo o que acontece quando o homem desobedece a Deus". Mas ele admite um caráter proto-histórico à passagem, porque Gênesis traça a descendência da raça humana a partir de Adão e Eva e seu caráter pecaminoso, até as atividades pecaminosas dos primeiros ancestrais. Seria correto, no entanto, referir-se a esta passagem antes de tudo como sendo histórica; em primeiro lugar; registra o que aconteceu de fato nas vidas de Adão e Eva, seus filhos, Caim, Abel, Sete e sua descendência imediata. Também não há como negar o caráter paradigmático da passagem, porque o caráter do pecado e suas conseqüências não vem sendo tão diferentes assim através da história daquilo que foram no tempo das primeiras gerações de pessoas pecaminosas.

Quatro temas teológicos principais, embutidos na narrativa histórica, são discutidos na parte I deste capítulo (Gn 3.8-4.25). (1) A forma de abordagem de Deus Yahweh aos pecadores; (2) as maldições pronunciadas; (3) as garantias a respeito da continuidade da vida pactual no reino cósmico; e (4) a resposta sextupla humana. Estes temas serão seguidos de uma discussão das virtudes de Yahweh reveladas nesta passagem.

Deus Yahweh não se afastou dos desobedientes, pecaminosos e culpados Adão e Eva. Keil afirmou bem o caso: "Deus não quer e não os deixa sozinhos. Ele se chega a eles como um homem ao outro". Deus não se aproximou chamando-os; ao contrário, como já fizera antes, tornou conhecida sua presença constante: qôl yehwâ elohîm (o som de Deus) caminhando pelo jardim. Comentaristas concordam que Yahweh estava fazendo o que tinha feito antes. Deus continua a habitar "ainda na terra" com seus portadores de imagem pactuais. Ele continuou, como antes, a conversar com seus vice-gerentes. Wenham acertou ao chamar a atenção para o fato da caminhada de Yahweh pelo jardim "não ser fora do normal; mas a reação do homem e sua esposa sim". Eles tentaram, em vergonha, esconder-se de seu amigo e Senhor. O Soberano do paraíso e do céu não se afastou; o texto nos informa que Deus Yahweh wayyiqrâ (e ele chamou) o homem e disse a ele, 'ayyekâ (onde está você?). Esta pergunta não parece ser uma expressão de curiosidade ou surpresa por parte de Yahweh. Wenham e Umberto Cassuto estão corretos quando mostram que Deus Yahweh está chamando Adão e sua esposa, exigindo que eles prestem contas de si. Keil afirmou, referindo-se às palavras de Deus Yahweh, que "este modo humano de comunicação entre o homem e Deus não é mera figura de linguagem, e sim uma realidade", uma realidade que tem seu fundamento na realidade de que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem.

Deus Yahweh também abordou a Caim. Na verdade, ele fez isto duas vezes. A primeira vez foi para advertir Caim de que era perigoso abrigar e nutrir a raiva e o desânimo (Gn 4.6-7). A segunda vez foi para exigir a prestação de contas de Caim pelo que ele havia feito a Abel (Gn 4.9).

Nas abordagens que Deus Yahweh fez a Adão, Eva e Caim, ele demonstrou seu senhorio soberano sobre eles. Ele lhes fez saber o que exigia deles à luz do que havia feito por eles e dado a conhecer previamente. Ele tomou e manteve a iniciativa de manter um relacionamento com eles; ele os fez conhecer que continuaria a exercitar seu senhorio pactual e real e que a mulher e os homens (Adão e Caim) não se deveriam considerar absolvidos de responsabilidade em relação ao seu Suserano divino. As motivações de Deus Yahweh, sua justiça, graça e misericórdia serão discutidos nos parágrafos subseqüentes.

Deus Yahweh pronunciou quatro maldições quando abordou Adão, Eva e Caim. O termo 'arûr é usado quando ele se dirige à serpente (Gn 3.14); quando ele se dirige a Adão e referiu-se a ha 'adamâI (o solo) (Gn 3.17); o mesmo quando ele se dirigiu a Caim (Gn 4.11). O conceito expresso pelo termo aparece freqüentemente nas Escrituras. Ainda que outros cinco termos hebraicos sejam traduzidos por "maldição" ( qalal, 'ala, qabab, naqab, e za'am, 'arûr ), a forma qal passivo do verbo 'arar expressa com a maior força a intenção do que Yahweh disse. Os estudiosos concordam plenamente que o conceito assírio araru, que comunica a idéia de ardil e retenção, poderia bem ser a etimologia do termo hebraico. Em hebraico, a idéia de "reter" é proeminente. Por essa razão, aqueles que são amaldiçoados, são retidos, banidos, e separados de uma circunstância ou situação original ou preferida. Quando Deus Yahweh pronunciou uma maldição, ele reteve aqueles que estavam sob sua ira e os removeu da esfera de bênção ou removeu as bênçãos deles. Deste modo, assim como as criaturas de Yahweh - todos os aspectos da criação - podiam ser encerradas firmemente nos limites do seu amor, da mesma forma, podiam ser encerradas firmemente sob sua ira e experimentar as conseqüências severas dela. Devemos entender que quando o protoevangelho foi proclamado, uma parte integral desse evangelho/boas-novas foi a maldição de Yahweh que colocava toda a criação sob a ira de Deus Yahweh. Mas a maldição não era absoluta em todos os casos; na verdade, era uma maldição mitigada na maioria dos casos.

Deus Yahweh pronunciou uma maldição contra a serpente: 'arûr 'attah miccal-habbehemâ (maldita és entre todos os animais domésticos, RA). A preposição min nesta frase tem sido interpretado como "mais do que" e como "em distinção de". O termo, como traduzido na RA, sugere, basicamente, a idéia de que a serpente deveria experimentar a ira de Deus de forma mais completa do que todas as outras criaturas. Ela ser condenada a mover-se sobre seu ventre e ter sempre sua cabeça (e narinas) no chão, e ter o pó nas suas narinas e boca, confirmam a idéia de que a serpente deveria suportar essa carga pesada e humilhante por causa da sua submissão e serviço a Satanás. Mas a maldição não era absoluta; embora a serpente não pudesse evitá-la (nesse sentido era absoluta, i.e., absolutamente inevitável), não era absoluta no sentido de que a serpente fosse ficar destituída da vida, alimento, movimento e auto-proteção.

A maldição dirigida à serpente, no entanto, também foi dirigida diretamente a Satanás. Esta maldição foi absoluta. Satanás teria sua cabeça esmagada; ele seria completamente dominado, derrotado e feito impotente. A vida e o envolvimento no reino cósmico de Yahweh chegariam a um fim. Esta maldição foi dirigida a Satanás e sua semente, seus seguidores demoníacos e aqueles da raça humana que permanecessem sob seu controle e a seu serviço. O pronunciamento desta maldição sobre Satanás incluiu uma promessa de vitória para a mulher e sua semente porque do esmagamento de Satanás viria a vitória e a continuidade de vida para aqueles da raça humana que viessem a ser incluídos na semente da mulher.

A maldição pronunciada sobre Satanás e sua semente, com a declaração correlata de vitória e vida para a semente da mulher, também incluiu um pronunciamento da maldição sobre a semente da mulher. A ira de Deus Yahweh seria sentida no "esmagamento no calcanhar". Esta é uma declaração eufemística que, no processo do tempo e da história, foi demonstrada como sendo uma referência ao sofrimento, condenação, morte e sepultamento de Jesus Cristo que sofreu a ira de Deus e teve a maldição da humanidade colocada sobre si (Rm 5.9; 1 Ts 1.10; Gl 3.10-13). Esta maldição que a semente da mulher, Jesus Cristo, tinha que sofrer foi absoluta e irrestrita no sentido que a plenitude da ira de Deus Yahweh foi colocada sobre ele. Ela foi mitigada no sentido em que a maldição não trouxe uma separação completa, permanente e absoluta entre Deus Yahweh e Jesus. Sendo ele mesmo Deus, Cristo, tendo sido completamente desamparado por Deus Pai e separado dele, tinha o poder de sofrer a maldição, vencê-la, e sustentar a vida e o amor do pacto que Deus Yahweh havia estabelecido.

Deus Yahweh se dirigiu a Eva diretamente; o termo "maldição" não é usado; não porque ela seria poupada das conseqüências do seu pecado mas porque ela, sendo a portadora da semente, sofreria eseb (dor) enquanto cumprisse seu privilégio e responsabilidade de ser mãe. Deve-se notar o infinitivo absoluto hiphil, precedendo a forma imperfeita do verto rabâh (ser muito, ou grandemente) que dá a tradução correta de "aumentar grande ou excessivamente a dor". Comentaristas têm chamado a atenção ao fato de que o parto falado no texto poderia muito bem incluir mais do que é experimentado na gravidez e na atividade efetiva do nascimento. De fato, pode, e neste contexto (cf. o assassinato de Abel por Caim) deverá ser considerado como incluindo todo o processo de educação dos filhos. Uma experiência pungente desta dor aumentada foi a porção de Maria quando viu seu filho crucificado (Jo 19.25,26).

Eva, juntamente com a maldição mitigada, recebeu uma repreensão. Ela havia sucumbido ao tentador e, então, dando do fruto proibido a Adão, conduziu-o à transgressão juntamente com ela. Ela não havia servido como uma auxiliadora apropriada para ele (Gn 2.18). Antes, havia exercitado a prerrogativa que não era dela, mas de seu marido. Em conseqüência, é dito a ela claramente que, do modo como ela tinha sido feita, ela deveria continuar a ser e operar. Ela deveria reconhecer e se submeter a seu marido, que teria que assumir um papel responsável de liderança. A repreensão não colocou uma maldição sobre ela; antes, informou-a claramente daquilo que tinha sido e deveria continuar a ser sua atitude para com seu marido.

Deus Yahweh prosseguiu então, conversando com Adão. Primeiro, foi declarada a razão para a maldição de Yahweh com relação a Adão: kî sama ta leqôl 'iseteka (porque “atendeste a voz de tua mulher”). Uma repreensão é inferida, a qual é particularmente óbvia porque Yahweh acrescentou, "eu te ordenara que não comesses” dela (Gn 3.17). Adão não ouviu nem obedeceu a seu Senhor: ele havia seguido sua esposa desviada. Mas Adão recebeu mais do que uma repreensão. A ele, a quem havia sido dado o domínio sobre o cosmos, um mandato para mantê-lo e cultivá-lo e dele receber o alimento para o sustento da vida física, foi dito que a maldição de Yahweh estava sobre há ádamâh (o solo, ou a terra) por causa do que ele, Adão, havia feito. O local de trabalho do co-trabalhador real de Yahweh se tornaria, doravante, um lugar de trabalho difícil, de atividade desagradável e de resistência a seus esforços. Seu trabalho não seria uma maldição; sofrimento e frustração no seu trabalho, sim. Vários termos têm sido usados para descrever o que Yahweh disse: labuta dolorosa, suor, espinhos e cardos (em lugar da planta da vida apropriada para alimento), e um retorno ao pó, i.e., a morte física e a deterioração do corpo. Debaixo desta maldição sobre o solo, Adão não deveria esperar uma resposta pronta a seus esforços. Sua existência física temporária continuada deveria depender de uma terra hostil e refratária. Mas, essa maldição sobre o solo deve ser considerada como mitigada, pois Adão não seria separado completa e imediatamente do seu lugar de trabalho e fonte de sustento. Ambos, ele e o solo continuariam juntos, mas nessa proximidade existiria muito desapontamento, frustração, dor e destruição. As Escrituras nos informam que o próprio cosmos criado reagiria com dor e gemidos à maldição (Rm 8.22). Também, enfatiza que as pessoas experimentariam evidências trágicas da maldição, particularmente quando quebrassem o pacto com Yahweh; Moisés avisou que, no curso da história, a maldição seria executada em formas de secas, penúria e doenças (Dt 28.15-24). A maldição pactual sobre o cosmos seria bastante mitigada se o modo de vida fosse o da manutenção do pacto; no entanto, somente o mantenedor perfeito do pacto, o próprio Mediador do pacto, seria capaz de remover completamente a razão e todas as evidências da maldição que Deus Yahweh pronunciou sobre Adão e sobre o cosmos colocado sob sua responsabilidade. Considerando que a maldição que Deus Yahweh proferiu a Adão não recairia diretamente sobre ele, foi pronunciada sobre o filho de Adão, Caim.

Deus Yahweh abordou Caim inicialmente quando este estava muito aborrecido (Gn 4.6). Mas Caim manifestou o crescimento do pecado; em ira e ciúme, ele assassinou seu irmão. Então, Yahweh veio a Caim novamente e pronunciou uma maldição sobre ele: we attâh arûr min ha adamâh (e agora amaldiçoado seja você sobre a terra) (Gn 4.11). Caim, o assassino, tinha feito o solo absorver o sangue de seu irmão. A maldição de Caim não foi mitigada. O solo encharcado com sangue não seria seu lar nem seu lugar seguro de trabalho. Ele foi desalojado dele (NIV) porque, mesmo que ele tentasse cultivá-lo, não receberia a recompensa do cultivador; o solo não produziria para ele. A maldição de Caim foi ser repelido; ele seria um errante pela terra. O texto nos diz, no entanto, que Caim se casou, gerou filhos e construiu uma cidade (Gn 4.17). Esta primeira cidade não deve ser vista como evidência de desafio à maldição de Deus Yahweh sobre Caim. Antes, como Meredith Kline explicou, a cidade é uma figura do desenvolvimento da cultura mundial. A cidade, portanto, não é para ser vista como uma invenção de homens ímpios. A cidade de Caim, entretanto, representa a cidade explorada pela humanidade pecaminosa e, deste modo, se torna uma "manifestação altaneira da revolta do homem contra Deus".

Resumindo nossa discussão sobre as maldições que Deus Yahweh pronunciou quando Adão, Eva e Caim o desobedeceram, podemos dizer que Deus deu uma sentença de morte para Satanás, a mulher, o homem e o filho. A morte deve ser entendida no sentido de ser colocado sob a ira de Yahweh contra o pecado; a morte representava graus de separação da fonte da vida e das bênçãos enriquecedoras; a morte representava eventualmente a separação final e total de Deus Yahweh. Esta morte, i.e., a separação e sua destruição resultante, é a sentença que Deus Yahweh, o Senhor soberano, pronunciou como Juiz. Esta sentença de julgamento seria sobre todo o cosmos e seus habitantes até que a pena completa exigida para a remoção do julgamento fosse paga.

Na discussão precedente, das maldições que Yahweh pronunciou, nós nos referimos ao fato de que algumas destas foram mitigadas. A mitigação pode ser entendida baseada no Deus Yahweh ter dado garantias de continuidade. O cosmos não cessaria de existir, nem seria permitido a Satanás assumir controle total e absoluto sobre ele. Adão e Eva não seriam colocados de lado imediatamente. Eles foram desalojados do seu palácio e pátio reais (Gn 3.23), mas como marido e mulher, continuaram no seu relacionamento matrimonial e foram capacitados a gerarem descendência. A Adão foi garantido que ele continuaria, por um tempo, a cultivar a terra, mesmo com sofrimento, suor e desapontamento. Caim, sob sua maldição, foi expulso, mas recebeu proteção de seus parentes que procurassem vingança (Gn 4.15). Ele foi capacitado a expressar seu potencial, como um portador da imagem, com a construção de uma cidade. O potencial para procriação não foi tirado dele (Gn 4.17).

As garantias da continuidade devem ser consideradas cuidadosamente porque nelas Deus Yahweh revelou algumas realidades importantes.

Yahweh manteve seu reino cósmico; portanto, continuaria. Satanás continuaria a estar presente, sempre buscando ampliar a extensão e influência do seu reino parasita. Mas, faria isto dentro dos parâmetros que Deus determinava para ele e suas atividades. O salmista reconheceu a continuação do reino cósmico de Deus Yahweh e seu reinado soberano sobre ele quando cantou: Reina o Senhor. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o Senhor, e se cingiu (RA). Firmou o mundo que não vacila (Sl 93). E ele continuou louvando Yahweh como o grande Deus, o Rei sobre tudo, em cujas mãos estão as profundezas da terra, a quem pertencem os picos das montanhas, o mar e a terra seca (Sl 95.3-4). Salomão, em sua oração, quando o templo foi dedicado, pediu que o Senhor soberano continuasse a reinar do céu e a controlar todas as forças da natureza (1 Re 8.23-53). Isaías assegurou que Yahweh poderia ser, e seria um Deus redentor e restaurador, porque Ele é o que "está assentado sobre a redondeza da terra” (Is 40.22).

Visto que o reino cósmico iria continuar, foram assegurados o palco e o meio ambiente para a continuidade do pacto de Yahweh com sua criação e seus vice-gerentes. Deus Yahweh proporcionou os meios para a continuidade da comunhão com seus portadores de imagem. Ele providenciou a restauração disto enunciando sua mensagem de esperança, o protoevangelho. Ele fez continuar o mandato cultural; isto evidenciou claramente que o status real de seus portadores de imagem não estava perdido para sempre. Ele continuou o mandato social assegurando a Adão e Eva que a semente da mulher seria vitoriosa. De fato, a semente viria, ainda que com sofrimento e dor.

A realidade a ser enfatizada é que as maldições pronunciadas por Deus Yahweh não apagavam, não removiam, nem anulavam seu propósito criador. Ele manteve seu reino; Yahweh manteve seu relacionamento soberano com seu reino cósmico. Ele manteve seu relacionamento de vida e amor - i.e., seu pacto - com Adão e Eva. Ele continuou os mandatos que lhes havia dado. Não se pode negar que o pecado e as maldições pronunciadas introduziram mudanças. Estas, no entanto, não alteraram as questões fundamentais do reino de Yahweh, sua intenção, e o programa básico para realizá-los.

A alteração mais penetrante e fundamental que Deus Yahweh introduziu foi sua intenção e método para redimir e restaurar seu reino cósmico dos efeitos das maldições e das misérias que o pecado introduziu e da presença e influência do reino parasita de Satanás. Esta “alteração” que Deus Yahweh revelou não era outra senão o pacto da graça, o qual estaria presente e funcionaria dentro dos parâmetros do pacto da criação. Este pacto da graça tornou-se o que pode ser chamado de segundo cordão do relacionamento de amor/vida de Yahweh com seus vice-gerentes e o reino cósmico. Este cordão iria permear, entrelaçar, restaurar, fortificar, eventualmente, aperfeiçoar e, conseqüentemente, trazer à consumação completa o que Deus Yahweh pretendeu e iniciou na sua obra criadora.

Um ponto merece repetição: Caim, o assassino, o banido, também seria assegurado da vida contínua com atividades. Deus Yahweh providenciou proteção para ele e deu-lhe condições de evitar uma catástrofe que lhe tirasse a vida (Gn 4.15-16). A continuidade do mandato cultural e social de Yahweh para Caim é declarada definitivamente. Caim se casou, teve filhos e eles, por sua vez, se tornaram uma parte integral da sociedade humana (Gn 4.17). Ele e seus descendentes demonstraram sua habilidade em realizar o mandato cultural através da construção de cidades, da criação de gado, tornando-se metalúrgicos e músicos (Gn 4.17; 20-22). Desse modo, embora Caim e sua descendência imediata não tenham sido assegurados de serem beneficiários plenos do pacto da graça, foram afetados por ele, pelo próprio fato de continuarem a exercer os privilégios e tarefas do pacto da criação.

O protoevangelho não caiu em ouvidos surdos quando Yahweh primeiramente o proclamou. Primeiro, deve ser notado que nem Satanás/serpente nem Adão e Eva responderam diretamente às maldições que Deus pronunciou. Mas Adão se regozijou em resposta à garantia de que a morte, conforme tinha sido declarada como resultado do comer, não seria a sua condição final. Em verdade, ele e Eva iriam morrer fisicamente; “tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19 RA). Mas as Escrituras registram que Adão, através do fato de dar nome à esposa pela segunda vez, respondeu à promessa da semente, vida, amor, vitória. Ele chamou sua esposa de hawwâ , que quer dizer “vida” (Gn 3.20). Adão, então, acrescentou a frase “porque ela é a mãe de kal hay (toda vida ou viventes). Adão, dando à sua esposa um segundo nome, não removeu o seu primeiro nome; ela permaneceu mulher. Mas, exercitando seu papel de liderança, no dar sua resposta em fé à promessa de Yahweh de continuação de vida, Adão deu um nome pessoal à sua esposa. Este nome seria uma lembrança constante de que “o retorno ao pó” não seria a questão ou estado final para toda a humanidade. Adão ouviu e acreditou que a maldição da morte seria desfeita pela geração da vida através da mulher.

Eva seguiu seu marido no fazer uma resposta aprovada e de fé à proclamação de Yahweh do protoevangelho (Gn 4.1). Quando seu primeiro filho nasceu, ela disse que havia recebido um varão com a ajuda de Yahweh. Desse modo, Eva respondeu a Yahweh e fez sua própria declaração de fé em resposta à promessa de uma semente vitoriosa. O marido Adão e a esposa Eva se uniram na sua resposta e na fé nas promessas de Yahweh de redimir e restaurar o que eles haviam corrompido e na situação na qual haviam introduzido a perdição.

Os primeiros dois filhos de Adão e Eva não deram respostas semelhantes. Abel, o segundo, pode ser julgado como tendo se unido a seus pais na aceitação das promessas de Yahweh. Ele ofereceu um sacrifício que foi agradável a Yahweh (Gn 4.4). À vista do que a revelação posterior nos informa, a respeito de sacrifícios (cf. Lv 1.3, 10; 3.1, 6.16c), pode se admitir que Abel, através do seu sacrifício, deu expressão à sua consciência da necessidade pela intervenção de Yahweh na sua vida pecaminosa e expressou sua gratidão oferecendo “as porções de gordura de alguns dos primogênitos do seu rebanho”(NIV). O Novo Testamento nos informa que Abel foi motivado pela fé (Hb 11.4). O sacrifício dos produtos do solo de Caim não foi aceitável a Yahweh. A resposta de Caim à rejeição deu evidências de sua falta de submissão e fé em Yahweh (Gn 4.5). O assassinato de Abel por Caim indicou que este, conscientemente ou não, estava sob a influência de Satanás, que é citado como o “homicida desde o princípio”. Jesus poderia muito bem ter em mente o assassinato de Abel por Caim, quando falou desse modo sobre Satanás (Jo 8.44). Quando Yahweh disse a Caim que ele estava sob uma maldição (Gn 4.11 RA) e seria banido, a resposta de Caim foi de auto-piedade. Não houve sinais de arrependimento, apelo por perdão ou expressões de fé nas promessas de Yahweh em trazer redenção e restauração.

A Revelação das Virtudes de Yahweh

No estudo que acabamos de fazer desse texto, ficou evidente que Deus Yahweh revelou certas características de si mesmo às quais não tinha sido dada expressão clara e definida antes do pecado de Adão e Eva. Lembremo-nos que, conforme explicado no cap.1, a majestade, soberania, infinidade, santidade, onipotência, liberdade, sabedoria, bondade e amor de Deus Yahweh foram revelados na sua obra e produto criadores. A referência agora é à sedeq/sedaqâh de Yahweh (integridade), à mispat (justiça), à hesed (misericórdia), e à hen (graça). Assim como o termo berît (pacto) não é encontrado em Gn 1-4, estes quatro termos também não estão presentes lá. Mas os conceitos, com certeza, estão ali revelados. Yahweh, ao pronunciar as maldições, ao fazer suas promessas de redenção e restauração e, assim assegurar a Adão e Eva sua intenção de manter seu reino cósmico, de preservar seus relacionamentos pactuais, de providenciar a continuidade da vida e dar vitória aos que estão sob a maldição da morte, revelou virtudes que revelações posteriores identificaram pelos termos específicos mencionados acima. Uma discussão detalhada destes conceitos não será feita. Os conceitos serão citados e discutidos em profundidade nas discussões subseqüentes. Mas é necessário citá-los brevemente neste contexto, por várias razões. 1) Yahweh os revelou no tratar com Satanás e com a humanidade pecadora desde quando o pecado entrou no mundo. A revelação está lá; devemos reconhecê-la. 2) Yahweh deve ser compreendido como agindo e lidando de acordo com sua natureza como Deus Yahweh. Ele foi motivado a fazer o que fez porque ele é o que é: íntegro, justo, misericordioso e gracioso. 3) As virtudes de Yahweh, conforme reveladas através do que ele prometeu e fez, ajudam seu povo crente a entender de forma mais completa o que Yahweh pretendeu e, realmente introduziu no decurso da história após a entrada da rebelião e do pecado.

Os conceitos de integridade e justiça serão considerados primeiramente. Tendo feito isso, a hesed e a hen de Yahweh podem ser entendidos mais claramente e apreciados mais completamente.

Sempre que alguém introduz uma discussão do conceito sedeq/sedaqâh , entra em uma área judicial. Isto é, pensar em integridade, retidão, é trazer à mente o conceito de lei, vontade de Deus, suas normas ou padrões revelados, o papel destes e o relacionamento inerentemente envolvido neles, e as questões que podem surgir quando se trata deles.

Em Gênesis 1 e 2, Deus Yahweh revelou sua vontade para a humanidade. Os homens receberam três mandatos, o cultural, o social e o espiritual (cf. cap. 3 acima). Os deveres destes mandatos foram explicados em palavras breves mas específicas. Por exemplo, o homem deveria se apegar à sua esposa; juntos, eles deveriam ser uma só carne; eles deveriam obedecer a Deus no seu cultivo e uso do cosmos; deveriam exercer autoridade sobre o mundo animal (Gn 2.19); eles foram estritamente proibidos de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão e Eva foram avisados das conseqüências da possível desobediência, “certamente morrerás” (Gn 2.17). Pode-se dizer, sem medo de contradição, que Adão e Eva sabiam qual era a vontade de Deus para eles. Eles haviam recebido instruções para sua vida e serviço; estas podem ser consideradas como sendo normas, padrões ou regulamentos - resumindo, a lei de Deus Yahweh para eles.

Adão e Eva desobedeceram a lei de Deus Yahweh. Eles conheciam as conseqüências disto. Ficaram envergonhados; viviam no próprio jardim onde deveriam ter comunhão e exercer domínio. Eles ficaram com medo; sabiam que mereciam castigo, i.e., mereciam morrer. Deus Yahweh, naquela situação, mantendo e demonstrando sua sabedoria e santidade, revelou que ele próprio sustentaria sua lei, e falaria e agiria de acordo quando se dirigisse a Satanás e aos pecadores miseráveis e culpados, Adão e Eva. Fazendo isto, ele revelou sua integridade. Ele não ignorou sua vontade revelada. Ele sustentou sua própria lei com relação à humanidade e a Satanás. Fazendo isso, Deus Yahweh revelava que a justiça, a sustentação e aplicação da sua lei, seria uma força integral no seu reino cósmico. Deus Yahweh revelou, desse modo, o que é a justiça e que ele deveria ser reconhecido, honrado e servido como um sustentador e aplicador da lei - isto é, um justo - Deus.

O conceito de mispat (justiça) é intimamente relacionado, e em alguns sentidos, entrelaçado com retidão. O substantivo é derivado da raiz verbal sapat , significando julgar e/ou governar. Robert C. Culver chamou atenção ao fato de sapat ter o sentido primário de exercer ou realizar os processos de governo. Em outras palavras, mispat (justiça) fala de realmente cumprir as exigências e requerimentos da lei. Desse modo, enquanto Deus se revelava como reto, ele também demonstraria a justiça. Ele exigiria e executaria o que a lei requeria, e faria isto em perfeito acordo com o tom e a intenção da lei. Deus não aplicou a lei caprichosamente e com zelo exagerado, nem mostrou parcialidade através de uma aplicação limitada. Ele cumpriu sua vontade revelada; ele executou o que havia avisado que iria acontecer. Adão e Eva morreram espiritualmente; seu relacionamento de vida/amor com Deus Yahweh estava quebrado; eles foram alienados dele. Demonstraram este relacionamento quebrado e a separação através do reconhecimento da sua nudez, sentindo-se envergonhados, ficando com medo e escondendo-se. E, fisicamente, o processo de retorno ao pó havia começado. Desse modo, Deus revelou sua justiça; ele atuou de acordo com sua própria natureza e vontade revelada (lei) e levou a efeito as conseqüências da desobediência a essa vontade. A integridade de Deus Yahweh e sua execução da justiça poderia ter significado o fim de Adão e Eva como vice-gerentes pactuais. Poderia, também, ter conduzido à retirada completa de Deus Yahweh do seu reino cósmico. Mas, nenhuma das duas coisas aconteceu.

Deus Yahweh, como íntegro e justo, pronunciou uma maldição absoluta e final sobre a serpente/Satanás (Gn 3.14-15). Na maldição da serpente/Satanás residiu a esperança para Adão e Eva e o reino cósmico. A maldição de Satanás abriu caminho para uma maldição mitigada (cf. discussão acima sobre Adão, Eva e sobre o cosmos). O poder, domínio e intenção de Satanás recebiam um golpe severo. Ao aplicar este golpe, ou pronunciar e cumprir sua maldição sobre Satanás, tornando inevitáveis sua derrota e rendição, e assim atenuando o poder e a influência de Satanás sobre Adão e Eva e o reino parasita, Deus Yahweh revelou sua bondade e amor para com Adão, Eva e o reino cósmico. Motivado por sua bondade e amor, Deus Yahweh revelou as dimensões incomparáveis destes (cf. Ef 3.18-20). As Escrituras se referem a estas dimensões como sua hesed e hen .

O termo hesed , embora não apareça em Gn 1-4, é usado repetidas vezes em todo o Antigo Testamento. Os estudiosos geralmente concordam que hesed deve ser reconhecido como um termo pactual, isto é, o termo é inseparavelmente relacionado à idéia de berît . Falar da hesed de Yahweh é trazer à mente o pacto de Yahweh com seus portadores de imagem e com seu reino cósmico. Um exemplo clássico da relação de hesed com pacto pode ser encontrado no pacto de Yahweh com Davi (2 Sm 7), o qual é citado como o hasde dawid (misericórdias de Davi) (Is 55.3 heb.). Uma revisão rápida do que os escritores de enciclopédias e dicionários bíblicos têm escrito informará a qualquer leitor que termos como fidelidade pactual, constância, benignidade, bem como amor e misericórdia são usados, freqüentemente dependendo dos seus contextos, na tradução do termo hesed . Ainda mais, um estudo do termo em vários contextos irá revelar que hesed é considerada como sendo uma fonte de origem ou motivação para o perdão (Sl 51.3), libertação (Sl 57.4 heb.; MT 77.8,9), proteção (Gn 19.19; Sl 23.6), força para perseverança (Sl 59.16,17) e a remoção de inimigos (Sl 59.6 heb.; MT, 143.2).

Uma consideração de hesed em relação ao pronunciamento de Deus Yahweh - o protoevangelho incluindo sua verbalização de várias maldições - não deverá surpreender. O salmista cantou da hesed de Yahweh em muitos contextos. O salmo 136, particularmente, é uma canção que exalta a hesed (traduzida por amor, NIV, NEB; misericórdia, KJV, ARV; amor inabalável, RSV; bondade, Goodspeed; amor pactual, Berkeley) como revelado em sua bondade (vs. 1), majestade (vs. 3), grandes maravilhas (vs. 4), sabedoria como demonstrado na criação (vss. 5-9), e na sua redenção, preservação e cumprimento das promessas na doação da terra prometida (vs. 21-22). Estas realidades que o salmista cantou são todas aspectos integrais das atividades pactuais de Deus Yahweh. Resumindo, como um Deus pactual, Deus Yahweh revela sua hesed de várias maneiras. Na verdade, o manter e restaurar dos relacionamentos pactuais com seus vice-gerentes pecadores foi, num sentido real, motivado pela sua hesed . Deus Yahweh lembrou-se do seu pacto da criação e, particularmente, de seu vínculo pactual de amor e vida com Adão e Eva.

A revelação da hesed de Deus Yahweh pode ser vista na sua bondade e compaixão para com o homem e mulher envergonhados, escondidos, temerosos. Ele veio, procurou-os (Gn 3.8-9). Sua fidelidade a seu pacto da criação é revelada quando ele inventa uma maneira de Adão e Eva serem remidos, restaurados e libertos da maldição da morte que estava sobre eles. O amor pactual de Yahweh é demonstrado quando ele lhes assegura o cultivo contínuo do solo e a produção da semente e, desse modo, o ser frutífero e encher a terra. Até Caim experimentou a hesed de Yahweh quando foi advertido a respeito da sua ira (Gn 4.6-8) e quando Yahweh deu consideração a sua reclamação sobre o castigo pesado (Gn 4.13-17). De fato, se Deus Yahweh pronunciava seus julgamentos íntegros e justos, ao mesmo tempo ele revelava que, como um Senhor pactual, ele exercitava compaixão, bondade, misericórdia, fidelidade, lealdade, sim, seu amor pactual inabalável em relação aos seres humanos pecadores que se sentiam tão infelizes no desconsolo trazido sobre eles pela sua desobediência - o pecado.

Finalmente, devemos considerar também a revelação da hen (graça) de Deus Yahweh. O termo em si não aparece em Gênesis 1-4. Ocorre em Gênesis 6.8 onde se diz que Noé achou hen aos olhos de Yahweh. Além de graça, o termo mercê ou favor é usado freqüentemente para traduzir hen (cf., por exemplo, Gn 18.3 KJV, NIV, Nm 11.15 KJV, NIV). Tem sido salientado que o termo hen , freqüentemente encontrado em “contextos não teológicos” (cf., e.g., Gn 33.10; Ex 3.21; Et 2.15, 5.2), possui a mesma nuança que o termo teológico, em que o foco de atenção está na pessoa que recebe, em vez de no doador. Isso significa que o receptor basicamente não oferece nenhum motivo para estar recebendo, ou não merece receber, o que é pedido ou dado sem que seja solicitado (cf. e.g., Gn 18.3; 33.8; Ex. 33.12; Nm 32.5; 1 Sm 1.18).

A idéia de hen , assim como hesed , é intimamente relacionada à atividade pactual de Yahweh com seu povo. Embora a frase “pacto da graça” não ocorra nas Escrituras, é usada por estudantes bíblicos e estudiosos com freqüência para se referirem ao pacto que Yahweh faz com a humanidade pecaminosa tendo em mente sua redenção. Mas, conforme será visto, hen nem sempre resulta em redenção.

Uma consideração da forma adjetiva hannûn vai elucidar o significado bíblico de hen . Nas treze vezes em que o adjetivo aparece, ele se refere a uma virtude de Deus Yahweh, i.e., Yahweh é gracioso (Ex 22.27 [26 MT]; Ex 34.6; 2 Cr 30.9; Ne 9.17, 31; Sl 86.15; 103.8; 111.4; 112.4; 116.5; 145.8; Jl 2.13; Jn 4.2). Ex 34.6 é uma passagem clássica (repetida em Sl 103.8; Jl 2.13). Israel tinha adorado o bezerro de ouro; eles haviam perdido todo o direito de ser considerado o povo pactual de Yahweh. Moisés intercedeu e Yahweh o ouviu porque Yahweh era tanto misericordioso como gracioso. Yahweh não realizou o castigo ameaçado (Ex 32.34). Lembrou-se de seu vínculo pactual de amor/vida com eles. Ele perdoou o povo (embora eles tenham sido atingidos por uma praga Ex 32.35), foi compassivo, tardio em irar-se, abundante em amor e paciente em manter o amor. Yahweh fez com que o povo não merecedor, corrupto e culpado se tornasse receptor do seu amor pactual. Desse modo, quando se diz que Yahweh é gracioso, ele concede ao culpado graça, i.e., amor imerecido para com o culpado. A ênfase deve ser colocada no conceito “culpado” como qualificando o “não merecedor” e “não meritório”. Yahweh revelou que, em seu amor soberano e puro prazer, ele foi gracioso quando lidou com Adão, Eva e Caim. Todos eles mereceram castigo, i.e., morte, fim da vida física e separação de Deus; eles eram culpados porque todos estavam em estado de total falta de merecimento. Mas nenhum dos três recebeu punição imediatamente. Na verdade, a graça de Yahweh não resultou nos mesmos efeitos para as três pessoas. Os culpados e não merecedores Adão e Eva foram colocados sob uma maldição mitigada, e Deus prometeu que ela seria removida através do ferir da semente da mulher. A resposta de fé de Adão e Eva levou a uma execução completa desta promessa de livramento contínuo e vitorioso da culpa e das maldições pronunciadas. Para Adão e Eva, a graça de Yahweh efetivou a redenção e vitória completa. Para eles, os culpados, Yahweh revelou e demonstrou graça salvadora.

A situação para Caim foi bem diferente. Como assassino, ele era culpado, merecedor da força e impacto totais da maldição. Mas foi-lhe dada uma suspensão temporária da pena; mais, foi-lhe dada proteção divina. Ele também recebeu tempo e oportunidade de participar no mandato social; i.e., ele se casou e teve filhos. E ainda, ele foi ativo em realizar o mandato cultural, pois construiu uma cidade, seus descendentes se tornaram criadores de gado, metalúrgicos e músicos. Eles puderam fazer isto porque Yahweh era favorável a eles. Yahweh demonstrou, no mínimo, um grau de bondade, compaixão, amor e misericórdia para com Caim e seus descendentes. Conseqüentemente, eles por certo receberam a oportunidade de se arrepender e se unir a seus pais (e avós) pela sua resposta com fé às evidências da benevolência de Yahweh para eles.

Há outro ponto importante. Pelo fato de Adão e Eva serem vice-gerentes com Yahweh e receberem status régio e autoridade real sobre o cosmos criado, este cosmos também ficou sob a maldição. Yahweh amaldiçoou o solo (Gn 3.17) e colocou uma maldição sobre a capacidade reprodutiva das mulheres. Mas, novamente, estas maldições foram mitigadas. A realidade criada, o cosmos, continuaria a existir e as pessoas continuariam a se multiplicar. O cosmos, no entanto, iria gemer sob esta maldição mitigada até que esta fosse removida completamente (Rm 8.20-22).

Teólogos têm se referido à atitude de Yahweh e ações resultantes com relação aos culpados e amaldiçoados através da frase “graça comum”. Meredith Kline escreveu que assim como a maldição foi aplicada em comum, i.e., na generalidade da humanidade e do cosmos, assim existiu a “graça comum”. Ele mostrou que o homem não foi deixado completamente sob o poder do pecado; ele não foi banido para a escuridão externa. O sol não foi escurecido; a terra não foi consumada. As bênçãos temporais ainda ficaram disponíveis a todos; nenhuma delas era merecida mas foram recebidas e apreciadas “só pela graça do Criador”. “A graça comum provê benefícios ao justo e ao injusto em comum”. Se é ou não correto usar o termo “graça” para se referir à retenção da aplicação total da maldição por Deus Yahweh, é uma realidade indiscutível que Deus Yahweh, tendo pronunciado uma maldição absoluta sobre Satanás e sua semente e uma maldição mitigada sobre Adão, Eva e o cosmos, não as executou totalmente, imediatamente e finalmente. E esta verdade é básica para o entendimento da história - i.e., a revelação do plano abrangente para a humanidade, para o cosmos, assim como para o mundo angélico rebelde e todos os seguidores humanos de Satanás. Deus Yahweh determinou que ele realizaria sua vontade para a humanidade e o cosmos de acordo com seu plano redentor e que realizaria completamente seus propósitos do reino na “plenitude do tempo” por ele determinado. Em outras palavras, o pacto da criação não seria revogado; o pacto redentor seria o meio que Deus Yahweh usaria para completá-lo e realizá-lo totalmente. Ter esse pacto redentor funcionando na história, progressivamente, organicamente se revelando no tempo, seria um processo demorado. Durante este tempo determinado, enquanto a integridade e a justiça seriam continuamente reveladas e executadas, hesed (misericórdia) e hen (graça) funcionariam de uma forma completa, rica e salvadora para os crentes. Existiriam também os benefícios dos méritos de Deus Yahweh em ação para os incrédulos. Segundo a integridade e justiça de Deus Yahweh, receberiam, eventualmente, a administração total da maldição, mas até então, receberiam os benefícios da sua misericórdia e graça. Esses benefícios não incluiriam a redenção; incluiriam o bem-estar temporal, a provisão para a vida diária, a participação nos mandatos social e cultural e as vantagens dessa participação.

A Necessidade da Revelação

É apropriado, a esta altura, enfatizar novamente que Deus Yahweh se revelou como um Deus íntegro, justo, misericordioso e gracioso. Verdade que os termos não aparecem em Gênesis 3-4. Mas naquilo que Deus Yahweh disse e fez, ele revelou estas virtudes. Existem várias razões para se enfatizar a realidade da revelação de Deus Yahweh. Primeiramente, Adão e Eva e sua descendência, como criaturas finitas embora fossem portadores da imagem do seu Criador, não tinham capacidade nem meios para conhecer Deus Yahweh pessoalmente sem que essas virtudes lhes fossem reveladas. Adão e Eva precisavam da comunhão com seu Criador a fim de conhecê-lo, entender sua vontade e compreender, até certo ponto, a natureza e a motivação de seu Senhor pactual.

Segundo, uma vez que Adão, Eva e sua descendência estavam sob a influência de seu pecado, suas mentes obscurecidas, suas vontades e desejos corrompidos e suas emoções confusas faziam com que o conhecimento de Deus Yahweh se tornasse ainda mais impossível. Pessoas pecadoras precisavam e ainda precisam terrivelmente de uma revelação verbalizada, que vem de Deus Yahweh por quaisquer meios que ele escolher. Portanto, Adão e Eva nunca teriam sabido da maldição sobre Satanás, da maldição mitigada sobre eles mesmos e sobre seus aspectos sociais e cósmicos de existência, se estes não lhes tivessem sido comunicados. Sem dúvida eles as teriam experimentado mas não teriam entendido ou compreendido precisamente o que Deus Yahweh estava planejando e fazendo. A revelação do plano da redenção foi especialmente importante. Sem a revelação, Adão e Eva não saberiam da vitória assegurada da semente da mulher. Nem Caim saberia que, como um homem banido, receberia um sinal que o asseguraria da proteção divina contra os vingadores.

Terceiro, Adão e Eva requeriam revelação por causa da sua situação e meio ambiente alterados. Antes do seu pecado de incredulidade e rebelião, Deus Yahweh comungava com eles (Gn 3.8). Isto foi, indubitavelmente, para beneficiar Adão e Eva enquanto eles encaravam os desafios dos mandatos espiritual, social e cultural. Mas, depois de terem abandonado a vontade de Deus Yahweh para eles, depois que a percepção da sua nudez e vergonha os motivou a terem medo do seu Criador, e depois que foram expulsos do jardim do Éden, tão hospitaleiro, confortável, cooperante e doador de vida (Gn 3.24), eles se acharam terrivelmente necessitados da comunhão e comunicação de Deus Yahweh. De fato, uma vez que estavam no ambiente cósmico duro e hostil que gemia sob a maldição, ainda que mitigada, não podiam viver e trabalhar com coragem, força e esperança. Caim, falto de arrependimento e banido, indicou que precisava de Deus quando clamou em auto-piedade (Gn 4.13, 14); Deus Yahweh mostrou misericórdia, até certo ponto, e graça limitada para com ele. As situações e ambientes mudados certamente faziam com que fosse uma necessidade a revelação de Deus Yahweh se seus portadores de imagem tinham que viver e funcionar mesmo que em grau bem mais limitado do que foi pretendido para eles quando criados, colocados no Éden e recebendo suas incumbências.

A revelação era uma necessidade, como já enfatizei acima. Uma razão para esta minha ênfase é que vários estudiosos ou não levam em consideração ou então negam que Deus Yahweh, de fato, tenha se revelado em palavras e fatos associados. Poucos exemplos serão suficientes. Gerhard Von Rad, depois de apresentar seu discernimento exegético útil sobre Gn 3, conclui sua discussão sugerindo que, escrevendo no período iluminado salomônico, o editor desta passagem se baseou em mitos antigos que já tinham sido refinados no caminho até chegarem a ele via tradições produzidas muitos séculos antes. Depois do desenvolvimento das tradições através de muitas gerações, declarações de fé “foram feitas do ponto de vista do homem caído”. Von Rad continuou dizendo que a questão principal de toda a narrativa era apresentar uma teodicéia na qual Deus foi desobrigado do sofrimento e miséria do mundo. Desse modo, no conceito de Von Rad, Gênesis 3 e 4 não é revelação divina comunicada a povo pecador, e sim, produto de um editor que peneirou mitos originais que depois de muitas gerações e séculos se tornaram declarações de fé. Walther Eichrodt expressou uma visão similar. Como yahwista, eventualmente ele foi capaz de falar de um ponto crucial quando a história da humanidade tornou-se uma história do pecado. Eichrodt escreveu reservadamente; ele não desejava dar a impressão de que não existiram “eventos de fato” nos períodos primitivos (os quais estão além do alcance da ciência histórica). Seu ponto principal, no entanto, é que Gn 3 contém um mito etiológico que, no curso do desenvolvimento da tradição, veio a ser a declaração central da entrada do pecado e a conseqüente resposta da humanidade.

As diferenças no entendimento da origem dos relatos dos pecados de Adão, Eva e Caim e as respostas de Deus Yahweh a estes devem ser entendidas claramente. O relato bíblico declara que o conhecimento do pecado, suas conseqüências e a resposta de Deus Yahweh a ele é revelado por Deus a pecadores. Os escritores citados acima consideram que os relatos são expressões da mente humana desenvolvidas por gerações de pessoas religiosas através de muitos séculos e, eventualmente, registradas como declarações de fé.

O estabelecimento da Antítese

É da maior importância perceber que Deus Yahweh, ao revelar sua retidão, justiça, misericórdia e graça quando pronunciou as maldições e a realidade e método de livramento delas e quando revelou universalmente a misericórdia e graça, i.e., graça comum, não parou por ai. Através da graça comum, Deus Yahweh providenciou um palco no qual Adão e Eva e sua semente crente poderiam e puderam viver e funcionar no cosmos junto com a semente de Satanás em várias formas de cooperação, (e.g., na lavoura, tecnologia), sendo estes os rebeldes e incrédulos, inicialmente representados por Caim. Deus Yahweh não criou um cosmos separado para crentes, nem dividiu o cosmos geograficamente ou materialmente em duas metades distintas. A realidade é que Deus Yahweh estabeleceu dentro do cosmos, entre a semente de Satanás e a semente da mulher, uma linha divisória, um tremendo abismo que separaria as duas sementes. Essa linha divisória tem sido e deverá continuar a ser chamada a antítese.

A idéia básica expressa no termo “antítese”, que tem origem grega, é de oposição. Rinck Kuiper escreveu que a Bíblia fala de várias oposições similares: entre Cristo e o anticristo, entre a igreja e o mundo, e entre os regenerados e os não regenerados. O conceito bíblico implica em dois (ou mais) grupos que se colocam em oposição um ao outro sendo que não existe possibilidade de trégua entre eles uma vez que são absolutamente contrários, assim como a luz e as trevas e o bem e o mal.

A passagem bíblica que primeiro nos apresenta a antítese é Gn 3.14,15. Os estudiosos bíblicos não são totalmente concordes em que esta perícope ensina uma antítese absoluta. Alguns falam desta passagem como um mito etiológico por um narrador, o qual “dá uma explicação para enigmas e necessidades perturbadores” da vida. Cassuto vê a perícope como uma parábola a respeito do princípio do mal. Wenham declara que a história é “não só uma etiologia, uma história como lenda explicando porque cobras são tão desagradáveis”. Ele acha que a serpente “simboliza o pecado, a morte e o poder do mal” e, conseqüentemente, é bem provável que uma longa luta entre o bem e o mal esteja sendo considerada. Aalders, como a maioria dos estudiosos conservadores evangélicos, crê que atrás da serpente haja outra, chamada Satanás, e que uma luta de longa duração entre Satanás, seus anjos e seguidores humanos de um lado e a semente da mulher, que chega a uma realização pessoal total no Messias do outro lado, esteja sendo afirmada. A luta amarga terminará com vitória para a semente da mulher, i.e., para o Messias, e para os regenerados que têm fé nele, que obedecem e servem a Yahweh, seu Senhor.

O termo bíblico que está à base do conceito antítese é eybâh (inimizade, antagonismo). Helmer Ringgren, dissertando sobre ayab, escreveu que em literatura ugarítica, assim como mesopotâmica, o verbo e os substantivos derivados se referem ao ser hostil, inimigo, adversário com o sentido de mal presente. No Antigo Testamento o verbo e o substantivo indicam inimigos com intenção hostil (Ex 23.22, 1 Sm 18.29; Nm 35.21; 1 Re 21.20; Ez 25.15). O texto bíblico é claro em dizer que é o próprio Deus Yahweh quem coloca esta inimizade entre as duas sementes. Foi Yahweh quem os separou; ele é quem os declara adversários. Fazendo assim, Deus Yahweh declarou para Satanás, e Adão e Eva que ele não estava rendendo seus vice-gerentes a Satanás que os havia seduzido e guiado para que o seguissem. De fato, é Yahweh quem declarou que a inimizade estaria presente; ele declarou que existiriam lados opostos; ele declarou que a inimizade continuaria até que Satanás e seus seguidores fossem esmagados completamente. Desse modo, embora Satanás tenha iniciado a inimizade, a batalha, a oposição, Deus Yahweh declarou que ele a manteria até que o provocador fosse derrotado na luta. Enquanto a derrota não for completa e acabada, a inimizade, a oposição, a antítese deverá continuar.

A natureza e extensão em que esta inimizade deveria existir e afetar o próprio cosmos, a humanidade, e o mundo angelical vem dando motivos para discussão e desacordo. Há consenso geral em que a antítese é, basicamente, espiritual, isto é, uma oposição entre Deus e Satanás, entre os crentes obedientes, regenerados de um lado e os não regenerados, incrédulos, desobedientes do outro. É basicamente uma luta pelo coração, pelo serviço real, e os benefícios resultantes destes. Deus Yahweh requereu o direito de posse; Satanás também. Ter os corações, a própria pessoa de Adão e Eva, não era somente tê-los como servos mas também reivindicar o cosmos sobre o qual tinham sido colocados como vice-gerentes. Desse modo, reivindicar os vice-gerentes era reivindicar o seu domínio. Reivindicar os seres reais era reivindicar suas prerrogativas reais dentro do domínio. Ter domínio espiritual era também ter o domínio cósmico; todos os aspectos do reino cósmico estariam envolvidos na luta quando Deus Yahweh sustentasse, por declaração, a oposição, i.e., a antítese. Como esta antítese espiritual, que não deveria ser estritamente espacial, deveria ou deve ser percebida, tem sido sempre um assunto desafiador sobre o qual tem existido muito desacordo. Na continuação deste estudo, será visto que para Israel, uma vez liberto do Egito e tendo recebido sua herança, a antítese estaria penetrando em todos os aspectos da sua vida.

Resumindo, eu saliento que a inimizade, iniciada por Satanás, foi declarada por Deus Yahweh como existente entre a semente de Satanás e os seguidores de Yahweh. Esta inimizade colocou uma divisão bem definida entre as duas sementes. A oposição de uma para com a outra estaria presente e permaneceria. Citada como sendo a antítese, esta oposição é basicamente espiritual, mas graças ao status, ao papel, e às responsabilidades dadas por Deus à humanidade, iria afetar todos os aspectos do cosmos. A antítese terminará quando Deus Yahweh, através da semente da mulher, esmagar completamente Satanás e sua semente e destruir seu reino parasita. Enquanto isto não for realizado, a antítese deve ser reconhecida e tratada por meios espirituais, mas também em todos os aspectos das atividades sociais e cósmicas. Em outras palavras, a antítese não pode ser evitada enquanto os crentes buscam executar seus mandatos espiritual, social e cósmico.

Quando uma consideração séria sobre a antítese é feita, chega-se a perceber que é inevitável refletir sobre os dois reinos. Existe um reino cósmico de Deus Yahweh, estabelecido quando ele criou o universo e colocou Adão e Eva e seus descendentes nele como seus vice-gerentes. Existe o reino de Satanás. É um reino parasita, mas penetra poderosamente e influencia todos os aspectos das dimensões social e cultural do cosmos. O reino satânico foi concebido e trazido à existência em rebeldia contra Deus Yahweh; a pretensão era fazer oposição ao reino de Deus Yahweh, derrotar este reino em todos os aspectos e reivindicá-lo em sua totalidade. Satanás não vai negociar, fazer concessões, ou se render. Ele é totalmente e absolutamente antagonista por natureza. Mas Deus Yahweh não pode ser removido da sua intenção inicial de manter seu reino cósmico e trazê-lo a uma consumação completa e perfeita. Desse modo, na base e no cerne do que é conhecido como a antítese, está a oposição entre o reino de Deus Yahweh e o reino parasita de Satanás. Tanto Deus Yahweh como Satanás reivindicam lealdade total e buscam exercer domínio completo. O reino de Deus Yahweh, no entanto, foi projetado para ser e será um reino eterno. As intenções de Satanás de ter completo domínio não serão levadas a efeito de modo pleno ou conclusivo. Mas, enquanto Deus Yahweh, de acordo com sua vontade soberana, der ao reino de Satanás tempo e amplitude, este reino estará presente, penetrante e influente. Ele será antagônico em todo o tempo e em todos seus empenhos. Enquanto que seja espiritual a natureza fundamental destes reinos (por serem os “reis” espirituais e sua oposição espiritual), eles não são e não podem ser separados dos domínios e dos seguidores que formam estes reinos. O que torna a antítese difícil de ser entendida é que esta oposição basicamente espiritual não é dividida espacialmente. Isto é, Satanás busca reivindicar para si todas as esferas, aspectos, dimensões, forças e materiais do reino cósmico de Yahweh. A oposição espiritual é com relação a todo o cosmos que Deus Yahweh criou e mantém como seu. Ele, declarando que a inimizade foi colocada e seria mantida entre a semente de Satanás e a semente da mulher, revelou que sua oposição a Satanás não só estava presente mas seria mantida até que a semente da mulher, seu meio, esmagasse finalmente e completamente a Satanás, suas coortes, seguidores e os poderes e influências que eles exercem. Desse modo, a antítese envolve Deus Yahweh, Satanás, todas as pessoas, e todas as dimensões do reino cósmico de Yahweh.

A antítese foi demonstrada cedo, de forma trágica, na experiência de Adão e Eva. Quando foram expulsos do jardim do Éden, eles foram impedidos de reivindicar uma vida vitoriosa imediatamente indo à árvore da vida e comendo dela. Fazer isto deveria ter assegurado a eles, por um ato sacramental, a vida eterna. Se tivessem permanecido no Éden e tivessem a vida assegurada, eles teriam escapado da realidade da antítese. Eles não teriam tido envolvimento adicional na oposição espiritual entre Deus Yahweh e Satanás. Mas, expulsos do jardim, Adão e Eva foram trazidos à arena cósmica onde a luta penetrante entre Deus Yahweh e Satanás deveria ser realizada. E lá, eles seriam envolvidos na batalha e na produção dos meios pelos quais a vitória final seria conquistada. Adão e Eva estariam entrando na arena da batalha porque lá, desde a própria concepção, a semente da mulher deveria ser engajada na luta contra Satanás e sua semente. Na arena da batalha cósmica, não dentro de um Éden protegido, a vitória completa seria alcançada.

Depois que Adão e Eva foram trazidos à arena da batalha cósmica, eles obedeceram ao mandato social. Eles foram frutíferos; tiveram filhos e filhas. O nascimento do primeiro filho deu a Eva a oportunidade de expressar sua aceitação da promessa de vida de Deus Yahweh (Gn 4.1). Esta declaração deveria ser considerada, também, como a declaração de submissão de Eva a Deus Yahweh. Ela, assim como Adão havia feito (Gn 3.20), declarou qual o lado que tomava na oposição. Mas Satanás não concedeu a vitória.

Caim, a primeira semente nascida da mulher, foi desafiado a confrontar o fato da antítese. Seu irmão Abel indicou sua submissão a Deus Yahweh através de sua oferta de um sacrifício aceitável (Gn 4.4). Caim, pode se concluir, tentou ignorar a antítese; ou poderá ser dito que ele tentou pôr um pé de cada lado sobre o abismo intransponível envolvido na antítese. Ele, em uma mostra de submissão a Deus Yahweh, trouxe um sacrifício assim como Abel havia feito. Mas seu sacrifício não foi recebido favoravelmente (Gn 4.5). A Escritura é definitiva ao expressar quando e por que Deus rejeita sacrifícios. Os sacrifícios que Davi quisesse oferecer quando, no coração, não estava arrependido não seriam aceitos (Sl 51.16-19; também Is 1.10-17; 66.3; Jr 7.21-23; Os 6.6,7; Am 5.14, 15, 21, 22; Mq 6.6-8; Mt 9.13; 12.7; Fp 4.18). Caim indicou que não estava inclinado a se humilhar diante de Yahweh e confessar sua ira pecaminosa e desalento (Gn 4.6-7). Deus Yahweh não rejeitou a Caim completamente; com a misericórdia e a graça comum, Deus Yahweh lhe falou, advertindo-o da sua condição espiritual. De fato, Deus Yahweh avisou Caim de que ele estaria em oposição a ele se não se arrependesse (Gn 4.7). Caim, no entanto, premeditadamente, convidou Abel a ir com ele ao campo e lá, então, o assassinou (Gn 4.8). Caim deu evidência clara da sua oposição a Deus Yahweh e seu alinhamento com Satanás. Sua ira, abatimento, e assassinato do irmão indicaram que ele estava do lado anti-Deus da antítese. Ele era súdito do reino parasita de Satanás.

A participação de Caim no reino parasita e seu serviço a ele colocaram-no espiritualmente antitético ao reino de Yahweh. Mas ele não foi removido do cosmos. Como discutido acima, a graça comum foi-lhe concedida. Ele, como portador da imagem de Deus Yahweh, ainda era capaz de ser envolvido na realização do mandato social e cultural. Desse modo, ele tinha uma arena comum para os interesses e empreendimentos sociais e culturais com Adão, Eva, Sete e sua descendência. Mas dentro da arena comum, o abismo intransponível existia - de um lado, fé, obediência e adoração a Deus Yahweh e, do outro, a sujeição a Satanás e a conservação intencional de um coração pecaminoso.

É o momento para os comentários finais. O protoevangelho incluiu a confirmação de Deus Yahweh de que a inimizade dividiria a humanidade e que os grupos opositores dentro da humanidade seriam tão antitéticos um ao outro como Deus Yahweh era a Satanás. O protoevangelho também incluiu uma declaração definitiva a respeito do envolvimento da humanidade na situação antitética. Receber a graça e a misericórdia salvadoras envolveria receber uma “ferida no calcanhar” à medida que a maldição mitigada sobre Adão, Eva e o solo era executada. E o protoevangelho proclamava a vitória certa da semente da mulher e a continuidade assegurada do reino cósmico de Deus Yahweh, dentro do qual o reino parasita de Satanás existiria e seria ativo. O protoevangelho também implicava aquilo que seria o fator principal no curso assegurado da história - a tensão, a batalha, e o resultado da história que Deus determinava.

A Perspectiva Escatológica

Os comentários finais da parte II acima introduziram materialmente o que se há de entender por perspectiva escatológica. Tendo em vista minha intenção de enfatizar a escatologia do Antigo Testamento, em poucas palavras ampliarei (ou repetirei) o que foi logo antes afirmado explicitamente, ou não explicitamente.

No cap 1, discuti a motivação de Deus Yahweh para a criação e o escaton da criação. O Criador nunca mudou sua motivação ou sua intenção. É verdade que a motivação veio a incluir sua misericórdia e graça quando a rebelião e o pecado entraram no cosmos. Sua meta, o escaton, também não sofreu alteração. A consumação intencionada seria alcançada. Novamente, os esforços satânicos e a intrusão do pecado moveram Deus Yahweh a estabelecer seu pacto redentor, através do qual o pacto original inerente e integral à criação poderia ser mantido, executado e consumado como pretendido inicialmente. De fato, o escaton de Deus Yahweh veria um reino cósmico totalmente desenvolvido e consumado.

Duas facetas importantes da perspectiva escatológica devem ser consideradas. Em primeiro lugar, devem ser mantidas em mente as forças constituintes básicas que operam no curso da história à medida que ela prossegue para a consumação.

As maldições de Deus Yahweh sobre Satanás, sua semente, sobre Adão, Eva, sua semente e sobre o cosmos como um todo estarão presentes e influentes. Em tensão com essas maldições absolutas e mitigadas estão a retidão, a justiça, a hesed (fidelidade misericordiosa/pactual), e a graça de Deus Yahweh.

Deus Yahweh continuará a ser o mantenedor e governador soberano do reino cósmico. Satanás e suas coortes continuarão em oposição a Deus Yahweh; sua derrota é certa, mas seus esforços para se opor a Deus Yahweh e frustrar os propósitos dele nunca cessarão.

A semente da mulher, i.e., o povo regenerado, obediente, crente, servidor, continuará como vice-gerentes no reino cósmico. Essa semente sofrerá oposição constante da semente humana de Satanás. Vem daí que uma oposição forte e duradoura, i.e., a antítese, será apresentada através do curso da história. Os dois grupos humanos antitéticos não serão separados espacialmente, geograficamente. Existirão juntos dentro do cosmos. Seus corações, devoção, orientação e direção serão absolutamente antitéticos. Não existirá uma base em comum, um meio termo, a esse respeito. A inimizade, proclamada e mantida por Deus Yahweh, caracterizará a antítese no seu nível mais fundamental. Mas, de acordo com a intenção e o propósito de Deus Yahweh, esta inimizade não deverá retardar ou impedir a semente da mulher de chamar ao arrependimento, de fazer o convite a unir-se na comunhão abençoada com Deus Yahweh e no serviço a ele, e de envidar esforços para ser um canal de bênçãos pactuais à semente humana de Satanás.

O reino cósmico de Deus Yahweh permanecerá firme sob seu reinado soberano. O reino parasita de Satanás continuará a existir dentro dele. Estará em oposição constante ao único ambiente apropriado no qual ele pode existir. Estes são os dois únicos reinos que as Escrituras nos permitem considerar. Os reinos humanos (ou governos de quaisquer tipos) serão reflexos, símbolos, representações imperfeitas de um dos dois reinos. Como será discutido mais tarde, quase todos os reinos humanos refletirão ou simbolizarão o reino parasita em muito maior extensão do que o reino de Deus Yahweh. Na verdade, será visto que os membros do reino de Deus Yahweh serão envolvidos como estrangeiros e peregrinos no mundo por causa do domínio destes reinos/governos que refletem e simbolizam o domínio parasita de Satanás.

A segunda faceta da perspectiva escatológica são os termos que Deus Yahweh já revelou. A humanidade pecaminosa deve continuar a ser obediente aos mandatos pactuais da criação: o espiritual, o social e o cultural. Esta obediência envolverá suor, frustração, tristeza, dor, enfim, sofrimento. A lealdade a Deus Yahweh será uma “experiência machucadora” por causa da maldição mitigada que Deus Yahweh pronunciou e os esforços sem fim e obstinados de Satanás, suas coortes e seguidores.

Os termos incluem o reconhecimento da inimizade que Satanás iniciou e Yahweh proclamou como estabelecida até a consumação. Haverá uma luta; serão travadas muitas batalhas de vários tipos. As linhas de frente já foram determinadas por Deus Yahweh e precisam ser reconhecidas, mantidas e nunca comprometidas. A inimizade será penetrante, afetando todas as dimensões do cosmos e da vida dentro dele.

Não existirá nenhuma transigência. Pois transigir seria ignorar a natureza da inimizade e seu correlato, a antítese. Portanto, não existirá rendição. O que vai haver, entretanto, será a expectativa, a crença, a esperança da vitória para os vice-gerentes pactuais obedientes e fiéis de Deus Yahweh.

Concluindo, Deus Yahweh continuou o processo da história quando o pecado entrou. Ele revelou as forças envolvidas. Ele revelou os termos. Ele revelou que seu escaton pretendido seria realizado. Assim como o escaton foi embutido no seu pacto da criação, assim a consumação vitoriosa é embutida no pacto redentor. O protoevangelho nos assegura disto. Mas Deus Yahweh não incluiu uma referência ao tempo que levará para realizar a consumação

Nessa aula, devido ao seu tamanho, não temos leituras complementares.

 

I. A Revelação Divina do Protoevangelho
A.O Texto: Gênesis 3.8-4.25
1. A Abordagem de Yahweh
2. Maldições Pronunciadas
3. Certezas Dadas
4.Respostas Humanas
B. A Revelação das Virtudes de Yahweh
1. Integridade e Justiça
2. Hesed: Misericórdia/Pacto/Fidelidade
3. Hen: Graça
a) Redentora
b) Soberana
c) Comum
C. A Necessidade da Revelação
1. O Status Finito da Humanidade
2. A Condição Pecaminosa da Humanidade
3. Circunstâncias Diferenciadas
 II. O Estabelecimento da Antítese
A. O Conceito: Antítese
B. Inerente no Protoevangelho
C. Dois Reinos: Soberano e Parasita
D. Expressa Divinamente no Termo Inimizade
E.Evidenciada na Experiência Humana--Caim versus Abel
III.A Perspectiva Escatológica
A. As Forças Básicas Constitutivas
1. As Maldições
2. Yahweh versus Satanás
3. A Semente da Mulher versus a Semente de Satanás
4. O Reino Cósmico versus o Reino Parasita
B. Os Termos Estabelecidos
1. Sofrimento
2. Linhas de Batalha
3. Não Rendição mas Vitória

12.1. Orare et Labutare: A Hermenêutica Reformada das Escrituras

Orare et Labutare:
A Hermenêutica Reformada das Escrituras

Paulo R. B. Anglada

Orare e labutare foram palavras empregadas por Calvino para resumir a sua concepção hermenêutica. Com estes termos ele expressou a necessidade de súplica pela ação iluminadora do Espírito Santo e do estudo diligente do texto e do contexto histórico, como requisitos indispensáveis à interpretação das Escrituras. Com o mesmo propósito, Lutero empregou uma figura: um barco com dois remos, o remo da oração e o remo do estudo. Com um só destes remos, navega-se em círculo, perde-se o rumo, e corre-se o risco de não chegar a lugar algum.

Palavras e figuras como estas revelam a consciência que os reformadores tinham do caráter divino-humano das Escrituras e o equilíbrio fundamental que caracteriza a hermenêutica reformada da Palavra de Deus.

O mesmo não ocorre hoje. O evangelicalismo brasileiro parece estar vivendo dias difíceis. Quando se considera a diversidade doutrinária e prática que, em geral, caracteriza as igrejas evangélicas no nosso país, talvez não seja descabido questionar até mesmo se o termo "evangélico" ainda tem algum sentido, se ainda se presta para distinguir um grupo definido de pessoas dentro da igreja cristã.

Pode haver muitas razões para tal estado de coisas. Mas, sem dúvida, a rejeição da sã doutrina é uma delas. Na prática, as igrejas evangélicas em geral não têm professado teologia precisa, sistemática, confessional e histórica. Mesmo as denominações mais tradicionais parecem estar se distanciando progressivamente das doutrinas e práticas reformadas que caracterizavam as igrejas protestantes do passado, e pelas quais muitos chegaram a dar suas vidas.

É convicção deste autor que boa parte desta descaracterização teológica e eclesiástica das igrejas evangélicas no nosso país se explica pelas hermenêuticas deficientes que têm regido a interpretação e pregação da Palavra de Deus. Também é convicção deste autor que a hermenêutica reformada das Escrituras é um modelo de interpretação bíblica capaz de promover, com a graça de Deus, a reforma teológica, litúrgica e eclesiástica que o evangelicalismo brasileiro necessita. Este é o assunto deste artigo.

I. Delimitação do Assunto

O termo hermenêutica tem sido empregado em dois sentidos. Historicamente, nos compêndios clássicos de interpretação bíblica, designa a disciplina que, partindo de pressupostos básicos, estuda e sistematiza a teoria da interpretação das Escrituras, enquanto a exegese designa a prática. Neste sentido, o objetivo da hermenêutica é descobrir e sistematizar os princípios e métodos apropriados para a compreensão do sentido que o autor intentou transmitir aos seus leitores originais.

Mais recentemente, entretanto, estes termos têm sido usados com sentidos diferentes: exegese, para designar o estudo das Escrituras com vistas a descobrir o sentido original pretendido pelo autor, e hermenêutica, no sentido restrito da sua contemporaneidade. Ou seja, a exegese seria uma primeira tarefa histórica pela qual se busca compreender o que os leitores originais entenderam; enquanto que a hermenêutica seria uma tarefa teológica prática e posterior, na qual se busca compreender a relevância da sua mensagem para nós, hoje, no nosso contexto específico.

Neste artigo estes termos são usados no sentido histórico mais comum: hermenêutica, designando a disciplina que estuda e sistematiza os princípios e técnicas, com as quais, partindo de determinados pressupostos, se busca compreender o sentido original do texto bíblico; exegese, designando a prática destes princípios e técnicas; e aplicação, designando a busca da relevância do texto ao nosso contexto específico. Isto é: tendo compreendido qual a mensagem do texto para os seus leitores originais, em que sentido esta mensagem é aplicável aos nossos dias e ao nosso contexto?

Convém esclarecer também que o termo reformada, não é empregado neste artigo para designar especificamente a hermenêutica dos reformadores. Não se pretende aqui fazer uma descrição específica e detalhada da hermenêutica desenvolvida e praticada por Lutero, Melanchton, Calvino e outros. O termo também não se refere à denominação reformada (ramo da reforma como ficou conhecido especialmente na Europa). O termo hermenêutica reformada, neste trabalho, refere-se a uma corrente ou escola de interpretação bíblica histórica, distinta de outras correntes, fundamentada em pressupostos bíblicos quanto à natureza das Escrituras, e que emprega princípios e métodos específicos. Trata-se de uma escola ou corrente de interpretação que adota o método histórico-gramatical, em contraposição aos métodos intuitivos (da corrente espiritualista) e histórico-crítico (humanista) de interpretação bíblica.

Com a expressão hermenêutica reformada, quer-se designar neste artigo o modelo de interpretação bíblica defendida e aplicada pelos reformadores, pelos principais símbolos de fé protestantes (inclusive batista2), pelos puritanos ingleses, pelos huguenotes franceses, e pelas igrejas evangélicas ortodoxas em geral até os nossos dias. Esta corrente de interpretação poderia ser chamada de hermenêutica protestante ou hermenêutica evangélica. Mas, ao que parece, estes termos já não caracterizam muita coisa — pelo menos no campo da hermenêutica —, pois englobam, sem qualquer distinção, defensores e praticantes de todas as correntes de interpretação bíblicas: desde a corrente espiritualista (intuitiva) até a corrente humanista (histórico-crítica).

II. Importância do Assunto

A importância do assunto dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a base teórica da exegese, que, por sua vez, é o alicerce tanto da teologia (quer bíblica, quer sistemática) como da pregação. O diagrama a seguir ilustra estas relações:

Parece que, atualmente, pelo menos no Brasil, estas disciplinas têm sido parcialmente relegadas por alguns segmentos evangélicos a um segundo plano. Exegese, doutrina e pregação têm sido substituídas por coisas ‘‘mais práticas’’ (tais como a ação social, o engajamento político, a administração eclesiástica, o evangelismo, a liturgia, as exortações morais, etc.). Quando não se nega a importância da exegese, da doutrina e da pregação, na teoria, nega-se na prática.

Convém observar, entretanto, que o apóstolo Paulo exorta Timóteo a cuidar ‘‘de si mesmo e da doutrina’’, de modo que possa ser ele mesmo salvo bem como os seus ouvintes (1 Tm 4.16). Ele o admoesta a apresentar-se a Deus ‘‘aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade’’ (2 Tm 2.15). E afirma que devem ‘‘ser considerados merecedores de dobrados honorários (ou honra) os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na Palavra e no ensino’’ (1 Tm 5.17).

Não se pode esquecer de que ‘‘aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação’’ (1 Co 1.21); e de que ‘‘a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo’’ (Rm 10.17).

A importância da doutrina é vista especialmente nas cartas do apóstolo Paulo e no tratamento que faz da questão da justificação pela fé na carta aos Gálatas. Nem a Igreja de Corinto, com todos os seus problemas morais, foi tão duramente tratada pelo apóstolo quanto as igrejas da Galácia, em função do seu desvio doutrinário.

A verdade de Deus expressa em sua Palavra é o instrumento empregado pelo Espírito Santo para salvar e santificar. São ‘‘as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus’’, e fazer com que ‘‘o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra’’ (2 Tm 3.15,17).

Richard Baxter, um dos puritanos mais conhecidos do século XVII, foi o instrumento nas mãos de Deus em um reavivamento na sua cidade. Autor de dezenas de obras, a maioria de cunho prático, usou uma figura para expressar a relação entre a verdade da Palavra e a santidade. Eis suas palavras:

...as verdades de Deus são os próprios instrumentos da santificação de vocês; essa santificação é o resultado produzido por essas verdades sobre o entendimento e a vontade de vocês. As verdades são o selo e a alma de vocês é a cera; a santidade, é a impressão feita. Se vocês receberem apenas algumas verdades, terão apenas uma impressão parcial... Se vocês as receberem de modo desordenado, a imagem que produzirão nas almas de vocês será igualmente desordenada; como se os membros dos corpos de vocês fossem unidos de modo monstruoso.3 

Aí está a importância da hermenêutica: ela é a base teórica da exegese, que por sua vez é o fundamento da teologia e da pregação, das quais depende a saúde espiritual da igreja, e da nossa própria vida. Uma hermenêutica deformada fatalmente resultará em exegese deformada, produzirá teologia e pregação deformadas, e se manifestará tragicamente em igrejas e vidas deformadas.

III. Necessidade da Hermenêutica

Todo leitor é um intérprete. Mas ler não implica necessariamente em entender. Quando não há barreiras na compreensão de um texto, a interpretação é automática e inconsciente. Mas isso nem sempre ocorre. De conformidade com a doutrina reformada da clareza ou perspicuidade das Escrituras, a Bíblia é substancialmente, mas não completamente clara. As verdades básicas necessárias à salvação, serviço e vida cristã são evidentes em um ou outro texto, mas nem todos os textos das Escrituras são igualmente claros.

Por ser um livro divino-humano, inspirado por Deus, mas escrito por homens, admite-se que há dificuldades de ordem espiritual e de ordem humana para a compreensão das Escrituras. O apóstolo Pedro reconheceu essa dificuldade com relação aos escritos do apóstolo Paulo, dizendo que neles ‘‘há certas coisas difíceis de entender...’’ (2 Pe 3.16).

Isto significa que a compreensão das Escrituras não é necessariamente automática e espontânea. É, sim, o resultado da ação iluminadora do Espírito Santo, por um lado, e por outro, do estudo diligente da língua e do contexto histórico em que foi escrita.

A. Dificuldades de Ordem Espiritual

O aspecto espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é demonstrado claramente em passagens bíblicas tais como 1 Coríntios 2.14 e 2 Coríntios 4.3-6:

Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, por que lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.

...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.

Nestes textos o apóstolo Paulo ensina claramente a absoluta incapacidade do homem natural (não regenerado) de compreender a revelação de Deus. A razão desta incapacidade é a cegueira espiritual em que se encontra como resultado da queda do homem do seu estado original, e da ação diabólica. E a cura desta cegueira não é intelectual, mas espiritual. Só o Espírito Santo pode fazer resplandecer a luz do Evangelho da glória de Cristo num coração em trevas.

Outro texto que demonstra o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é 2 Coríntios 3.14-15. Neste texto o apóstolo Paulo explica que os judeus tinham como que um véu embotando os seus olhos espirituais, de modo que não podiam compreender o significado do que liam, por causa da incredulidade:

Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que em Cristo é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.

Como este véu pode ser retirado? Pela conversão, responde o apóstolo no verso seguinte: ‘‘Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu é retirado.’’Na carta aos Efésios, o apóstolo Paulo ensina a mesma coisa com relação aos gentios:

...não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações (Ef 4.17-18).

A ação iluminadora do Espírito Santo é, portanto, indispensável na interpretação e apreensão do ensino das Escrituras. A erudição piedosa é preciosa e indispensável para a preservação da sã doutrina. Um erudito, por mais bem equipado que esteja hermeneuticamente, desprovido, porém, da ação regeneradora e iluminadora do Espírito, possivelmente não alcançará o sentido da Escritura tanto quanto um crente simples e fiel, mesmo que indouto em métodos e técnicas de interpretação.

Mesmo o crente precisa da ação iluminadora contínua do Espírito Santo para progredir na compreensão das Escrituras. Seu coração não está embotado como o dos judeus descrentes; nem seu entendimento está obscurecido, como o dos gentios incrédulos. Mas ainda há muito a compreender; e a ação iluminadora do Espírito Santo permanece indispensável. Com esse propósito o apóstolo Paulo orava insistentemente pelos crentes, a fim de que Deus lhes iluminasse mais e mais, para compreenderem mais profundamente a natureza do evangelho e a suprema riqueza da sua graça. Eis um exemplo apenas na carta aos Efésios:

...não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos... (Ef 1.16-19).

Textos como este revelam o papel do Espírito Santo e da fé na compreensão das verdades espirituais. A interpretação e compreensão das Escrituras torna-se essencialmente uma tarefa espiritual — embora não rejeitando habilidades naturais ou técnicas.

B. Dificuldades Naturais

Deve-se observar, entretanto, que as Escrituras também revelam, por ensino direto e por inúmeros exemplos, que o coração do homem é mais enganoso do que todas as coisas e desesperadamente corrupto (Jr 17.9), não sendo, portanto, totalmente confiável. Além disso, não existe somente o Espírito da verdade; há também o espírito do erro (1 Jo 4.6). O pai da mentira está sempre pronto a enganar, se possível for, até os eleitos. Logo, o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras não elimina, de modo algum, o lado humano, também necessário para a sua correta interpretação e compreensão. Afinal, é pela própria Palavra, e através da Palavra, que o Espírito Santo realiza essa obra iluminadora.

Por haver sido escrita em línguas humanas, em contextos históricos, sociais, políticos e religiosos específicos, um conhecimento adequado da língua e do contexto histórico também é necessário para uma melhor interpretação e compreensão das Escrituras. Deve-se lembrar também que o ministro da Palavra é aquele que se afadiga no estudo dela (1 Tm 5.17). Logo, para uma interpretação e compreensão adequada das Escrituras, fazem-se necessários requisitos de natureza espiritual, bem como requisitos de natureza intelectual. Ambos são necessários e imprescindíveis.

IV. Principais Correntes de Interpretação

As classificações normalmente pecam pelo simplismo. É de fato difícil resumir e agrupar adequadamente as diversas ênfases, tendências, princípios e práticas de uma determinada área de estudos, sem negligenciar peculiaridades importantes. Com a hermenêutica não é diferente. Contudo, observando as diferentes ênfases, tendências, princípios e práticas de interpretação das Escrituras adotados no curso da história da Igreja, pode-se perceber pelo menos três correntes gerais nas quais as diversas escolas podem ser de certo modo agrupadas:

A. Corrente Espiritualista

Muitos grupos na história da interpretação bíblica se caracterizaram por superenfatizar o caráter espiritual (místico) das Escrituras, em detrimento do seu caráter humano. Esta corrente distingue-se especialmente pela insatisfação generalizada com o sentido natural, literal das Escrituras. Dois dos textos mais explorados são 2 Coríntios 3.6: ‘‘...a letra mata, mas o Espírito vivifica’’ e 1 Coríntios 2.7: ‘‘...falamos a sabedoria de Deus em mistério’’. O maior perigo dessa corrente de interpretação é o subjetivismo e o misticismo. Nenhuma das duas passagens mencionadas prescreve a supremacia de sentidos "espirituais" e ocultos da Escritura sobre sentidos naturais e óbvios. 2 Coríntios 3.6 faz um contraste entre os dois ministérios ou alianças exercidos por Moisés e por Cristo; 1 Coríntios 2.7 trata do mistério de Deus, que é Cristo, mistério agora revelado. Nada há nestas passagens que exaltem sentidos ocultos da Escritura, disponíveis apenas aos "espirituais" ou avançados. Alguns sistemas hermenêuticos pertencentes à corrente espiritualista são descritos abaixo.

1. A Hermenêutica Alegórica

Trata-se de um dos métodos de interpretação mais antigos. Fortemente influenciados pelo platonismo e pelo alegorismo judaico, os defensores desse método de interpretação atribuíam diversos sentidos ao texto das Escrituras, enfatizando o sentido chamado de alegórico.

Clemente de Alexandria (†215) e Orígenes (†254) são os dois principais nomes da escola alegórica de Alexandria, no Egito. Clemente identificava cinco sentidos para um dado texto das Escrituras: 1) histórico, 2) doutrinário, 3) profético, 4) filosófico e 5) místico. Orígenes distinguia três níveis de sentidos: 1) o literal, ao nível do corpo, 2) o moral, ao nível da alma, e 3) o alegórico, ao nível do espírito.

A hermenêutica alegórica prevaleceu durante toda a Idade Média, especialmente em sua forma quádrupla. Sua origem é provavelmente o sistema hermenêutico de Agostinho. Segundo este método, as passagens das Escrituras teriam quatro sentidos: um sentido literal, e três sentidos espirituais: moral, alegórico e anagógico. O sentido literal seria o registro do que aconteceu (o fato); o sentido moral conteria uma exortação quanto à conduta (o que fazer); o sentido alegórico ensinaria uma doutrina a ser crida (o que crer); e o sentido anagógico apontaria para uma promessa a ser cumprida (o que esperar). Assim, uma referência bíblica sobre a água, teria um sentido literal (a água), um sentido moral (exortação a uma vida pura), um sentido alegórico (o sacramento do batismo), e um sentido anagógico (a água da vida na Nova Jerusalém).

Este método pode fornecer esplêndidas interpretações, mas rouba o real significado do texto, desviando a atenção do leitor do seu verdadeiro sentido, que o Espírito Santo intentou transmitir.

O caráter fantasioso deste método de interpretação fica manifesto na conhecida interpretação alegórica de Orígenes5  da parábola do bom samaritano (Lc 10.30-37). Segundo ele, o homem atacado pelos ladrões simbolizava Adão (a humanidade); Jerusalém, os céus; Jericó, o mundo; os ladrões, o diabo e suas hostes; o sacerdote, a lei; o levita, os profetas; o bom samaritano, Cristo: o animal sobre o qual foi colocado o homem ferido, o corpo de Cristo (que suporta o Adão caído); a estalagem, a igreja; as duas moedas, o Pai e o Filho; e a promessa do bom samaritano de voltar, a segunda vinda de Cristo.

Outro exemplo do caráter fantasioso desse método de interpretação pode ser percebido nas diferentes interpretações alegóricas atribuídas às duas moedas mencionadas nessa parábola: o Pai e o Filho, o Antigo e o Novo Testamento, os dois mandamentos do amor (a Deus e ao próximo), fé e obras, virtude e conhecimento, o corpo e o sangue de Cristo, etc.

2. A Hermenêutica Intuitiva

Muitos são consciente ou inconscientemente adeptos desta corrente de interpretação bíblica. Também chamados de impressionistas,7  os hermeneutas intuitivos caracterizam-se por identificar a mensagem do texto com os pensamentos que lhes vêm à mente ao lê-lo, sem contudo dar a devida atenção à gramática, ao contexto e às circunstâncias históricas, geográficas, culturais, religiosas, etc. Um passo adiante estão os místicos, que aqui e ali aparecem na história da igreja, com a sua ênfase na iluminação interior. Uma versão moderna do método de interpretação intuitiva pode ser verificada na prática de abrir as Escrituras ao acaso para pregar ou encontrar uma mensagem para uma ocasião específica, sem o devido estudo do texto e do seu contexto histórico.

3. A Hermenêutica Existencialista

Há uma escola contemporânea de interpretação das Escrituras que enfatiza excessivamente o conhecimento subjetivo em detrimento do seu sentido gramatical e histórico. Trata-se da assim chamada nova hermenêutica, que nada mais é do que um desenvolvimento dos princípios hermenêuticos de Bultmann, com sua ênfase na relevância da mensagem do Novo Testamento para o homem contemporâneo.

Para Bultmann e para a nova hermenêutica — reconhecidamente influenciados pela filosofia existencialista de Martin Heidegger — o importante não é a intenção do autor, nem o que o texto falou aos seus leitores originais, mas o que fala a nós, hoje, no nosso contexto: esse é o sentido do texto. Para a hermenêutica existencialista o importante mesmo não é o texto, mas o que está por trás dele. Não interessa tanto o que o texto diz (historicamente), mas o que ele quer dizer (existencialmente). Logo, as Escrituras só serão interpretadas realmente se lidas existencialmente, se forem experimentadas. Ou seja, as Escrituras não são objetivamente a Palavra de Deus, elas se tornam Palavra de Deus, quando nos falam subjetivamente.

Talvez as principais críticas à hermenêutica existencialista sejam que ela rejeita o elemento sobrenatural das Escrituras (milagres, encarnação, ressurreição, etc.) como sendo mitos, e que torna subjetivo o conceito de Palavra de Deus, com sua ênfase existencialista. Com isso, ela esvazia a mensagem bíblica e, assim como o método alegórico e o método intuitivo, abre espaço para se ler no texto quaisquer idéias ou conceitos originados na mente do leitor.

B. Corrente Humanista

No extremo oposto da corrente espiritualista encontra-se a corrente que se pode chamar de humanista. Esta corrente caracteriza-se por dar ênfase excessiva ao caráter humano das Escrituras e por uma aversão ao seu caráter sobrenatural. A ênfase dessa corrente está no método, na técnica, nos aspectos literários ou históricos das Escrituras, em detrimento do seu caráter divino, espiritual e sobrenatural.

1. Precursores

Os saduceus, com o seu repúdio à doutrina da ressurreição e descrença na existência de seres angelicais, podem ser considerados como precursores dessa corrente de interpretação das Escrituras. Pouco se sabe sobre a origem desse partido judaico, mas parece haver adotado uma posição secular-pragmática de interpretação das Escrituras.10  Ao negarem verdades básicas das Escrituras, os saduceus podem ser considerados, guardadas as devidas proporções, como os modernistas ou liberais da época.11 

2. Humanismo Renascentista

Os humanistas renascentistas, com seu interesse meramente literário e acadêmico nas Escrituras, e com sua ênfase na moral, também podem ser incluídos nesta corrente de interpretação bíblica. Alguns se dedicaram ao estudo das Escrituras, outros chegaram até a editar textos bíblicos na língua original. Mas o interesse deles era meramente acadêmico, lingüístico, literário e histórico. Estavam interessados nas Escrituras por sua antigüidade e não por serem a Palavra de Deus.

3. Escola Crítica

A escola mais característica e influente desta corrente de interpretação bíblica é a escola crítica, com o seu método histórico-crítico. Uma das razões para o surgimento do método histórico-crítico parece ter sido ‘‘a pretensão de tornar científicos os estudos bíblicos, ou seja, faze-los compatíveis com o modelo científico e acadêmico da época.’’12  E o resultado desta nova postura para com as Escrituras (crítica, ao invés de gramatical) foi o liberalismo teológico que tem assolado a Igreja desde o século passado.

Trata-se sem dúvida de uma hermenêutica racionalista. Ao invés da revelação governar a razão, a razão é que determina a revelação. A razão e o intelecto passaram a ser determinantes, sendo rejeitado como erro, fábula ou mito tudo o que não puder ser explicado ou harmonizado com a razão.

Os adeptos desta corrente rejeitam as doutrinas reformadas das Escrituras, tais como inspiração, autoridade, inerrância, e preservação; enfatizam a moralidade e descartam o sobrenatural. Sob forte influência do evolucionismo de Darwin e da dialética de Hegel, as Escrituras deixaram de ser vistas como a Palavra de Deus inspirada na qual ele se revela ao homem, passando a ser considerada ‘‘como um registro do desenvolvimento evolucionista da consciência religiosa de Israel (e mais tarde da Igreja)’’.13  O conceito liberal de inspiração das Escrituras só é objetivo no sentido de as Escrituras serem o objeto da inspiração. No mais, é subjetivo: elas são o sujeito: elas é que inspiram, com o ‘‘seu poder de inspirar experiências religiosas’’.14 

Na prática, portanto, a principal característica da escola crítica de interpretação é o pressuposto de que as Escrituras devem ser estudadas do mesmo modo que as demais literaturas antigas, pelo emprego das mesmas metodologias. Esta postura, crítica, com sua ênfase apenas no caráter humano das Escrituras, resultou em uma série de metodologias críticas de caráter histórico ou lingüístico que vêm sendo empregadas na interpretação das Escrituras.

A crítica ou história da tradição é uma dessas metodologias, cuja pretensão é ‘‘descobrir a história percorrida por determinado trecho, no âmbito da tradição oral, ou seja, na fase anterior à sua fixação literária mais antiga’’.15  Isto é: estudar como os eventos históricos e ensinos originais de Jesus teriam dado origem às diversas formas de tradições orais até o seu registro escrito. Seu propósito é ‘‘destradicionalizar’’ (semelhante à desmitologização de Bultmann) os Evangelhos, em busca do ‘‘fato’’ ou ensino ‘‘original’’.16 

A crítica da forma é outra metodologia crítica. Sua pretensão é classificar os escritos do Novo Testamento em gêneros literários e identificar as tradições que teriam dado origem às fontes empregadas pelos autores do Novo Testamento. Segundo os teóricos da crítica da forma,17  os evangelhos provém de tradições orais não cronológicas existentes (chamadas de paradigmas, novelas, lendas, mitos e exortações). Posteriormente essas tradições orais teriam sido organizadas em relatos cronológicos escritos que foram empregados pelos evangelistas. Mas a teoria é extremamente especulativa, visto que não explica como esses gêneros teriam surgido e se desenvolvido. Além disso, não existe registro histórico dessas supostas coleções não cronológicas.18

Outra metodologia desenvolvida pela escola crítica de interpretação é a crítica das fontes. De acordo com esta teoria há muito pouco nos evangelhos (especialmente nos sinópticos) originário dos evangelistas. Eles teriam sido mais coletores e editores dos diversos relatos (tradições escritas) existentes sobre a vida de Jesus do que propriamente autores. A teoria se baseia nas palavras de Lucas no início do seu evangelho (cf. Lc 1.1,3), e na observação de que os evangelhos de Mateus e Lucas normalmente concordam literalmente com o evangelho de Marcos (ambos ou cada um isoladamente), enquanto que raramente concordam entre si, quando discordam de Marcos. A conclusão mais comum a que se chegou é que Mateus e Lucas foram copiados de Marcos (quando concordam com ele) e de outra suposta fonte chamada "Q", quando concordam entre si, mas discordam de Marcos.

Não há, contudo, concordância entre os críticos da forma. As evidências internas (baseadas em supostas inconsistências cronológicas, estilísticas, teológicas e históricas) a favor dessa teoria são bastante limitadas, subjetivas, ambíguas e contraditórias com as evidências externas (afirmativas dos pais da igreja que apontam de modo unânime em direção oposta).19  Muitas outras possibilidades tornam qualquer conclusão extremamente incerta. Marcos poderia ter usado Mateus e Lucas; os três evangelistas podem ter usado as mesmas fontes; Jesus pode ter repetido ensinos e parábolas com palavras diferentes em ocasiões diferentes, etc. A verdade é que não se sabe com exatidão como os evangelistas escreveram seus evangelhos.

Parece evidente que pelo menos um, Lucas, lançou mão de algumas fontes, mas conforme ele mesmo afirma, ele e suas fontes basearam-se no que lhes transmitiram ‘‘testemunhas oculares’’ dos acontecimentos (Lc 1.2). Entretanto, não há meios de saber concretamente que fontes foram estas e até que ponto e como as usaram. Isso torna a crítica da forma necessariamente especulativa. De concreto, mesmo, têm-se os Evangelhos, como Palavra de Deus escrita por homens inspirados (movidos) pelo Espírito Santo, fundamentados no que testemunharam e no testemunho de outras testemunhas oculares, e, portanto, fidedignas.

Além dessas metodologias, há também a crítica da redação, que se propõe a estudar como os evangelistas teriam usado (editado) as suas supostas fontes na composição dos evangelhos; isto é, que mudanças peculiares (ou contribuições) teriam sido introduzidas pelos evangelistas às fontes que usaram, e com que propósito (especialmente teológico).20  Mas, a que conclusões seguras se pode chegar com a crítica da redação, se nem mesmo há certeza alguma com relação ao uso das fontes?

Por fim, pode ser mencionado o criticismo histórico. Sua pretensão é avaliar a historicidade das narrativas bíblicas, ou, como escreve Marshall, ‘‘...testar a precisão do que se propõe ser uma narrativa histórica.’’21  Mas este propósito não é somente pretensioso (inconsistente do ponto de vista bíblico); é também tendencioso, na medida em que explora as aparentes contradições internas (especialmente entre as passagens paralelas dos evangelhos) e externas (com fontes seculares e históricas); e encara os relatos de ocorrências sobrenaturais por uma perspectiva altamente especulativa. Assim, o criticismo histórico não vê os textos paralelos como complementares, mas como contraditórios; atribui às fontes seculares autoridade superior à das Escrituras; rejeita as intervenções sobrenaturais; e considera muitas narrativas históricas como invenção da igreja, novelas ou mitos.

 

Os resultados de todas estas metodologias críticas são inseguros, questionáveis e dúbios, e sua aplicação prática extremamente limitada (se possível). São hipóteses construídas sobre especulações infrutíferas que não contribuem em praticamente nada para a compreensão do texto do Novo Testamento, a não ser para lançar dúvidas sobre a sua inspiração, autoridade e inerrância.22

Não obstante, parece que a corrente humanista de interpretação das Escrituras tem começado a prevalecer em um número considerável de seminários teológicos no nosso país. A ênfase hermenêutica destes seminários está no método, na técnica, nos aspectos literários ou históricos das Escrituras, em detrimento do seu caráter divino, espiritual e sobrenatural. A metodologia predominante tem sido o método histórico-crítico. E, em virtude da impossibilidade de conciliar este método com as doutrinas bíblicas da inspiração, autoridade, suficiência, inerrância e preservação das Escrituras, muitos destes seminários têm se afastado cada vez mais da verdadeira fides reformata (fé reformada).

Como os resultados das metodologias críticas empregadas pelo método histórico-crítico são quase sempre infrutíferos, e sua aplicação prática extremamente limitada, não é incomum que o produto final de muitos dos nossos seminários seja formandos despreparados para o ofício de ministros da Palavra. Nesta condição, não é de estranhar que, como observou Lopes, ‘‘...os púlpitos de bom número das igrejas evangélicas destilam uma espécie de sermão onde pouca ou nenhuma atenção se dá ao sentido original do texto bíblico’’.23  Destilam também, acrescento, teologias imprecisas e inconsistentes, que pouco edificam os membros de suas congregações.

C. Corrente Reformada

A corrente reformada de interpretação das Escrituras (objeto específico deste estudo) posiciona-se entre as duas correntes extremas já consideradas. Ela (a corrente reformada) caracteriza-se pelo equilíbrio resultante do reconhecimento do caráter divino-humano das Escrituras. Em função disso, os intérpretes desta corrente reconhecem a necessidade da iluminação do Espírito falando através da própria Palavra, ao mesmo tempo em que admitem a necessidade de interpretação gramatical e histórica das Escrituras. A interpretação reformada rejeita, por um lado, a alegorização indevida das Escrituras e, por outro, repudia uma postura primariamente crítica com relação a elas.

1. Método Gramático-Histórico

O método de interpretação adotado e praticado pela corrente reformada ou protestante conservadora é conhecido pelo nome de método gramático-histórico; o método de interpretação honrado pelo tempo, no dizer de M. Lloyd-Jones. Trata-se de um método fundamentado em pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos lingüísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Palavra de Deus.

2. Precursores: Escola de Antioquia e Agostinho

Os reformadores não criaram este método de interpretação bíblica do nada. Eles se fundamentaram no próprio ensino bíblico sobre a sua natureza e na prática apostólica. As origens da interpretação reformada também são encontradas na escola de Antioquia da Síria, que pode ser considerada precursora do método gramático-histórico. Seus principais representantes foram Teodoro de Mopsuéstia (†428) e João Crisóstomo (†407), o ‘‘Boca de Ouro’’. Eles rejeitaram tanto o literalismo judeu, como o alegorismo de Alexandria; defendiam uma interpretação literal e histórica das Escrituras; criam na realidade histórica dos eventos descritos no Antigo Testamento; defendiam a unidade das Escrituras e admitiam o desenvolvimento ou progressividade da revelação.24

Agostinho também pode ser considerado precursor do método gramático-histórico de interpretação bíblica. Ele não parece haver sido consistente na aplicação do seu método. De fato, sua distinção de quatro sentidos das Escrituras foi tão influente que prevaleceu por toda a Idade Média, como já foi visto. Apesar disso, ele estabeleceu importantes princípios de interpretação bíblica no seu manual de hermenêutica e pregação, De Doctrina Chistiana. Eis alguns desses princípios:25 

1. A fé é um pré-requisito fundamental para o intérprete da Palavra de Deus.

2. Deve-se considerar o sentido literal e histórico do texto.

3. O Antigo Testamento é um documento cristológico.

4. O propósito do expositor é descobrir o sentido do texto e não atribuir-lhe sentido.

5. O credo ortodoxo deve controlar a interpretação das Escrituras.

6. O texto não deve ser estudado isoladamente, mas no seu contexto bíblico geral.

7. Se o texto for obscuro, não pode se tornar matéria de fé. As passagens obscuras devem dar lugar às passagens claras.

8. O Espírito Santo não dispensa o aprendizado das línguas originais, geografia, história, ciências naturais, filosofia, etc.

9. As Escrituras não devem ser interpretadas de modo a se contradizerem. Para isso, deve-se considerar a progressividade da revelação.

3. Princípios Reformados

Tem sido reconhecido que a reforma teológica e eclesiástica do século XVI foi o resultado de outra reforma: uma reforma hermenêutico-exegética.26  De fato, a redescoberta das doutrinas bíblicas pelos reformadores e a reforma eclesiástica decorrente foram precedidas por um evidente rompimento com os princípios hermenêuticos e com a prática exegética medieval.

a. A Única Regra Infalível de Interpretação

A Reforma Protestante rejeitou veementemente a hermenêutica alegórica medieval, e registrou seu repúdio em alguns dos seus principais símbolos de fé. Eis um exemplo: o parágrafo IX do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster (idêntico ao mesmo parágrafo da Confissão de Fé Batista de 1689):

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.

Este parágrafo estabelece o princípio reformado fundamental de interpretação bíblica, segundo o qual a única regra infalível de interpretação das Escrituras é a própria Escritura. Ela se auto-interpreta, elucidando, assim, suas passagens mais difíceis. O que estas confissões querem dizer com essa afirmativa é que o sentido de uma passagem obscura não pode ser autoritativamente determinado nem por tradição, nem por decisão eclesiástica, nem por argumento filosófico, nem por intuição espiritual, mas sim, unicamente, por outras partes das Escrituras que expliquem e esclareçam o seu sentido.

b. Repúdio à Interpretação Alegórica Medieval

O parágrafo acima, citado da Confissão de Fé, também representa o repúdio dos reformadores ao método de interpretação quádrupla medieval. Em lugar dele, os reformadores ensinavam que cada passagem das Escrituras tem um só sentido, que é literal — a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras requeiram claramente uma interpretação figurada ou metafórica.

John Colet (c. 1467-1519) foi um dos primeiros reformadores a romper com o método alegórico medieval, ao expor em 1496, em Oxford, as cartas do apóstolo Paulo em seu sentido literal e no seu contexto histórico.27  Três anos depois, em 1499, ele já sustentava o princípio de que as Escrituras não podem ter senão um único significado: o mais simples.28

Lutero também rejeitou a interpretação alegórica. Defendeu que ‘‘nós devemos nos ater ao sentido simples, puro e natural das palavras, como requerido pela gramática e pelo uso do idioma criado por Deus entre os homens.’’29

Quanto a Calvino, sua aversão à interpretação alegórica era de tal ordem que ele chegou a afirmar ser satânica, por desviar o homem da verdade das Escrituras. ‘‘É uma audácia próxima do sacrilégio’’, escreveu ele, ‘‘usar as Escrituras ao nosso bel-prazer e brincar com elas como com uma bola de tênis, como muitos antes de nós o fizeram.’’30 

c. Necessidade de Iluminação Espiritual

Os reformadores reconheceram a natureza divino-humana das Escrituras, e enfatizaram o papel do Espírito Santo no processo de interpretação da sua mensagem. Para eles, o impedimento maior estava na cegueira espiritual do homem, em função da queda, e não nas Escrituras. Tanto para Lutero, como para Calvino,31 nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito Santo através da própria Palavra. Eis as palavras de Lutero sobre o assunto:

...a verdade é que ninguém que não possui o Espírito de Deus vê um til sequer do que está na Escritura. Todos os homens têm seus corações obscurecidos, de modo que, mesmo quando discutem e citam tudo o que está na Escritura, não compreendem ou conhecem realmente qualquer assunto dela... O Espírito é necessário para a compreensão de toda a Escritura e cada uma de suas partes.32 

d. Interpretação Gramatical e Histórica

Por outro lado, reconhecendo a natureza histórica das Escrituras, os reformadores defendiam a sua interpretação literal, enfatizando também a importância da gramática e da história na compreensão da sua mensagem.

Melanchton foi um dos responsáveis pela ênfase reformada na exegese gramatical. Em um discurso proferido em 1518 em Wittenberg, ele exortou seus ouvintes a recorrerem às Escrituras nas línguas originais, onde encontrariam Cristo, livre das discordâncias dos teólogos latinos. Lutero ficou tão impressionado com o que ouviu, que passou a assistir às aulas de grego de Melanchton, dedicando-se com afinco ao estudo do grego.33 

Mas foi Calvino, sem dúvida, quem melhor praticou a exegese gramatical e histórica. Ele tem sido considerado por muitos o maior intérprete da Reforma e um dos maiores de todas as épocas. A profundidade, lucidez e erudição dos seus comentários, que abrangem praticamente todos os livros da Bíblia,34  continuam a ser admirados e considerados atuais e raramente igualados.35  E não se pense que essa é a opinião apenas dos calvinistas (um compreensível exagero presbiteriano deste autor). Mesmo Jacobus Arminius (1560-1609), um dos mais conhecidos opositores das doutrinas de Calvino, reconhecia a excelência dos comentários dele, e chegou a recomendá-los como incomparáveis. Eis suas palavras:

Depois da leitura das Escrituras..., e mais do que qualquer outra coisa,... eu recomendo a leitura dos Comentários de Calvino... Pois afirmo que na interpretação das Escrituras Calvino é incomparável, e que seus Comentários são mais valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais — tanto assim que atribuo a ele um certo espírito de profecia no qual ele se encontra em uma posição distinta acima de outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos.36

e. Desenvolvimento do Método Gramático Histórico

Estes e outros princípios de interpretação praticados pelos reformadores (Lutero, Calvino e demais reformadores alemães, suíços, franceses e ingleses) viriam a ser desenvolvidos e adotados pelo protestantismo ortodoxo em geral desde então,37  e se tornaram conhecidos pelo nome de método gramático-histórico de interpretação bíblica.

Foi este o método empregado pelos puritanos no séc. XVII;38  pelos líderes evangélicos do século XVIII na Europa e América do Norte (tais como George Whitefield e Jonathan Edwards); pelo anglicano J. C. Ryle, pelo batista Charles Spurgeon na Inglaterra e pelos presbiterianos Charles e Alexander Hodge no Seminário de Princeton nos EUA, no século passado; e pelos intérpretes e pregadores protestantes (luteranos, anglicanos, presbiterianos e batistas) ortodoxos deste século.

Os manuais de hermenêutica de Davidson, Patrick, Imer, Terry, Berkhof, Berkeley, Mickelsen e Ramm pertencem todos a essa escola de interpretação bíblica, bem como os comentários bíblicos de Keil e Delitzsch, Meyer, Matthew Henry, Lange, Alford, Ellicot, Lightfoot, Hodge, Broadus e muitos outros.

O método gramático-histórico de interpretação bíblica desenvolvido pela corrente reformada é, de fato, a hermenêutica honrada pelo tempo. É um método coerente com a natureza das Escrituras; fundamenta-se em pressuposições teológicas bíblicas; e emprega princípios gerais adequados e métodos lingüísticos e históricos extremamente frutíferos.

CONCLUSÃO

A teologia e a praxis eclesiástica deformadas do evangelicalismo moderno clamam por reforma; clamam por um novo retorno às Escrituras. A corrente espiritualista de interpretação bíblica já foi colocada na balança e achada em falta: as hermenêuticas alegórica, intuitiva e existencialista, por não darem a devida consideração ao caráter humano das Escrituras, abrem espaço para todo tipo de eisegese. O caráter fantasioso destas hermenêuticas acaba desviando a atenção do leitor ou ouvinte do verdadeiro sentido do texto bíblico (aquele que o Espírito Santo intentou transmitir).

A corrente humanista de interpretação bíblica também já foi colocada na balança e achada em falta: a hermenêutica dos saduceus, dos humanistas renascentistas e da escola crítica, por não darem a devida atenção ao caráter divino das Escrituras, tendem a atribuir à razão a autoridade que pertence à revelação. Este caráter racionalista da hermenêutica humanista induz ao liberalismo teológico que acaba negando a legítima fé reformada.

A corrente reformada de interpretação bíblica também já foi colocada na balança da história, mas foi aprovada com louvor: o método gramático-histórico fundamentado no próprio ensino bíblico sobre as Escrituras e desenvolvido e aplicado pelos reformadores e seus legítimos herdeiros, por dar a devida atenção tanto ao caráter divino como ao caráter histórico das Escrituras, promoveu as reformas teológicas e eclesiásticas mais profundas já experimentadas pela igreja cristã.

Durante a Reforma Protestante do século XVI e a reforma puritana do século XVII, por exemplo, muito entulho religioso teve que ser rejeitado. Muitas doutrinas e práticas eclesiásticas acumuladas no decurso dos séculos tiveram que ser abolidas, quando reformadores e puritanos dedicaram-se com labor e oração a perscrutar as Escrituras para ver se as coisas eram de fato assim. A hermenêutica reformada das Escrituras já demonstrou ter a capacidade de revelar a falácia de doutrinas e práticas eclesiásticas ‘‘fundamentadas’’ em interpretações alegóricas, intuitivas, existencialistas e racionalistas.

Na convicção deste autor, o evangelicalismo brasileiro tem acumulado nos últimos cem anos — especialmente nas últimas décadas — considerável entulho religioso. Não é possível entrar em detalhes aqui. Mas a proliferação de teologias estranhíssimas, práticas litúrgicas inusitadas e condutas eclesiásticas no mínimo excêntricas, já descaracterizaram a fé e o culto reformados. Mesmo denominações historicamente reformadas têm absorvido doutrinas e práticas de culto inconsistentes com o ensino bíblico e com seus símbolos de fé. Esta descaracterização se explica, pelo menos em parte, pelo emprego das hermenêuticas deficientes que estivemos considerando.

Não é tempo, portanto, de reconsiderarmos os rumos que estamos tomando? De nos desvencilharmos das hermenêuticas alegóricas, intuitivas, existencialistas e racionalistas, e de retornarmos à hermenêutica reformada aprovada pela história? Não é tempo de fazermos da oração uma prática hermenêutica, suplicando pela iluminação do Espírito Santo; e de labutarmos no estudo diligente das Escrituras, dando a devida atenção à língua e às circunstâncias históricas em que foram escritas?

Orare e labutare é o caminho. Não é um caminho fácil nem mágico. Requer sinceridade e diligência. Talvez não forneça interpretações esplêndidas nem realce a criatividade, imaginação e genialidade do pregador. Mas é o antigo e bom caminho aprovado com louvor pela história. Ele deixa que a verdade de Deus opere e que as Escrituras falem com poder e graça, promovendo profundas reformas teológicas e eclesiásticas.

__________

Notas

1 Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o Que Lês? Um Guia para Entender a Bíblia com o Auxílio da Exegese e da Hermenêutica (São Paulo: Vida Nova, 1986) 19, 25.

2 Ver o capítulo primeiro da Confissão de Fé Batista de 1689.

3 Richard Baxter, "Directions for Weak Distempered Christians," em The Practical Works of Richard Baxter (Grand Rapids: Baker, 1981) 677.

4 F. F. Bruce, "The History of New Testament Study," em New Testament Interpretation: Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 28.

5 Um dos iniciadores e um dos principais nomes da escola alegórica de interpretação das Escrituras.

6 Bruce, "The History of New Testament Study," 28.

7 Ralph P. Martin, "Approaches to New Testament Interpretation," em New Testament Interpretation: Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 220.

8 Bruce, "The History of New Testament Study," 51.

9 Outros dados sobre a hermenêutica existencialista podem ser encontrados em Bernard L. Ramm, "La Nova Hermeneutica", em Diccionario de la Teología Práctica; Hermeneutica, ed. Rodolf G. Turnbull (Grand Rapids: Subcomisión Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1976) 83-88.

10 S. Taylor, "Saduceus," em Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. III (São Paulo: Vida Nova, 1990) 332.

11 B. J. Van der Walt, Anatomy of Reformation: Flashes and Fragments of a Reformed Cosmocope (Potchefstroom: Potchefstroom University for Christian Higher Education, 1881) 10, 26.

12 Enio Ronald Mueller, "O Método Histórico-Crítico: Uma Avaliação," em Entendes o Que Lês? Um Guia para Entender a Bíblia com o Auxílio da Exegese e da Hermenêutica, eds. Gordon D. Fee e Douglas Stuart (São Paulo: Vida Nova, 1986) 245.

13 Henry A. Virkler, Hermenêutica: Princípios e Processos de Interpretação Bíblica (Miami: Editora Vida, 1987) 52.

14 Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation: A Textbook of Hermeneutics, 3a. ed. rev. (Grand Rapids: Baker, 1973) 64.

15 Mueller, "O Método Histórico-Crítico," 257.

16 Mais sobre o assunto em David R. Catchpole, "Tradition History," em New Testament Interpretation: Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 165-180.

17 Tais como K. L. Schmidt, M. Dibelius e R. Bultmann.

18 Mais sobre o assunto pode ser encontrado em Stephen H. Travis, "Form Criticism," em New Testament Interpretation: Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 153-164.

 19 David Wenham, ‘‘Source Criticism,’’ em New Testament Interpretation: Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 144.

 20 Stephen S. Smalley, "Redaction Criticism," em New Testament Interpretation; Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 181.

 21 I. Howard Marshall, "Historical Criticism," em New Testament Interpretation; Essays on Principles and Method, ed. I. H. Marshall (Exeter: The Paternoster Press, 1979) 126.

 22 Uma crítica em português ao método histórico-crítico de interpretação das Escrituras pode ser encontrada em Mueller, "O Método Histórico-Crítico," 255-271. Nestas páginas Mueller expõe resumidamente as metodologias críticas e apresenta as objeções ao método histórico-crítico levantadas por Gerhard Maier, de Tübingen, no livro Das Ende der Historisch-kritischen Methode ("O Fim do Método Histórico-Crítico"), publicado em 1974, e no artigo ‘‘Concrete Alternatives to the Historical Critical Method," em Evangelical Review of Theology 6/1 (abril 1982).

 23 Augustus Nicodemus Lopes, ‘‘Lutero Ainda Fala: Um Ensaio em História da Interpretação Bíblica,’’ em Fides Reformata 1/2 (1996) 110.

 24 Ramm, Protestant Biblical Interpretation, 48-50.

 25 De acordo com Ramm, Protestant Biblical Interpretation, 36-37, e Virkler, Hermenêutica, 45.

 26 Ramm, Protestant Biblical Interpretation, 52.

 27 Bruce, "The History of New Testament Study," 29.

 28 Marvin W. Anderson, ‘‘La Reforma y la Interpretacion," em Diccionario de la Teología Práctica; Hermeneutica, ed. Rodolf G. Turnbull (Grand Rapids: Subcomisión Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1976) 52.

 29 Em sua obra Sobre a Escravidão da Vontade (citada por F. F. Bruce, The History of New Testament Study, 31). Este livro de Lutero, publicado inicialmente em 1525, foi condensado por Clifford Pond e publicado em inglês em 1984 com o título Born Slaves, e em portugês em 1992 pela Editora Fiel, com o título Nascido Escravo.

 30 Ramm, Protestant Biblical Interpretation, 58.

 31 Lamberto Floor enfatiza com muita propriedade este aspecto da interpretação bíblica de Calvino no artigo "The Hermeneutics of Calvin," em Calvinus Reformatur: His Contribution to Theology, Church and Society (Potchefstroom, South Africa: Potchefstroom University for Christian Higrer Education, 1982) 181-191.

 32 Citado por Ralph A. Bohlmann, Princípios de Interpretação Bíblica nas Confissões Luteranas (Porto Alegre: Casa Publicadora Concórdia, 1970) 29.

 33 Anderson, "La Reforma y la Interpretación," 54-55.

 34 Com exceção de 2 e 3 João e Apocalipse (no Novo Testamento).

 35 Ver Ramm, Protestant Biblical Interpretation 57; e Louis Berkhof, Principios de Interpretación Biblica (Grand Rapids: Subcomisión Literatura Cristiana, 1976) 52.

 36 Carta escrita a Sebastian Egbertsz, publicada em P. van Limborch e C. Hartsoeker, Praestantium ac Eruditorum Virorum Epistolae Ecclesiasticae et Theologicae (Amsterdam, 1704), nº 101 (citado por Bruce, "The History of New Testament Study," 33).

 37 Cf. Virkler, Hermenêutica, 49.

 38 Breves exposições em português dos princípios de interpretação puritana das Escrituras podem ser encontradas no capítulo ‘‘Os Puritanos como Intérpretes da Bíblia’’ em J. I. Pacher, Entre os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 1996) 105-114; e em Leland Ryken, Santos no Mundo: Os Puritanos como Realmente Eram (São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 1992) 155-159.


12.2. Revelação e Inspiração

Panorama do Antigo Testamento
Tarcízio de Carvalho

Aula 2: Revelação e inspiração

CASO #
Abraão é uma lenda, a legislação mosaica foi formulada séculos depois da existência de Moisés, os hititas nunca existiram, o livro de juízes são apenas historietas interessantes e não fatos, e Sargão e Sambalate nunca existiram!

Deus tão profundamente interessou-se em revelar a si mesmo que deixou registro histórico. Creio, particularmente, que a importância do registro histórico é em virtude dele saber que somos, por causa de pecado, ruins de interação. Como vocês já devem saber, isso começou desde que nossos primeiros pais romperam com a interação comum que havia entre Deus e eles.
Aqueles que fizeram as afirmações acima não aceitavam a precisão histórica da Bíblia, e, consequentemente, lançaram fora também todo o clamor teológico associado à história.
Diversos críticos têm procurado negar a historicidade das Escrituras como as reais e fidedignas palavras de Deus, como revelação ímpar, em função de uma ausência temporária de evidência externa.
Entretanto, descobertas arqueológicas têm demonstrado que as críticas (acima) e diversas outras estão equivocadas e que a Escritura é digna de confiança em tudo o que afirma.

A Bíblia é um livro histórico e as verdades do cristianismo estão baseadas nos fatos históricos revelados. Se o fato de Moisés separar as águas do mar Vermelho, o fato do nascimento virginal de Cristo, o fato da crucificação e o fato da ressurreição forem deixados de lado, a fé cristã é completamente sem fundamento e sem sentido. E a essa altura dos acontecimentos ninguém poderia sequer reclamar como fonte de autoridade apenas o Novo Testamento, pois ele está totalmente alicerçado na Escritura mais antiga, o Antigo Testamento.
É verdade que a verdade histórica (a existência de alguém chamado Jesus, por exemplo) não demonstra a validade da verdade teológica (de que ele era Deus, por exemplo). Mas deve-se levar em conta, pelo menos, que a veracidade histórica da Escritura credencia a mensagem teológica.

REVELAÇÃO
Basicamente o fundamento de toda religião está em uma revelação. E quanto a isso, ao menos, há um certo consenso entre as religiões. Quanto ao nosso assunto, a Bíblia, nada poderia ser dito de mais correto! Se Deus não tivesse se revelado nenhum ser humano seria capaz de conhecê-lo.
De acordo com o testemunho interno da Escritura esse ponto de vista — da incompreensibilidade de Deus — é explícito. Vejam as passagens de Jó 11.7; Isaías 40.12-14; Romanos 11.33-36 e 1 Coríntios 2.10,11.
Ao mesmo tempo Deus é incognoscível, pois só ele pode esquadrinhar as coisas como elas são; e cognoscível na medida da necessidade que o ser humano tem. E mesmo o conhecimento que o ser humano possa vir a ter de Deus é porque aprouve ao próprio Deus revelar-se.

Deus criou o ser humano para ter interação com ele. Mas depois do ocorrido no jardim do Éden (Gênesis 3) essa interação passou a ser possível somente porque haveria a "semente da mulher", vitoriosa, que restauraria a interação perdida. Essa semente, através dos descendentes, foi tipologicamente se apresentando como diversos personagens da Escritura mais antiga, o Antigo Testamento, até que viesse o descendente, Jesus Cristo. E nesse período Deus continuou a revelar-se. Sua revelação, depois do evento da desobediência da mulher e do homem, não seria mais apenas verbalizada como a que certamente havia antes da Queda; sua revelação seria registrada. E observe-se que, diferente de qualquer outro povo antigo, sua revelação foi tão estrondosa que nunca houve dúvidas de que ele não tivesse falado objetivamente, e de que era ele mesmo a falar.

A palavra revelação significa colocar a descoberto o que era anteriormente desconhecido. Na teologia judaico-cristã o termo refere-se à comunicação divina, de Deus ao ser humano. Deus se revela. Ele se dá a conhecer e à sua vontade. Essa revelação ocorre de várias maneiras: oral (Gn 3.14-17; 6.13; 9.1, 17; 12.1), através de epifanias (Gn 16.7-14; Ex 3.2; Jz 2.1), por escrito (Ex 17.14; 34.27; Sl 119.130; Is 30.8; Jr 30.2; Ap 1.11) e a mais perfeita revelação — Jesus Cristo (Gn 3.15; Ef 1.15-23; Cl 2.13-15; Hb 1).
Costuma-se fazer distinção entre revelação natural e sobrenatural e entre revelação geral e especial. A distinção entre revelação natural e sobrenatural (apesar de ambas serem de fato sobrenaturais) está no modo, na maneira como a revelação se dá.
Os fenômenos naturais, sem palavras, são essa revelação natural — no micro e macro mundo.
A revelação sobrenatural é quando se vê Deus intervindo no curso natural das coisas, podendo utilizar palavras nessa etapa. Nessa revelação sobrenatural os fatos explicam as palavras e vice-versa.
A distinção entre geral e especial não está na maneira da revelação ocorrer, mas em saber quem é o objeto da revelação de Deus.
A revelação geral de Deus baseia-se na criação do mundo e do ser humano. Envolve em seu escopo as relações entre Deus e o mundo e entre Deus e os seres humanos. Nesse sentido, a revelação geral tem por objetivo sinalizar ao ser humano o que ele deveria ser como imagem de seu Criador.
A revelação especial de Deus é o descortinar da redenção ao ser humano pecador: o motivo, o processo, as palavras e os atos maravilhosos envolvidos — culminando no Deus encarnado, Jesus Cristo. Nesse sentido, a revelação especial tem por objetivo levar eficazmente o pecador de volta a Deus.

Algumas correntes negam um lado ou outro da revelação:

Panteísmo

Revelação é uma palavra que não se encaixa no sistema panteísta. A revelação, no panteísmo, é algo desnecessário uma vez que tudo revela um ser maior. Além disso, a idéia atrelada ao termo cristão "revelação", traz a idéia de um Deus pessoal, mas fora do ser humano.

Ateísmo

Uma vez negada a existência de Deus ou, como preferem alguns existencialistas, ignorando essa questão, certamente o termo revelação não fará o menor sentido.

Deísmo

O deísmo reconhecia a revelação geral de Deus. Entretanto, negavam a necessidade, a possibilidade e a realidade de uma revelação especial. Segundo esse pensamento a revelação geral seria suficiente até mesmo para salvar alguém do pecado.

Liberalismo

Muitos movimentos liberais, neo isso e neo aquilo, têm trabalhado basicamente com uma parte da revelação geral. Verbalizam nos discursos, mas negam na prática a necessidade da revelação especial. Em geral desprezam ou negam a revelação sobrenatural afinal, quem ainda acredita em milagres!?!?!

Teologia Negra

A teologia da minoria (já acho que não são minoria...mas...) negra entende revelação de uma forma mais pragmática. Sua experiência de opressão é o padrão autoritativo.

Teologia Neo-ortodoxa

Para estes a Bíblia contém a Palavra de Deus. Apesar da Palavra ser revelada através da pregação da Bíblia e de Cristo, por causa da falibilidade da Bíblia, Deus revela-se somente quando há um encontro místico na Escritura.

Teologia da Libertação

Para essa corrente a Bíblia não é um livro de verdades e regras eternas, mas um livro de história que auxilia a vivenciar movimentos de libertação. A revelação que importa aqui é a obtida através da "Nova hermenêutica", ou seja, o que vale é a interação direta e imediata do leitor com o texto.

Teologia Existencial

Para estes a revelação se esconde atrás dos mitos criados pelos autores do primeiro século acerca de Jesus, dos milagres e até mesmo da ressurreição. Dessa forma, rejeitando a revelação objetiva é que a pessoa vai encontrar direção para a sua vida. A Bíblia é apenas um pretexto para um "encontro existencial". Bem poderia ser num romance qualquer.

Apesar da distinção entre revelação geral e especial, sua revelação é de fato uma unidade. A divisão é mais para nosso proveito didático. O primeiro casal, antes de desobedecer, recebeu instruções por meio de revelação: para ser fecundo, para se multiplicarem, para encherem a terra e a sujeitarem; para dominarem sobre os animais e para se alimentarem de todas as árvores em que há fruto que dê semente. Apenas não deveriam tomar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

O resultado já é conhecido. Pois assim, devido à corrupção do ser humano este não pode mais se apoiar em quaisquer conclusões baseadas na criação: animais, astros, ou até mesmo exclusivamente em sua razão, seu raciocínio. É por isso que se afirma que é uma arbitrariedade basear-se na revelação geral para conhecer a Deus. A criação e o próprio ser humano permanecem, sim, como um testemunho à verdade de Deus. A Bíblia afirma a revelação geral (Sl 19.1-6; 50.1-6; Rm 1.16-23), mas a relaciona com a revelação especial redentora. A Escritura declara em um mesmo lugar que o Verbo é criador e redentor (Jo 1.1-18). Em passagens como esta em João, a Escritura apresenta a revelação geral junto com a especial, a fim de que todos percebam que são indesculpáveis. A revelação de Deus, portanto, mostra a real situação da raça humana — uma criatura finita, mas com um destino eterno. Uma criatura feita para desfrutar comunhão com o Criador, mas agora separado de seu Criador pelo pecado.
A revelação anuncia ainda as boas novas do Deus santo e misericordioso que dá a salvação como um presente ao ser humano que não pode salvar-se. O presente se fez completo em Cristo, em quem todos devem crer para desfrutarem da eternidade junto ao Criador.
A razão ainda é um reflexo de que a imagem de Deus habita em todo ser humano. Mas a revelação, insistimos, é a fonte da verdade. A razão, à medida que é iluminada pelo Espírito Santo, é o instrumento para compreender a revelação.

INSPIRAÇÃO
A Escritura é o livro soprado por Deus (2 Tm 3.16, theopneustos). Ao se falar de inspiração, portanto, está-se falando de inspiração para a revelação escrita. Houve muito mais revelação do que o registro que se possui. O evangelista João atesta essa verdade, pois Jesus fez muitos outros sinais que não foram registrados. Somente uma parte da revelação que Jesus fazia de si mesmo através também dos sinais é que foi registrado (Jo 20.30,31). Isso significa que os autores humanos foram guiados pelo Espírito Santo. Como resultado dessa ação, o que eles escreveram era sem erro, sem falhas e de profundo valor para o ser humano. O resultado da revelação, a Bíblia, constitui-se na regra infalível de fé e prática para a humanidade. A revelação escrita é a forma de Deus tornar permanente sua revelação, e a forma de fazer isso é através da inspiração.
Infelizmente a Bíblia não descreve exatamente como Deus inspirou os autores humanos. Assim, surgem muitas perguntas. Que papel os autores tiveram na escrita da Escritura? Até que ponto Deus lhes deu latitude, liberdade no registro?

Aqueles que têm examinado as Escrituras tentando resolver esse problema propõem várias teorias. Existem quatro mais comuns: A Teoria Neo-Ortodoxa, a Teoria do Ditado, a Teoria da Inspiração Limitada e a Teoria da Inspiração Verbal Plenária.

TEORIA
NEO-ORTODOXA

A teoria Neo-ortodoxa sustenta que Deus é totalmente transcendente, ou seja, ele é absolutamente diferente de nós e muito além da nossa compreensão. Só podemos conhecer alguma coisa a seu respeito se ele se revelar a nós, como fez em Jesus Cristo.

Até aqui parecemos estar de acordo, não é mesmo? Mas a diferença entre este ponto de vista e a visão reformada é que esta última sustenta que a Bíblia é a Palavra de Deus; a visão neo-ortodoxa é de que a Bíblia é uma testemunha à Palavra de Deus, ou, em outros termos, que a Bíblia contém a Palavra de Deus. Segundo essa teoria as pessoas dos tempos bíblicos experimentaram Deus e registraram seus encontros da melhor forma que podiam fazer. Mas, como eram criaturas finitas, encontram-se alguns paradoxos ou até mesmo erros. Mesmo assim, continua a teoria, a descrição que fizeram ajudou a outros a entenderem a Deus melhor. Assim, à medida que outros experimentavam Deus através das narrativas, aqueles escritos tornavam-se a Palavra de Deus novamente.

Avaliação

Certamente devemos elogiar a neo-ortodoxia por ter uma visão de Deus tão elevada (transcendente, diferente de nós e além da compreensão). Entretanto a Bíblia é mais do que um mero testemunho da Palavra de Deus. Segundo 2 Timóteo 3.16,17 a Escritura ér a Palavra de Deus. A Bíblia reivindica que Deus revelou-se e que o Espírito Santo inspirou pessoas para registra-la (2 Pe 1.20,21). E eles puderam fazer isso porque Deus acomodou-se à compreensão limitada deles. Essa teoria, portanto, falha em dar uma explicação adequada para toda a evidência bíblica.

TEORIA
DO DITADO

Essa teoria sugere que Deus simplesmente ditou a Bíblia para os escribas humanos. Segundo a teoria, Deus escolheu certas pessoas para registrar suas palavras e então lhes concedeu as palavras que queria. Afirmam assim que os autores somente escreveram o que Deus lhes ditou.

Avaliação

A Escritura, na verdade, sugere que algumas vezes Deus comunicou-se com extrema precisão, palavra por palavra aos autores (Jr 26.2 e Ap 2.1,8). Em outros lugares ele permitiu que os escritores expressassem suas próprias personalidades (Gl 1.6; 3.1; Fp 1.3,4,8). Ainda assim, o Espírito Santo assegurou o término da obra, comunicando precisamente a intenção de Deus. Sendo assim, a teoria do ditado se encaixa em algumas ocorrências e em muitas outras, não.

TEORIA DA
INSPIRAÇÃO LIMITADA

Essa teoria sustenta que Deus inspirou os pensamentos dos escritores bíblicos, mas não as palavras que viriam a escolher. De acordo com a teoria, Deus guiou os escritores à medida que escreviam, mas lhes deu liberdade para expressar seus pensamentos do seu próprio jeito. Por isso, argumentam, é que pode haver certos detalhes escritos que contenham erros. Ainda assim, acrescentam, o ensino doutrinário foi resguardado assim como a mensagem de Deus acerca da salvação.

Avaliação

É importante observar o ponto que essa teoria levanta. O reconhecimento de que a Escritura contém declarações difíceis de serem reconciliadas. Mas, perguntamos: a melhor solução é admitir o erro? Afinal, há abundante ênfase na Bíblia nos detalhes históricos. Assim, ao se ler Romanos 5.12-21 é preciso crer em um Adão histórico. As palavras de Jesus em Mateus 12.41 implicam que o livro de Jonas não é uma parábola. Além disso, as descobertas arqueológicas com freqüência têm resolvido os alegados problemas nos registros (como ressaltamos com os casos apresentados na abertura dessa aula). Parece então mais prudente afirmar a confiabilidade da Escritura, de toda a Escritura, à medida que aguardamos mais evidências para clarear as dificuldades.

TEORIA DA
INSPIRAÇÃO VERBAL
PLENÁRIA

Essa teoria também assevera que o Espírito Santo interagiu com os escritores humanos para produzir a Bíblia. A palavra "plenária" e "verbal" descrevem o ponto de vista particular que essa teoria dá à inspiração. Plenário significa "pleno", "completo". Assim, a inspiração plenária assevera que a inspiração de Deus se estende a toda à Escritura, de Gênesis a Apocalipse. Deus guiou os autores quer seja no registro dos detalhes históricos quer seja nas discussões doutrinárias. O termo "verbal" refere-se às palavras da Escritura. Assim, a inspiração verbal significa que a inspiração de Deus estende-se a cada uma das palavras que os escritores escolheram. Isso significa que tanto os escritores poderiam ter escolhido outras palavras quanto Deus teria dado liberdade para que os autores utilizassem seu próprio estilo. Mas, o Espírito Santo de tal forma guiou o processo, que as palavras que eles escolheram convergiam exatamente para o significado pretendido por Deus. A inspiração verbal e plenária sustenta então que Deus inspirou toda a Bíblia. A despeito de os escritores terem recebido liberdade para expressarem-se de acordo com seu estilo e personalidade, a inspiração compreende até mesmo as palavras que escolheram. Ao mesmo tempo o Espírito guiou o processo de tal forma que o produto final refletiu fielmente a mensagem de Deus.

Avaliação

Essa teoria parece tratar melhor com as evidências bíblicas. Ela reconhece o elemento humano na Escritura e também afirma que o Espírito Santo é o seu autor.

É interessante observar que o fato de Deus soprar — dar vida, conhecimento e julgamento —, é uma realidade que permeia a Escritura de ponta a ponta. O livro de Gênesis 2.7 registra que Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida; Jesus soprou sobre os discípulos antecipando em sua atitude a realidade que viria, o Espírito Santo (Jo 20.22); e, no dia final, o Senhor Jesus matará o iníquo com o sopro de sua boca (2 Ts 2.8).
Ora, o Espírito Santo não suprimiu a personalidade de Moisés, de João ou de Paulo como se eles estivessem escrevendo algo psicografado. Não! O Espírito Santo capacitou os homens a quem escolheu a aplicarem corretamente seu ensino (João 14.26).
A individualidade dos autores humanos não foi posta de lado, pois na Bíblia há várias formas de linguagem e estilos literários.
A inspiração deve ser considerada de modo abrangente. Deus, o Senhor da história, fez com que um autor nascesse em determinado tempo e lugar, capacitou-o, equipou-o com uma educação definida, fez com que participasse de determinadas experiências e posteriormente fez com que lhe viesse à mente fatos e implicações desses fatos para que fossem cuidadosamente registrados. Nesse processo de escrita o Autor Primário da Escritura, Deus, em conexão orgânica com o autor e toda sua atividade precedente, sugeriu à mente do autor humano a linguagem (palavras) e o estilo para que fosse o veículo apropriado para a interpretação das idéias divinas, para o povo de todas as épocas.

IMPLICAÇÃO PRÁTICA
A doutrina da inspiração verbal plenária e a doutrina da revelação têm importante implicação para os cristãos. Em primeiro lugar, elas desembocam na conclusão de que a Bíblia é confiável (veja 1 Rs 17 e observe as repetições. A conclusão da mulher ao final foi essa — entendeu que a Palavra do Senhor através do profeta era confiável). Isso significa que a Bíblia fornece informação fidedigna. Ela proporciona entendimento da história do povo de Deus e também do plano de Deus para a salvação de todos os seus filhos. Ela revela ainda o tremendo significado da vida, contando para nós como nos tornarmos tudo aquilo que Deus pretende que sejamos.

Em segundo lugar a inspiração verbal plenária e a revelação significam que a Bíblia é autoritativa. Pode parecer lugar comum reconhecer isso novamente. Mas é uma conclusão inescapável. A Bíblia, por ser a Palavra de Deus, ela fala com a autoridade de Deus. A Bíblia assim nos convida a lê-la, a entender suas implicações e a nos submetermos a ela. E mesmo que alguém escolha não se submeter a ela, ainda assim ela continua sendo a verdade de Deus. A Escritura como um todo nos coloca diante de uma alternativa: obedecer a vontade de Deus ou se opor a ela.
Moisés chamou esta palavra de vida (Dt 32.47). Do que a chamaríamos hoje?

A leitura obrigatória está nos capítulos 1 a 3 do livro: Introdução Bíblica: como a Bíblia chegou até nós, de Norman Geisler e William Nix.

Após ter lido e estudado a aula, pressione o ícone Referências na barra de ícones acima. Localize e faça a(s) leitura(s) obrigatória(s). Se desejar e houver, faça a(s) leitura(s) complementar(es). Ao terminar deixe-me uma mensagem confirmando ter feito a leitura obrigatória. Inclua na mensagem seus comentários e opiniões sobre as leituras.


12.3. Bibliografia de Teologia Bíblica

Bibliografia

Essa está longe de ser uma bibliografia completa e apresenta autores de diversas linhas teológicas, ortodoxos e não ortodoxos.  Não estou recomendando a compra destes livros! São apenas uma referência básica do material usado pelo professor.

Em português:

Alfons Deissler, O anúncio do Antigo Testamento, tradução Luiz João Gaio (São Paulo, Ed. Paulinas, 1984).

A. Crabtree, Teologia do Velho Testamento, 4ª ed. (Rio de Janeiro, JUERP, 1986).

Claus Westermann, Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Paulinas, 1982).

Georg Fohrer, Estruturas Teológicas Fundamentais do Antigo Testamento (São Paulo: Edições Paulinas, 1982).

George Eldon Ladd, Teologia do Novo Testamento (Rio de Janeiro: JUERP, 1984).

George Ernest Wright, O Deus Que Age (São Paulo, ASTE, 1967).

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